Há tempos venho tentando encontrar um ponto em comum entre as linhas de raciocínio dos articulistas da grande mídia. Achei: Bovarismo. Pois bem: Madame Bovary, personagem do livro de mesmo nome de Gustave Flaubert, odiava a vida que vivia, o lugar onde morava, as pessoas que as convenções a obrigavam respeitar, etc. Como fruto disso, a alienação de si e a fantasia que cria um mundo que não existe aparecem para a personagem como forças inevitáveis e arrebatadoras.
Trazendo essa visão para a mídia corporativa nacional, poderíamos citar de seu ódio e vergonha por ser brasileira. Essa frustração pode ser encontrada no extremo pessimismo para com o futuro do Brasil (suspenso quando a "canarinho" entra em campo, aliás, esse amor pela "amarelinha" foi percebido como saudável por ela, a Santa Ditadura Militar...), bem como no potencial de seu povo e do presidente que esse povo elegeu - expressos diariamente nos editoriais dos jornais e telejornais (não nos esqueçamos das semanais...). A partir disso - e tal como a Sra. Bovary sonhava com os salões parisienses -, nossos pensadores elegem o que julgam o lugar melhor, o lar imaginário que estabelecem como arquétipo da perfeição – sem perceberem aí a gênese de sua alienação e imprecisão nas projeções (geralmente catastróficas) para os rumos do Brasil. Os pensamentos de nossos patéticos formadores de opinião teimam em vaguear entre os Estados Unidos e a Europa, colocando esses lugares como parâmetros positivos para tudo; cabe ressaltar, até genocídio em troca de petróleo é tido como normal em nossos jornais.
Dois exemplos: 1) Bolsa Família, 0,38% do PIB indo para os bolsos dos nossos famintos. Que mal há nisso? Assistencialismo? 0,38 % do PIB para matar a fome dos miseráveis que, SIM, existem? Não, meus caros; a palavra não é assistencialismo (do Governo), é bovarismo (na mídia). Gastar, seja lá quanto for, no combate à fome é admitir a existência da miséria. Madame Bovary não suporta. Sua mente "hemisfério norte" precisa ser respeitada. Admitir a existência dos "desdentados" (palavra usada freqüentemente pelo Reinaldo Azevedo) é ter de pensar neles, e pensar neles faz mal ao arquétipo... Estrutura desse arquétipo: Cinemark, sim. Samba de roda, não. Capitão Nascimento, sim. Brizola, não. 2) Copa do Mundo no Brasil, evento comumente revolucionário na infra-estrutura dos países-sede. Qual o problema de vir ao Brasil? Prejuízo ao erário? Desvio de verbas? Não. Bovarismo. Eventuais buracos nos banners podem deixar a imagem das favelas passar para as lentes que levarão a Copa para as telas de TV mundo a fora. Vergonha! A realidade brasileira é algo a ser recalcado, mostrar isso ao mundo é mostrar a mim, e mostrar a mim é me fazer lembrar... Paris, sim. Capão Redondo, não. Nova Iorque, sim. Cidade de Deus, Deus me livre.
Termine de ler no Pequena Mídia.
Bem interessante esta visão.
ResponderExcluirTambém achei.
ResponderExcluirObrigado pela postagem, Zé.
ResponderExcluirForte abraço,
Rodrigo