Foi das mais decepcionantes a iniciativa do ministro Cezar Pelulo, relator do processo de extradição de Cesare Battisti no Supremo Tribunal Federal, de adiar mais uma vez o desfecho de uma pendenga que já está verdadeiramente decidida desde o momento em que o governo brasileiro concedeu o refúgio humanitário ao perseguido político italiano.
O ponto final da novela seria na próxima 2ª feira. Não será mais: Peluzo concedeu à Itália cinco dias para apresentar seus argumentos, aliás sobejamente conhecidos.
Quando um caso ganha a repercussão que este adquiriu, trava-se uma verdadeira guerra de versões, tão discrepantes entre si que torna quase impossível a qualquer cidadão isento situar-se nesse cipoal de informações e interpretações conflitantes.
Então, chega um momento em que se deve confiar, acima de tudo, na própria sensibilidade e espírito de justiça.
O que salta aos olhos no caso é que Cesare Battisti foi inicialmente condenado por delitos menores e anos depois, graças à delação premiada de um indivíduo obcecado em transferir suas responsabilidades para costas alheias, recebeu a pena máxima.
É indiscutível que esse julgamento final transcorreu num momento político no qual já não se faziam verdadeiros julgamentos na Itália, mas sim linchamentos com verniz de legalidade.
A liberdade de uma democracia não é segura se o povo tolera o crescimento de poder privado ao ponto de tornar-se mais forte que o próprio Estado democrático. Isto, em essência, é fascismo – o apossamento do governo por uma pessoa, por um grupo, ou qualquer poder privado de controle. (Franklin Delano Roosevelt)
“Santo Agostinho conta a história de um pirata capturado por Alexandre, o Grande, que lhe perguntou: ‘Como você ousa molestar o mar?’. ‘E como você ousa desafiar o mundo inteiro?’, replicou o pirata. ‘Pois, por fazer isso apenas com um pequeno navio, sou chamado de ladrão; mas você, que o faz com uma marinha enorme, é chamado de imperador’.”
A citação abre o prefácio do livro de 1986 “Piratas & Imperadores – O terrorismo internacional no mundo real”, do pensador e professor Noam Chomsky, e resume uma questão fundamental que hoje intriga as relações internacionais, a do terrorismo. Que se coloca num mundo em que um império belicista, reinante num curto interregno entre o fim da II Guerra em 1945 e o ano 2008, tentou dominar a cena internacional nos últimos oito anos do seu fátuo esplendor pela manipulação falseada do conceito de terrorismo.
O tema do eterno retorno é recorrente na história da filosofia. Como se os fenômenos históricos e humanos assumissem o comportamento de cometas, que, periodicamente, perturbam a consciência e a tranqüilidade dos homens. Já para o sábio Karl Marx, cujo pensamento se reafirma com respeitável atualidade a cada passo contemporâneo, a história não se repete a não ser como farsa.
O século XX, a par de seus avanços tecnológicos e científicos acelerados, foi chamado de ‘século do genocídio’, tal a quantidade de ‘limpezas étnicas’ e ‘banhos de sangue’ que tingiram sua história. O século XX assistiu também ao surgimento, consolidação, ascensão e queda de Estados totalitários os mais diversos, a exemplo do III Reich hitlerista e do gigante soviético stalinista, ao lado de sócios menores em favorecimento às elites econômico-financeiras, repressão à dissidência e supressão de liberdades, como a Itália fascista do patético Mussolini e dezenas de aparentados espalhados por todos os cinco continentes, como a maioria dos Estados latino-americanos na década de 1970. Sobre as cinzas da queda dos Estados totalitários, os Estados autodenominados democráticos proclamam-se triunfantes e vencedores.