sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

O Índice de Estupidez Local

O Índice de Estupidez Local (IEL) é uma maneira de se contabilizar o grau de estupidez de uma população. Sua regra é simples: divida o número de camionetes pelo número de habitantes de um local, e você saberá qual o IEL da região. Por exemplo: digamos que morem 100 pessoas em uma rua, e na mesma hajam 3 camionetes de propriedade dos moradores. Teríamos 0,03 IEL, algo assim não tão baixo.

O IEL também pode ser utilizado para se estimar a estupidez de locais públicos, como bares e restaurantes. Digamos que o restaurante tenha capacidade para 50 comensais, e ali estejam estacionadas 5 camionetes. Teríamos o altíssimo nível 0,1 IEL. Melhor cair fora.

O IEL costuma ser um medidor seguro de estupidez. Proprietários de camionetes (não estou falando de camionetes como placas "faço carreto", estou falando de ricaços que utilizam diesel subsidiado para ir ao xópim) tendem a ser mais arrogantes, mais autistas e quase-homicidas. Muitas vezes eles arriscam a vida alheia leviamante ao dirigirem como babacas, ao estilo sai-da-frente. Muitas vezes eles não se preocupam com o risco para si e para os outros, pois sabem que têm mais chances de sair vivos de um acidente do que os outros.

Enfim, muitas vezes os camioneteiros escolhem veículos poluidores e pesados porque os mesmos dão mais chances de matar os outros do que a si mesmos, o que é um alívio para quem não quer ou não gosta de dirigir com prudência.

Via Animot.

O patético julgamento de Saddam, os criminosos de guerra

Corte de Apelações lê documento de 1.500 páginas da defesa do ditador em dois dias. (Via Keld Bach.)

O julgamento de Saddam não cobre todos os crimes de guerra cometidos no Iraque na última década. Segundo a UNICEF, as sanções econômicas impostas ao Iraque pela ONU entre 1990 e 2002 resultaram na morte de meio milhão de crianças iraquianas. (Novamente via Keld Bach.)

Nenhum governante ou diplomata precisou enviar sequer um bilhete a corte de apelação alguma. E Saddam não está sendo julgado pela morte dessas 500.000 crianças. Como seria leviano tratar tais mortes como naturais, seria de se esperar que os maiores defensores das sanções econômicas, os não tão amigos das crianças Estados Unidos e Inglaterra, respondessem por tais crimes.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

A privataria vem aí

Aqui vai novo alerta, Yeda vai mentir de novo. [...] Yeda na TV falava que existia uma campanha sórdida contra ela, acusando-a de querer privatizar, ao contrário do que afirmava durante toda a campanha.
História completa no Agente 65.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Editora "1.o de" Abril: negócios obscuros e associação com grupo vinculado ao apartheid

O sítio da Band traz uma série de reportagens sobre o grupo editorial "1.o de" Abril. Eis o enlace:

Editorial Grupo Bandeirantes

Nas reportagens se diz que há obscuridades na composição do capital do grupo, e também que um dos seus principais sócios, o grupo Naspers, lucrou com o regime do apartheid na África do Sul.

Via Tribuna Petista ("Band x Editora Abril").

Michael Moore envia carta ao povo e ao Congresso dos Estados Unidos

"Amigos,

Hoje (27/11) marca o dia em que permanecemos no Iraque mais tempo que aquele que levamos para combater na Segunda Guerra Mundial.

É isso mesmo. Nós fomos competentes para derrotar a Alemanha Nazista, Mussolini e o Império Japonês inteiro em menos tempo que a única superpotência mundial gastou para tentar tornar segura a estrada que liga o aeroporto de Bagdá ao centro da cidade.

E nós não conseguimos fazer isso. Após 1.437 dias, no mesmo tempo que levamos para irromper pela África do Norte, conquistar as praias da Itália, conquistar o Pacífico Sul e libertar toda a Europa Ocidental, nós não pudemos, após 3 anos e meio, conquistar sequer uma simples estrada e proteger a nós mesmos de bombas caseiras, feitas de latinhas, colocadas em buracos nas rodovias. Sem contar que uma viagem de táxi do aeroporto até Bagdá, de 25 minutos, custa 35 mil dólares e o motorista não te dá sequer um mísero capacete para sua proteção." [...]
Leia a carta no Biruta do Sul.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Carta Capital sobre o carlismo

Os jornais locais e nacionais não se atreveram a repercutir a matéria de capa da revista Carta Capital. Que silêncio. O colapso do carlismo na Bahia: esse é o título da matéria. Por que será? A matéria é resumida, mas, bastante reveladora da extensão do prejuízo aos cofres públicos nestes 40 anos de poder oligárquico e 16 anos de governos sucessivos. Não vai ser fácil desmontar a máquina. O nome do deputado ACM Neto (PFL) está incluído em nada menos que 54 empresas entranhadas na estrutura estatal. O deputado José Carlos Aleluia (PFL), o radical anti-Lula, fatura alto com a empresa Lebre. Mas tem Rodolfo Tourinho, tem Tude, tem laranjas pra todo lado. A mídia se calou, mas a revista circula de mão em mão.
Carta Capital Provoca Impacto ao Revelar Merdunço do Carlismo - Bahia de Fato
Parte da reportagem está disponível no sítio da Carta Capital.

O lado

As referências em defesa do meio ambiente ficam como perfumaria. O PRBS [Partido da Rede Brasil Sul] expressa AS POSIÇÕES DO AGRONEGÓCIO.
O PRBS sempre escolhe um lado, o da elite - Blog Ponto de Vista

Falta da cultura

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

"Novo jeito de governar", ou o RS vive sua Idade das Trevas política

Um trecho de uma postagem do Boa Noite Pro Porco:
Ônix Lorenzoni, deputado federal e presidente do PFL gaúcho, em almoço ontem com lideranças de seu partido e com o vice-governador eleito, Paulo Feijó, ao Correio do Povo (Assinantes) de hoje:

"Não conhecemos ainda o novo jeito de governar de Yeda".

Entre outras reclamações, "Enfatizou que Yeda sequer explicou ao partido, que foi seu parceiro desde o 1º turno da eleição, quais as suas intenções iniciais de projetos para o Rio Grande".
Se os companheiros de chapa da governadora eleita não compreendem seu slogan de campanha, "novo jeito de governar", imagine seus eleitores.

É o RS vivendo sua Idade das Trevas política.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Trecho de The Groung Truth


The Ground Truth é um documentário sobre o custo (principalmente humano, principalmente de vidas e almas de estadunidenses) da invasão do Iraque. É possível ver e gravar trechos através do VideoRonk (pesquisa "ground truth").

No trecho acima, veteranos de guerra (garotos de 20 anos) falam da dor de ter matado civis, e do quanto é antinatural, apesar do treino embrutecedor, matar seres humanos.

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PS - Encontrei este material através de pistas deixadas na discussão Progressive Periodicals do grupo Progressive & Liberal! do LibraryThing.

O telemarketing falcatrua da Folha de São Paulo

Visitei um tio assinante da Folha ontem. Percebi que o jornal do dia estava intacto em um canto. Comentei que não lia mais jornais, ele disse que também não.

Só continua recebendo a Folha por ser enganado e enrolado pelo telemarketing da empresa. Eles dizem que não são capazes de contatar os fornecedores locais, os fornecedores fornecem, a fatura é debitada mensalmente.

A serviço do Brasil, né?

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PS - Pra falar a verdade ainda leio o Brasil de Fato. Em Porto Alegre tem na Banca da República e nas melhores casas do ramo.

sábado, 2 de dezembro de 2006

Bush em estado de negação

More than half a million deaths, an army trapped in the largest military debacle since Vietnam, a Middle East policy already buried in the sands of Mesopotamia - and still George W Bush is in denial. How does he do it? How does he persuade himself - as he apparently did in Amman yesterday - that the United States will stay in Iraq "until the job is complete"? The "job" - Washington's project to reshape the Middle East in its own and Israel's image - is long dead, its very neoconservative originators disavowing their hopeless political aims and blaming Bush, along with the Iraqis of course, for their disaster.
Robert Fisk via Crooks and Liars (postagem)

"Momento de Saigon" no Iraque

Iraq se está despedazando. Los signos del colapso están por todas partes. En Bagdad la policía recoge a menudo más de 100 cuerpos torturados y mutilados en un solo día. Los ministerios gubernamentales se hacen la guerra. Una nueva y siniestra etapa en la desintegración del Estado iraquí sobrevino este mes cuando comandos de la policía del Ministerio del Interior controlado por los chiíes secuestraron a 150 personas del Ministerio de Educación Superior dirigido por suníes en el corazón de Bagdad.

Iraq puede estarse acercando a los que los USamericanos llaman ‘el momento de Saigón,’ la ocasión en la que se hace evidente para todos que el gobierno expira. “Dicen que los asesinatos y los secuestros son realizados por hombres en uniformes de la policía y con vehículos policiales,” me dijo este verano el Ministro de Exteriores iraquí, Hoshyar Zebari, con una sonrisa desesperanzada. “Pero todos en Bagdad saben que los asesinos y secuestradores son verdaderos policías.”


La cosa se pone peor. El ejército y la policía iraquíes no son leales al Estado. Si el ejército de USA decide enfrentar a las milicias chiíes, puede encontrarse con unidades militares chiíes del ejército iraquí que cortan la principal ruta de suministro USamericana entre Kuwait y Bagdad. Un convoy fue detenido este mes en un puesto de control supuestamente falso cerca de la frontera con Kuwait y capturaron a cuatro encargados de la seguridad USamericanos y un austriaco.


La posición de USA y Gran Bretaña en Iraq se parece mucho más a una casa construida sobre arena de lo que comprenden en Washington o Londres, a pesar de los desastres de los últimos tres años y medio. El presidente Bush y Tony Blair muestran una singular incapacidad de aprender de sus propios errores, en gran parte, para comenzar, porque no quieren admitir que han cometido algún error.
[...]
Patrick Cockburn, "Iraq se Acerca al "Momento de Saigón"
- Rebelion

Porto Alegre caindo aos pedaços

Definitivamente, há algo estranho acontecendo em Porto Alegre. A cidade anda, literalmente, caindo aos pedaços. Meses atrás, tivemos o trágico episódio da queda de um poste em um parque que acabou causando a morte de uma criança que brincava no local. Mais recentemente, uma ambulância deixou cair uma paciente na rua. O caso mais recente ocorreu na tarde desta sexta perto da esquina da avenida João Pessoa com a rua da República. Um pedaço da marquise de um prédio localizado nesta área caiu e atingiu duas pessoas que passavam pela calçada. [...] Postes e pedaços de marquises caindo, pacientes caindo de ambulâncias. É muita coincidência. A repetição de casos como estes parece indicar mesmo uma evidente queda na qualidade dos serviços públicos.
Caindo aos Pedaços? - RS Urgente

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Yeda e seus ouvidos só para os coronéis de sempre

[...] o futuro governo vai mostrando sua cara. É um governo ligado umbilicalmente ao grande empresariado gaúcho que terá amplo acesso às esferas de poder do Palácio Piratini. Até agora, trabalhadores urbanos e rurais, servidores públicos, pequenos e médios empresários e os movimentos sociais só assistem ao teatro montado no Hotel Embaixador. 
A Fábrica de Consensos de Papel - RS Urgente

sábado, 25 de novembro de 2006

Prêmio Empulhação

Na linha da bolsa-boçalidade, premiação instituída pelo Boa Noite Pro Porco, o Blog Ponto de Vista tem o Prêmio Empulhação.

22 de dezembro, dia de salvar o mundo pelo orgasmo

Que tal unir o mundo em um grande orgasmo no próximo dia 22 de dezembro? Pela paz, pelo futuro.

A proposta da Global Orgasm é unir o mundo adulto em um grande orgasmo sincronizado.

É uma das melhores, mais esclarecidas e responsáveis das idéias de ação pela paz que vi em muito tempo. É algo que está ao alcance e ao desejo de todos. Bem, talvez não de Bush, talvez não do Papa, talvez não da Opus Dei, talvez não dos fundamentalistas aburridos e lideranças tanatistas deste início de milênio, mas, precisamente, eis o problema.

(Tanatistas: os líderes que conduzem a humanidade à guerra, à morte. Erotistas: os líderes que conduzem a humanidade à união, ao amor.)

Segundo o blog Global O (postagem Thanks, and Keep Spreading the Word), a idéia é unir a humanidade em torno do seu impulso para o amor, a união, ao outro.

Há muito impulso para o ódio, a guerra e o egoísmo no mundo atual. Precisamos de algum equilíbrio, coisa que o aahhhhh-global pode ajudar a trazer.

(Postado originalmente no Animot.)

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Maneiras de boicotar a Editora Abril

- Evitar a Veja e a MTV

- Evitar os produtos e serviços dos patrocinadores da Veja e da MTV

- Ligar para o 0800 dos patrocinadores da Veja e da MTV e explicar que você não compra seus produtos por causa do apoio financeiro dado à imprensa tendenciosa-no-armário (sem declarar explicitamente sua posição POLÍTICA explícita) e desrespeitadora da inteligência do público

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

As bancadas das grandes empresas

Bancada da Vale do Rio Doce: 47 deputados

Bancada da Gerdau: 27 deputados

Bancada do Itaú: 27 deputados

Bancada da Aracruz: 16 deputados

Nós, grandes acionistas, capitalistas sem pátria, agradecemos.

Ver Terra Magazine, Diário Gauche e Boa Noite pro Porco

PSDB e PFL, além da compreensão

Não dá para entender uma oposição que não defende aquilo em que acredita e ainda morre de dar risadas quando tromba com seu próprio programa.
Oposição em clima de brincadeira colegial - Franklin Martins

"Liberdade, Essa Palavra", documentário sobre Aécio Neves e a mídia mineira

Relação com os meios de comunicação, estilo PSDB mineiro

Agosto de 2006. O Centro Acadêmico Afonso Pena, entidade representativa dos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG publica uma edição especial de seu jornal Voz Acadêmica. O título: 4 anos sem liberdade de imprensa na terra da liberdade. Em suas doze páginas, o Voz denuncia o espancamento de professores em greve, a maquiagem das contas do governo, o direcionamento da imprensa oligárquica do estado pela irmã do governador (“dedicada tutora do ainda não interdito”), o silêncio sepulcral sobre a CPI da MBR, os subsídios da Cemig — Companhia Energética de Minas Gerais à Vale do Rio Doce e outras mineradoras.

Com humor e sutileza, mas também com veemência, o jornal expõe os desmandos do governo Aécio Neves. Um governo no qual, em torno de uma imagem moderna, jovial e festiva, tem-se construído um clima de unanimidade forçada. Encarnando o otimismo, o governador promete devolver ao estado a expressão política perdida desde o fim do gerenciamento militar. Mas por trás de seu sorriso, esconde-se a continuidade do domínio oligárquico e de suas violências — entre elas, a censura à imprensa.

-- Saudações a quem tem coragem, em A Nova Democracia

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Imune

Porque ela, a Folha, como se sabe, sofre daquela patologia do patrãozinho gótico: está imune a qualquer emoção positiva.
-- Nirlando Beirão na CartaCapital da semana, p. 45

O Dia da Inconsciência Branca

Hoje publico aqui no Blogoleone umas postagens que republico todo dia 20 de novembro no Animot.

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Hoje, 20 de novembro, é o Dia da Consciência Negra. É uma data importante. Primeiro, por ser uma data dedicada à reflexão, à consciência. Segundo, pelo objeto da reflexão, a situação acintosa na qual nós brancos deixamos os negros no nosso país.

Nós, brancos ("branco racista" é quase pleonasmo), somos os responsáveis pela precária situação de vida dos negros. Nós deveríamos ser os primeiros a refletir sobre nossos próprios erros. Nossos principais crimes, bastante graves, têm sido:

* Assassinato de negros - Policiais fazem isso o tempo todo; só nos indignamos quando eles matam um branco de classe média (veja o caso daquele garoto de São Leopoldo).
* Estupro de negros - nossos antepassados eram estupradores de escravas - de avós, de mães, de irmãs, de mulheres.
* Roubo de terras - Nós brancos somos ladrões. Grileiros adoram tirar uma terrinha de uma família negra. No RS o caso de Morro Alto, cidade próxima de Osório, ilustra isso muito bem.
* Discriminação no trabalho - Tente encontrar um trabalhador negro no Unibanco, por exemplo. É bem difícil. Já para encontrar um branco ou uma loira é só abrir os olhos.

A lista de crimes que merecem ser punidos e que devem levar a reparações é muito maior, mas já deu pra sentir o clima.

Eu me envergonho de ser um brasileiro branco. Acho que pertenço a uma das etnias mais brutais do planeta.

A primeira vez que publiquei um post intitulado O dia da inconsciência branca foi em 20 de novembro de 2003. A edição do Correio do Povo daquele dia foi paradigmaticamente inconsciente. Eis o que encontramos na capa do jornal:

CORREIO DO POVO
PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 20 DE NOVEMBRO DE 2003
Pelotas e Alvorada sem feriado

Os desembargadores Vasco Della Giustina e Paulo Augusto Monte Lopes, do Tribunal de Justiça do Estado (TJ), concederam ontem liminares solicitadas pela Federação do Comércio de Bens e Serviços do RS (Fecomércio) suspendendo os feriados municipais de 20 de novembro em Pelotas e em Alvorada. Com mais essa decisão, o poder Judiciário gaúcho acabou com as esperanças de três municípios gaúchos - Porto Alegre, Alvorada e Pelotas - de fazer feriado hoje em comemoração ao Dia da Consciência Negra, em homenagem ao líder Zumbi dos Palmares.

A liminar expedida na sessão do Órgão Especial do TJ na segunda-feira, considerando inconstitucional o feriado em Porto Alegre, pelo fato de não ser religioso, serviu como base para as ações de ontem. À noite, o Tribunal de Justiça também negou dois agravos regimentais que pediam a cassação das liminares. Os agravos foram interpostos pela Câmara Municipal e pelo município de Pelotas, e pelo Movimento Negro Unificado e pelo Centro Memorial de Matriz Africana 13 de Agosto.
A notícia me revoltou. No que ficou dito, claro ficou o não dito:

* Empresários brancos entraram na justiça contra o feriado. Talvez isso não tenha sido dito porque "empresário branco" é quase um pleonasmo.
* É um absurdo que tais empresários não tenham sido imediatamente presos, sem direito a fiança, sob a acusação de racismo. É o que exige nossa Constituição.

Até aqui as coisas já iam mal, mas o que veio após a capa era muito pior. Era o puro pesadelo do racismo aparecendo descaradamente na página de opinião do jornal. Eis o que escreveu um sujeito supostamente com estatura moral suficiente para ser um "formador de opinião":

PORTO ALEGRE, QUINTA-FEIRA, 20 DE NOVEMBRO DE 2003
Nosso Colaborador

QUASE FERIADO
Percival Puggina

Se a Justiça não tivesse impedido, hoje seria feriado em Porto Alegre. Uma iniciativa da Câmara de Vereadores, sancionada pelo prefeito, havia transformado em feriado municipal o Dia da Consciência Negra, que coincide com a morte de Zumbi, no ano de 1695. Com grande risco de parecer politicamente incorreto, atrevo-me a afirmar que discordo da idéia. Fazer feriado para celebrar a consciência de uma determinada raça significaria termos um dia inteiro de folga para pensar em raças. Convenhamos, dar tanta importância assim ao assunto, passar a vida lidando com ele e remexendo nele parece coisa de gente racista. E é exatamente assim, como procedimento racista, aliás, que vejo toda essa pressão cobrando quotas raciais nas universidades, nos locais de trabalho e nos espaços de publicidade.

Sob o ponto de vista econômico, haveria um dia a menos de trabalho para cerca de 500 mil pessoas, o que corresponderia a um prejuízo de 4 milhões de horas e a um dano econômico superior a R$ 30 milhões. "Há coisas que valem mais do que dinheiro", filosofavam os defensores da idéia - nenhum dos quais, por certo, com responsabilidade sobre folhas de pagamento. É verdade, há sim. Mas qual o ganho que a raça negra teria em Porto Alegre e qual o prejuízo dela em Canoas, onde não seria feriado? Não sei.

Suponhamos, por outro lado, que nossas autoridades locais tenham razão e que houvesse algum proveito, fosse qual fosse. Nesse caso, conviria multiplicá-lo significativamente usando outras possibilidades que a história e o calendário, benevolamente, nos propiciam: a) dia da consciência índia, fazendo feriado em 7 de fevereiro, que corresponde à morte do grande Sepé Tiaraju, no ano de 1756; b) dia da consciência revolucionária latino-americana, folgando em 9 de outubro, que corresponde à morte de Che Guevara, no ano de 1967; c) dia da consciência socialista e antiimperialista, no qual o 11 de setembro cumpre os dois objetivos, pois, em 1973, suicidou-se Allende e, em 2001, foram explodidas as torres gêmeas. E poderíamos rematar com um feriadinho dedicado a nós mesmos, no dia da consciência dos bobos, em 1o de abril.

www.puggina.org

arquiteto
Foi uma das coisas mais cruéis que se possa imaginar, em termos de racismo verbal. No Dia da Consciência Negra, o jornal abre espaço, na parte de opinião, a um branco com preconceitos indizíveis. E o branco escreve seus preconceitos, e os mesmos são publicados.

Não é preciso dizer que isso bastou para mim dizer "não, obrigado" a esse jornal irresponsável e inconsciente, desde então. Espero que você faça o mesmo.

Eis a postagem que publiquei em 2003, muito revoltado, imediatamente após ter lido o que o sujeito acima mencionado, morador de um mundo moral muito cruel, escreveu:

O dia da inconsciência branca - No Brasil, o dia 20 de novembro é dedicado à Consciência Negra. No Rio Grande do Sul, é triste, doloroso e vergonhoso constatar que o mesmo mais parece o Dia da Inconsciência Branca.

Empresários porto-alegrenses vociferaram contra o feriado do dia 20 de novembro, alegando prejuízos. Poderiam ter sido honestos, e alegar pouco caso com a questão racial, ou mesmo assumir o próprio racismo. Se a questão são prejuízos por dias parados, e a possibilidade destes deve ditar a agenda social, então o melhor é acabar com o feriado do Natal.

É claro que o problema não são os ditos prejuízos ocasionados por uma data comemorativa, pois os empresários são engenhosos quando querem transformar o que quer que seja em fonte de lucro. O problema é que eles não querem nem mesmo lucrar com a consciência do próprio racismo. Para eles, que o 20 de novembro seja o Dia da Inconsciência Branca, o dia ao qual eles não vincularão nem mesmo algum tipo de fonte de lucro.

É repugnante assistir ao espetáculo da cloaca racista gaúcha, no qual todos nós brancos gaúchos estamos em maior ou menor grau envolvidos. Enquanto não fazemos nada, enquanto silenciamos quando outros gaúchos brancos chamam, em páginas dedicadas a editorias de jornais como o Correio do Povo, a consciência negra de bobice, o mínimo que fazemos é celebrar, amargamente, nossa própria inconsciência.

Eu realmente me envergonho de pertencer a uma etnia brutal, estúpida e intolerante como os brancos gaúchos e brasileiros. Hoje [2005, 2006], como fiz no ano passado, e no anterior, me dedicarei a refletir sobre minha própria inconsciência.

Nesse ano [2005] o feriado caiu em um domingo. Talvez por isso os brancos não entraram na justiça contra ele, se é que não entraram. [Em 2006 a cidade - Porto Alegre - segue em frente, inconsciente.]

Sabe, depois de tirarmos tudo dos negros, depois de os roubar, os usar, os estuprar, os matar, ainda exigimos que não haja pausa alguma para a reflexão.

Talvez a maior de todas as brutalidades, aquela que anima todas as outras, seja a irreflexão. A inconsciência.

Leitor branco (pleonasmo?), toma consciência da tua parte em toda essa violência. E te emenda.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

O Partido Republicata

A representação popular é problema no Império, a entidade política cuja alegada superioridade moral sobrevém de um dos seus valores fundamentais, a democracia.

DownWithTiranny! traz matéria sobre o que chama de Partido Republicata, o partido da e para as grandes corporações estadunidenses.

O Partido Republicata é a união do Partido Republicano e do Partido Democrata estadunidenses, ambos mais favoráveis ao capital do que ao cidadão estadunidense.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Propaganda, estilo RBS

Na semana passada, o Relatório de Desenvolvimento Humano 2006, da Organização das Nações Unidas (ONU), citou Porto Alegre como paradigma na gestão da água. O assunto foi destaque de capa em Zero Hora, com direito a anúncio de página inteira da administração Fogaça, louvando o feito como se fosse seu. Nenhuma referência foi feita ao fato de que a avaliação da ONU foi feita a partir de um relatório de 2004, referindo-se portanto às políticas do período em que o PT esteve a frente da Prefeitura. Como se isso não bastasse, nesta segunda, ZH publica um editorial sobre o assunto defendendo que o reconhecimento da ONU não deve ser atribuída a este ou aquele governo. É a cereja no pudim da guerra ideológica que a RBS promove sistematicamente todos os dias. As regras desta guerra são muito simples. Só deve haver atribuição a este ou aquele governo em dois casos. Se for um governo de esquerda, responsabilização direta nos casos negativos e omissão nos casos positivos. Se for um governo de direita, o inverso.
-- RSUrgente

sábado, 11 de novembro de 2006

Oaxaca

Foto de manifestação ocorrida na Feira do Livro de Porto Alegre no dia 7 de novembro de 2006. No Jean Scharlau.

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

O Mundo Segundo Bush


O Mundo Segundo Bush (Le Monde Selon Bush, 2004, direção de William Karel, ficha do filme na IMDb), é um documentário fundamental. O foco do filme é o belicoso e intolerante fanatismo religioso cristão que fundamenta as escolhas e decisões de Chimp the Prez (Presidente Chimpanzé, como dizem alguns estadunidenses).

Acima, o filme completo, infelizmente sem legendas em português.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Pateta, Donald, Mickey

Do Blog do Kayser.

França testa míssil nuclear -- cadê as sanções?

A França testou um novo míssil nuclear de longo alcance. Bush, o pacifista, não anunciou sanções até agora.

Se não anunciou sanções é porque não é contrário à proliferação de armas nucleares.

Bush não é contrário à proliferação de armas nucleares. Ele é contrário à posse de armas nucleares por aqueles que vê como inimigos.

Mas isso não é política de paz. Nem é política. É guerra.

Notícia no Mail & Guardian.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

No imaginário PSDBista a Internet é vigiada

Mais uma do PSDB: controlar a Internet, já que a mesma não é tão dócil quanto aquela coisa obsoleta, os jornalões com seus autoproclamados e pouco confiados além de muito ridos "formadores de opinião".

Eduardo Azeredo, senador do PSDB, propõe que todos os usuários da Internet sejam identificados.

Quem ganha com isso? Economicamente, as empresas que vendem o agora pouco procurado serviço de controle de tráfego. Politicamente, aqueles que curtem controlar. O partido dos mesmos é fácil de adivinhar.

Quem perde com isso? Nós que estamos aqui, no espaço eletrônico, lutando para não sermos feitos de palhaços. Nós, o público, e o espaço público.

Cara, o PSDB vai de mal a pior.

Notícia em Jornalismo & Internet.

Na Cidade Baixa a administração Fogaça despeja, destrói casas, desampara

A administração Fogaça, à frente da prefeitura de Porto Alegre, despejou e destruiu as casas de cinco famílias do bairro Cidade Baixa ontem, terça-feira. Estava cumprindo uma ação de reintegração de posse que poderia ter sido adiada ao menos até que as famílias tivessem um novo teto. Notícia no RSUrgente.

Julgamento de torturador

Pela primeira vez um torturador será julgado pelos seus crimes no Brasil. Notícia no Diário Gauche.

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Sobre os beiços e melindres da mídia livre

Não costuma ser fácil descobrir o que alguém quer dizer quando fala em nome da democracia, da ética, da liberdade de expressão; a dificuldade é, justamente, a de compreender a quais eventos, atitudes e ações expressões como 'democrático', 'ético', 'bom', se referem em um determinado discurso. E os proferidores de discursos, por certo, aproveitam-se dessa zona de imprecisão, sobretudo quando pretendem convencer o maior número de pessoas possível de que falam em seu nome; em nome de todos e de cada um.
Se ainda assim queremos alcançar alguma clareza a respeito do que 'democrático' significa em uma fala específica, será de grande utilidade observar quais coisas são reputadas por seu proferidor como 'anti-democráticas'. Por esse exame indireto, pode-se descobrir que um termo pode variar de significado até às raias do contraditório, dependendo do que está em jogo em situações específicas. Afinal, ninguém disse que proferidores são coerentes; os ocos das palavras admitem mais de um forro, quer saiam da boca de adversários, quer saiam da boca de um único indivíduo. Veja-se, por exemplo, o comentário de Alberto Dines ... (Ler mais.)

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Gerdau é cogitado para o ministério de Lula

Do Diário Gauche
Jorge Gerdau Johannpeter no ministério de Lula, no segundo mandato. É o que informa o jornalista Kennedy Alencar da Folha, repercutindo especulações de Brasília. Gerdau é um grande empresário do ramo da siderurgia – um setor que já não é mais “de ponta” há muitas décadas, pois teve o seu auge na segunda revolução industrial, no final do século 19. A siderurgia e os produtos de aciaria tem como concorrentes o plástico e o alumínio. O Brasil participa em apenas 3% do comercial mundial de produtos siderúrgicos, tendo 11 empresas no setor e empregando menos de 400 mil pessoas, direta e indiretamente envolvidos. É muito pouco. No plano internacional dos grandes business o setor siderúrgico simplesmente não existe. É considerado um setor atrasado e que exige muito protecionismo estatal, objeto de tensões comerciais no mundo todo. Sua última grande evolução tecnológica foi na década de 50, quando o setor adotou o conversor a oxigênio e o lingotamento contínuo.Gerdau teve um grande impulso patrimonial e nos negócios a partir do processo de privatizações do governo FHC, quando o grupo Gerdau assumiu a estatal Aços Finos Piratini. Estudiosos do setor apontam as privatizações, das décadas de 80 e 90, como um grande salto positivo para o negócio de metalurgia no Brasil e no mundo. Os EUA optam por oferecer forte protecionismo ao setor para torná-lo competitivo no comércio internacional. Esses elementos todos mostram o quanto o setor é dependente do Estado para continuar competindo com as novíssimas tecnologias, muitas delas auto-sustentáveis – o que não é o caso da siderurgia. Gerdau é um surfista dessa onda, capitão de um setor atrasado mas com métodos gerenciais modernos, tem conseguido no Rio Grande do Sul projetar uma imagem de modernidade e dinamismo, mesmo que seja de pura aparência. Politicamente é um emulador entusiasmado da direita no RS, estando permanentemente por trás dos grandes projetos de domínio do aparelho estatal gaúcho, desde Britto, Rigotto e agora com Yeda Crusius. A sua ascensão para o governo federal, caso se confirme, será uma vitória dos setores mais dependentes e predatórios do Estado, seja no âmbito regional, seja no nacional, bem como um golpe abaixo da linha da cintura no PT do Rio Grande do Sul. Lula pensa que está comprando uma Ferrari, mas a entrega revelará que trata-se de um Ford Bigode.

sábado, 21 de outubro de 2006

O momento da blogosfera

O que é a blogosfera? Inútil buscar a resposta em enciclopédias e fontes de informação tradicionais. O negócio é perguntar ao oráculo, o Google. Escrevo "define: blogosfera" no campo de busca. O oráculo diz:

Espaço virtual onde ficam todos os blogs; mundo dos bloggers.

A fonte da informação é um "Pequeno Glossário da Blogosfera". A Wikipédia traz, no artigo "blogosfera":

Blogosfera é o termo coletivo que compreende todos os weblogs (ou blogs) como uma comunidade ou rede social. Muitos blogs estão densamente interconectados; blogueiros lêem os blogs uns dos outros, criam enlaces para os mesmos, referem-se a eles na sua própria escrita, e postam comentários nos blogs uns dos outros. [...]
O conceito de blogosfera é importante para a compreensão dos blogs. Os blogs eles mesmos são, essencialmente, apenas o texto publicado dos pensamentos de um autor, enquanto a blogosfera é um fenômeno social.

A blogosfera caracteriza-se por conter páginas da Internet feitas por pessoas que manifestam seus gostos e opiniões sobre o que lhes interessa. Os blogueiros alimentam seus blogs com fotos e relatos do cotidiano, e também com material de sítios da Internet, principalmente de outros blogs. Eis o aspecto social da blogosfera. Em sentido amplo, a blogosfera é o mero agregado de blogs. Em sentido estrito, a blogosfera é mais do que um agregado, pois é uma comunidade na qual opiniões e contribuições de um blogueiro são ecoadas pelos outros.

Alguns minimizam a importância blogosfera. Dizem que a mesma é insular, sem impacto para além de si mesma. No entanto, não parece ser esse o quadro no Brasil. A campanha “Xô Sarney!”, promovida pela blogueira Alcinéa Cavalcante, é um exemplo de impacto da blogosfera do debate político. O candidato a senador José Sarney chegou a publicar no blog da Alcinéa um direito de resposta, sob determinação do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá.

O mínimo a ser dito é que a blogosfera faz barulho, e é escutada. Talvez uma metáfora proposta por Franklin Martins possa nos ajudar a compreender como se abriu espaço para a blogosfera ser ouvida. Martins percebeu que nas eleições presidenciais de 2006 os “formadores de opinião” dizem o que dizem, mas as pessoas não reproduzem os memes por eles emitidos. Ele diz que em outros tempos aquilo que os “formadores de opinião” diziam repercutia tal como as ondas causadas por uma pedra jogada no meio de um lago. As ondas se propagavam até chegar às margens. Agora o quadro mudou. Há diques entre o centro do lago e as margens. Aquilo que vêm do centro é refletido de volta sem chegar à margem. Talvez seja isso que tenha levado alguns desses “formadores de opinião” (e as aspas se justificam no contexto atual) a uma histeria cada vez maior, a qual sem dúvida foi contraproducente.

A metáfora acima explica como a opinião pública se emancipou dos “formadores de opinião”, pessoas com espaço ou salário para escrever em páginas de opinião de uns poucos jornais. Mas não é suficiente para explicar como a blogosfera é escutada. Para explicar isso talvez o melhor seja darmos uma olhada na imagem proposta pelo blogueiro Alon. Ele tem uma teoria composta de dois elementos sobre a difusão de idéias na nossa sociedade. Primeiro, uma revisão da metáfora da pedra no lago. Segundo, uma visão sobre a capilaridade entre a Internet e o público em geral.

Na visão de Alon não há diques impedindo as opiniões emitidas no centro de chegarem às margens. Ao invés disso, o que ocorre é que estão sendo lançadas muitas pedras no lago ao mesmo tempo. Boa parte dessas pedras são bem pequenas (e-mails, postagens em blogs), mas todas juntas deixam a superfície do lago bem tumultuada.

Tal tumulto é a trama de mensagens partindo de diversas partes e chegando a diversas outras partes em um único tecido, em uma única superfície, a sociedade.

Só com isso a teoria é incompleta, pois não explica como o ruído da blogosfera e da Internet pode chegar às margens, aos sem-Internet. Aí entra o segundo elemento da teoria do Alon. Basta que em uma comunidade um garoto saiba e possa usar a Internet para que a turbulência do lago possa chegar a todos na comunidade pela comunicação oral.

A teoria do Alon tem o mérito de tratar do modo como algumas idéias ultrapassam a barreira da Internet, mas é preciso reconhecer que tal barreira existe. Recentemente, o jornal Libération utilizou a expressão “bloguesia” para se referir à parcela da população que detém conhecimentos e meios (tecnologia) para se expressar de uma maneira que ainda não está acessível a todos, e influencia a tomada de decisões através desse meio. Ainda que talvez todos possam escutar o ruído da blogosfera, ainda estamos longe de contar com todos como falantes na mesma.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Em torno da candidatura de Yeda

Fórmula simplista de Paulo Feijó, candidato a vice-governador do RS: menos Estado = mais desenvolvimento.

Se a fórmula é pra valer, então no dia que o BNDES (o banco do desenvolvimeto) for fechado o Brasil vai explodir em crescimento.

Alguém aí se arrisca a desenvolver o raciocínio?

História no RSUrgente, charge no Blog do Kayser.

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A candidata Yeda dá de barato a fórmula para arrasar com os serviços públicos: funcionários aposentados não serão substituídos.

Sem funcionários os serviços não funcionam. Se não funcionam, aqueles que dizem que não funcionam acertam.

Isso é irresponsabilidade.

No RSUrgente.

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Você consegue imaginar Leonel Brizola e Paulo Feijó defendendo as mesmas posições?

Se sim, é provável que você tenha ótima imaginação. Se não, é provável que você lembre de alguns dos "tijolaços" do velho Briza.

RSUrgente analisa o brado "viva Leonel Brizola!" da candidata Yeda.

Briza nunca foi favorável a nenhum desses autoproclamados "novos" jeitos de governar. Seu modelo de governante, claro e explícito, sempre foi Getúlio Vargas. É bem diferente.

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Yeda cancela participação em debates.

No RSUrgente.

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Yeda propõe trazer ao RS o modelo de gestão da segurança aplicado por Alckmin em SP.

O crime organizado agradece.

No RSUrgente.

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E o candidato a vice Paulo Feijó admite que não tem nada sobre privatização no seu programa de governo, mas isso pode mudar.

Ou seja, o programa é mera tinta sobre papel.

No sítio do Olívio.

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E a candidata Yeda estava com o vice-prefeito de Porto Alegre, Eliseu Santos, quando ele manifestou desprezo pelas religiões afro.

Ela endossa a posição de Santos? Ela acha que religiões afro não são "obras de Deus"?

No RSUrgente.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

O mais espantoso mesmo...

O espantoso mesmo é a Opus Dei ter um candidato a presidente da república. Quem e o que a Opus Dei representa é o horror.

Também é espantoso que tal fato espantoso passe por algo natural.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Outro "dossiê"

"Miguel Freitas, carioca, garimpou um bom punhado de matérias que a falha de são paulo, a revista see (como dizem os eleitores de chuChucky) e outros abaitolá$ de $inhá mídia já publicaram, tempos atrás, mas que, assim como o conteúdo do dossiê dos sanguessugas, preferem, hoje, deixar pra lá."

O Pirata nos apresenta em sua zine este bem fundamentado dossiê, com informações reunidas de várias fontes, todas citadas e lincadas (disponível em Power Point e PDF). Vai lá que é quentíssimo, e gratuito.

domingo, 15 de outubro de 2006

A cor da violência

O relatório do "Estudo das Nações Unidas sobre a Violência contra Crianças", encomendado pela ONU, aponta para o fato de 70% dos jovens entre 15 e 18 anos assassinados no Brasil serem negros. Além disso, segundo a Folha de São Paulo, "a raça também representa 70% na estimativa de 800 mil crianças brasileiras sem registro civil. Entre os indicadores negativos, os negros só perdem para a população indígena na taxa de mortalidade infantil".

A violência, como fica confirmado mais uma vez, tem uma triste vinculação com os indicadores de desenvolvimento humano. Cruzando estes novos dados com os números de 2005 do PNUD, que informam que 64% da população negra vive na pobreza e que, dentre os 10% mais pobres da população brasileira, 71% são negros, não se pode pensar que é mera coincidência o fato desta população protagonizar a maior parte dos casos de violência do País. Excluídos da cidadania, sem perspectivas de estudo e trabalho, jovens de periferia são os indivíduos mais expostos à criminalidade, qualquer que seja o seu "papel" nos ciclos da violência.

Este massacre racial, assim caracterizado não só em razão da cifra absurda de homicídios que vitimam negros, mas também por uma cultura discriminatória que exclui milhões de brasileiros da cidadania, não gera tamanha comoção como a queda de um avião. É para o que alerta Cenise Monte Vicente, coordenadora do Escritório do Unicef em São Paulo: "Se somarmos as 14 mortes por dia, é mais de um Boeing a cada duas semanas, sendo a maioria formada por negros [...] É importante investigar as causas da tragédia do Boeing. Mas em relação a essas mortes [de jovens e negros], a gente não tem a mesma atitude e vigilância. Alguma coisa está errada."

sábado, 14 de outubro de 2006

Pietà


Today in Iraq nos traz a foto (acima) do corpo de uma garota de 8 anos, morta em um bombardeio estadunidense, sendo preparado para o funeral.

Os estadunidenses e ingleses suficientemente sofisticados para racionalizar perdas como a vida dessa garota de 8 anos deveriam ser, da mesma forma, igualmente sofisticados para reconhecer que, na cultura ocidental, a dor dos pais e parentes da garota morta é da mesma natureza da dor daquela que os devotos tratam como mãe e virgem ao mesmo tempo.

No fundo do que há de melhor na cultura ocidental há, entre outras coisas, a figuração da dor dessa mãe-virgem. Seu filho, o próprio Deus encarnado, é cadáver nessa representação.

O próprio Deus, cadáver, morto pelos homens, no colo da sua virgem mãe.

Se mortes como a da garota da foto não dizem nada para estadunidenses e ingleses, só posso achar que aquilo pelo que eles lutam é algum tipo de barbárie estranha. Se, do ponto de vista deles, tal morte não lhes diz respeito, só posso concluir que eles vivem em um mundo moral muito distante daquele fundamental para a cultura cristã-européia.

Se nessa história toda há alguém ameaçando a civilização européia, certamente não são aqueles com o raro privilégio e triste azar, nos últimos tempos, de viver num dos berços da mesma, entre os rios Tigre e Eufrates.

O neo gauchismo

Ou a síndrome do centauro invertido, onde por mutação genética, ou por simples derivação, maiores índices de fertilidade e manejo direcionado, o antigo “centauro das coxilhas” vem sendo substituído e superado em número pelo neo centauro, que hoje tem corpo de homem, ou mulher, e cabeça de cavalo, ou égua [...] Siga lendo.

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Uma Vale por dois YouTubes

NMM trata da "aposentadoria política" de Delfim Netto, ou melhor, da sua derrota nas últimas eleições.

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Cocadaboa não entende como pode a Vale do Rio Doce, uma empresa gigante da mineração, pode ter sido vendida por FHC por meros 3,3 bilhões de reais, troco suficiente para comprar apenas duas vezes o YouTube, um sítio de vídeos adolescentes com 90% de conteúdo pirata.

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E o chefe do exército britânico disse que chegou a hora deles caírem fora do Iraque. Notícia no Guardian e no Financial Times.

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Rafael Correa, candidato a presidente da esquerda Equatoriana, alerta para o risco de fraude na eleição de domingo. Notícia no 20 Minutos.

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RSUrgente
acusa negligência da Secretaria Estadual de Meio Ambiente do RS no caso do último desastre ecológico no Rio dos Sinos.

Os eufemismos da Fiergs e mais

O Diário Gauche apresenta os eufemismos e tergiversações da Fiergs na hora de afirmar com todas as letras que defende privatizações.

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Global Voices Online
diz que Israel está usando na Palestina, além das armas que matam, armas que mutilam permanentemente. Common Dreams relata que está estourando uma guerra civil na Faixa de Gaza.

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CUT diz que Alckmin é mais do velho e ruim FHC. RSUrgente diz que gastos de Alckmin com deslocamentos no governo de SP são maiores do que o valor do avião presidencial, e que sua vontade de vender o avião da previdência é só mais uma face do seu desejo de vender o patrimônio público.

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Tupiniquim
relata que milhares de pessoas se manifestaram hoje a favor dos índios mapuche em Santiago do Chile.

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CMI Brasil
relata que várias famílias sem-teto ocuparam um prédio no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

"Bye bye" - Alckmin tirando o corpo fora


Eis o que acontece quando o candidato que se diz ético e transparente tem que falar com uma imprensa de verdade. As perguntas pra valer vêem e ele tira o corpo fora. Diz "bye bye". Reclama que não era o combinado. Mas era o combinado. Só que para a repórter inglesa "combinado" não significa mera e simples propaganda. Significa uma pauta jornalística séria.

O vídeo acima mostra duas coisas. Primeiro, que Alckmin não assume responsabilidades. Segundo, que nossa grande imprensa está podre. Que outra resposta para a carência de tal tipo de questionamento nos nossos jornalões?

Com a palavra Alckmin, Folha, Estadão, Zero Hora etc.

Ensino superior: compatativo Lula x FHC

Do Bué de Bocas:

Durante os 8 anos de FHC/PSDB, as Universidades Públicas Federais foram sucateadas, o orçamento encolheu, os docentes e técnicos administrativos tiveram seus salários desvalorizados. Em quatro anos, o governo Lula retomou os investimentos e a valorização das Universidades Federais.

Desde 2004, o programa já criou 10 novas Universidades Federais e implantou ou consolidou 48 campi universitários, em todas as regiões do país, um crescimento de 24,65 % no número de IFES.

Bush chegou a 0,1 Hitler no Iraque

Vamos construir uma escala. Como Hitler chacinou 6 milhões de judeus, o genocida que chacine 6 milhões de seres humanos chega a 1 Hitler.

O Iraque está sob a autoridade dos EUA. Se há genocídio por lá, e há, a responsabilidade é dos EUA.

No Iraque sob autoridade dos EUA morreram 650 mil iraquianos por causa da invasão estadunidense. Uns 50 mil por doenças, uns 600 mil violentamente.

600 mil é 10% de 6 milhões. Bush chegou a 0,1 na escala Hitler.

(Bolação do Gustavo.)

terça-feira, 10 de outubro de 2006

O bad boy de butique no seu habitat

Imagem no Diário Vermelho.

Modernidade, estilo elite paulista, gaúcha etc.

No Diário Gauche:

Ora, não é nenhuma novidade num país em processo de escolha eleitoral ficar dividido. É natural e desejável, para o bem da democracia republicana que buscamos. O que espanta na boca de um professor que já foi qualificado de “príncipe dos sociólogos brasileiros” (sempre que eu escuto isso, não sei por quê, lembro do Clóvis Bornay com suas fantasias principescas no Carnaval do Hotel Glória, no Rio), é o fato de classificar arbitrariamente o “moderno” e o “atrasado”. Para o “príncipe” (no sentido de Bornay, não de Maquiavel) Cardoso, ele e seus pupilos tucanos-pefelês é que são modernos, e mais todos os eleitores alckmistas. Os “atrasados” são os eleitores do presidente Lula. A Folha, conservador jornal da família Frias de São Paulo, chegou a fazer uma matéria praticamente sugerindo o retorno do voto censitário ao País, mecanismo excludente proposto por outorga imperial de Pedro I na Constituição de 1824. Vejam o grau de regressismo a que chegamos! Os “mudernos” são regressistas – é o que acaba se concluindo, hoje no Brasil.

A elite rude

Para o blogueiro boz, Alckmin se arrisca a perder votos ao ser rude com uma pessoa querida pelo povo como o presidente Lula.

A elite brasileira é rude, e está nua. Iagê apresenta bem o quadro:

[...] O preconceito está literalmente colado a alguns indivíduos. Não bastasse a histórica e asquerosa birra direitista com a educação de Lula, recorrentemente desqualificado e menosprezado por sua origem operária, a tática agora é ainda mais leviana: ofensa em razão de uma deficiência física. A mão com quatro dedos, atravessada por uma faixa vermelha em sinal de proibição, denota a verdadeira natureza de uma direita que se intitula tão democrática e ética. É sintoma de puro desespero, levando ao abandono da disputa política.

Assim como Geraldo, o Alckmin, fez no debate da Bandeirantes, esquivando-se da discussão programática e partindo para um fuzilamento de munição dita "ética", os militantes tucanos (ao menos no Rio Grande do Sul, pois não sei se isso se repete no resto do País), estão se valendo de subterfúgios tão virulentos quanto os de seu candidato. O rótulo que desde 1989 tentaram colar a Lula - que sua formação intelectual era deficitária, já que vinha de uma classe popular e de emprego menos glamouroso - aparece agora em versão ainda mais hedionda. Tanto se cobra moralidade da campanha eleitoral e ética da política, mas nada se vê partindo destes paladinos para barrar preconceitos desta ordem, que não ofendem apenas ao Presidente da República, mas a qualquer um que enxergue o mínimo de dignidade em um ser humano.

A "raça a ser extinta", como convocou o senador nazi do PFL, Jorge Bornhausen, na figura de Lula, causa tamanho incômodo às elites que, no desespero e abstinência do poder sobre o Brasil, acabam desnudando seu caráter. Ou melhor, desnudam-se por inteiro, mostrando sua falta de caráter. A falta de capacidade e de autoridade moral e política para enfrentar diversos avanços notórios deste governo, cujo exemplo máximo me parece ser a transferência de renda, que atingiu dimensões jamais imaginadas neste País, faz com que o tucanato e todos outros pássaros que freqüentam esta árvore torta à direita e de raízes contaminadas por uma sede de opressão, apelem a táticas repugnantes, permeadas por preconceitos de classe, físico, racial e ideológico.[...]

Razões de R.J. Ribeiro para votar em Lula

O artigo abaixo saiu na Folha de São Paulo no dia 1/10/2006. É dica do Rogério S.

POR QUE VOTO EM LULA

Democracia é maior que qualquer um de nós

RENATO JANINE RIBEIRO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Eleição não é luta do bem com o mal. É comparação. Voto em Lula porque, a meu ver, seu governo melhorou o Brasil. Ele recebeu o país com uma agenda ditada pela direita, que reduzia quase tudo à política econômica, ou pior, à monetária e à fiscal; um país que, no fim de 2001, não cumpria mais o Orçamento, sem dinheiro nem para pagar passagens de ministros, com o dólar a R$ 4 e um risco-Brasil enorme. Ora, o governo de centro-esquerda foi capaz de acalmar a economia, de baixar o risco, de aumentar as exportações, enfim, de cumprir uma agenda econômica que não era sua prioridade, nem a dos movimentos populares, e isso sem privatizar nada, sem desfazer o patrimônio público.

Mais, ainda: Lula colocou na política brasileira, de modo definitivo, uma agenda social importante. E com êxito. Segundo Maria Inês Nassif ("Valor Econômico", 24/8), o maior rigor em programas como o Bolsa-Família e os do Ministério das Cidades "desintermediou o voto da população pobre, que antes passava pelo chefe local". Se isso é certo, não há paternalismo na atual política de promoção social. Não adianta ficar inventando que Lula se proclamou "pai dos pobres". Alguns jornalistas dizem isso, mas nunca informam quando o presidente teria usado uma linguagem tão contrária a suas crenças para se referir a si próprio. Tudo indica que há menos paternalismo agora do que antes.

É engraçado: quando se banhava de dinheiro o grande capital (empréstimos do BNDES a juros baixos para privatizar estatais), a opinião dominante chamava isso de progresso, mas, quando se dá dinheiro aos mais pobres, para comerem e se vestirem melhor, a mesma opinião dominante entende que dinheiro nas mãos de pobres não presta.

Discordo disso.

Quero uma sociedade democrática. Isso significa, em primeiro lugar, o fim da miséria, a redução da desigualdade social.

No horizonte político brasileiro, não vejo força melhor que a coligação de esquerda para promover esse salto qualitativo. Ela tem sido capaz de melhorar as condições sociais com uma temperatura baixa de conflitos, ao contrário do que diziam seus detratores.

O país não pegou fogo. O saldo do governo é positivo: a questão social está sendo bem orientada.

Agora vamos à questão ética.

No governo atual o procurador-geral não engaveta processos, a Polícia Federal age, CPIs funcionam. Já seu principal adversário impediu 60 CPIs de funcionar na Assembléia paulista, deixou uma política de segurança prepotente e ineficaz (porque acabamos sob o domínio do PCC) e uma política de educação que não é das melhores. Eleição é comparação. Não vejo no governo Alckmin superioridade ética sobre o governo Lula.

Contudo, há satisfações que o PT deve à sociedade. Os escândalos mostram que ele é um partido mais "normal" do que imaginava ser. Humildade não faz mal. O PT tem seus defeitos. Deve contas ao Brasil. Tem de fazer uma faxina interna e punir quem errou. Mas, ainda assim, consegue governar melhor que os outros. Aliás, seria bom o país todo fazer um exame de consciência. Com o financiamento privado de eleições, a porta se escancara para a negociata. Deveríamos priorizar em 2007 a reforma política, com fidelidade partidária, condições mais equilibradas de financiamento às candidaturas e talvez até o voto distrital.

Uma eleição não é uma guerra. Amanhã e sempre, teremos de conviver, quem votou em Lula ou nos outros candidatos.

Precisa cessar o terror discursivo, a ameaça ao voto universal. Este é o segundo ponto em que desejo uma sociedade democrática. Democracia significa respeitar o discurso do outro. Nas eleições, as pessoas se exaltam, mas é desonesto deformar o que o outro disse.

Muito do que hoje se conta sobre o PT ou sobre quem o apóia, como eu, é uma enorme caricatura. Isso amesquinha a política, que deve ser arena de adversários, não de inimigos.

Esse clima envenenado não ajuda o de que mais precisamos, não nós da esquerda, mas nós brasileiros: construir alianças, trabalho em conjunto, convergências. A sociedade é maior que a política. O Brasil é maior que os partidos. A pequena ambição não pode erodir nossas oportunidades.

Podemos enfrentar a miséria, melhorar a educação e a saúde, integrar os excluídos. Penso que Lula é o mais adequado, hoje, para dirigir o governo neste rumo mas penso também que este tem de ser um projeto de sociedade, e não apenas de governo. Não estamos, hoje, terceirizando a solução de nossos problemas. Estamos elegendo o mais apto a dirigir um esforço que deve ser maior do que ele e do que qualquer um de nós.


RENATO JANINE RIBEIRO , professor de ética e filosofia política na USP, é diretor de avaliação da Capes e autor de, entre outras obras, "A Sociedade Contra o Social - O Alto Custo da Vida Pública no Brasil" (Companhia das Letras)

domingo, 8 de outubro de 2006

Bolsa Família e sociabilidade

Essas melhorias [na alimentação] tiveram outras conseqüências na vida das famílias. Um expressivo percentual de [beneficiários] entrevistados (41,6%) afirmou que a maneira como suas famílias eram tratadas no local de moradia mudou para melhor após o ingresso no programa. Este dado, segundo os pesquisadores, aponta para dois aspectos positivos: em primeiro lugar, para uma maior possibilidade de estas famílias avançarem na direção da construção de redes locais de sociabilidade; em segundo, para uma melhora na própria auto-estima dos núcleos familiares, um elemento fundamental para a construção de estratégias voltadas para a saída da situação de extrema pobreza.
-- Marco Weissheimer, Bolsa Família, pp. 97-98

Para os pobres o Brasil cresce como a China

Na avaliação do pesquisador Sergei Soares, do IPEA, [...] para se ter uma idéia do que essa queda [da desigualdade social entre 2001 e 2004] significa, é importante assinalar que os 30% mais ricos perderam renda e os 20% mais pobres estão ganhando a uma taxa de quase 7% ao ano. Ou seja, acrescenta o pesquisador, para a população mais pobre, é como se estivesse morando na China, cuja economia está crescendo a essa velocidade.
-- Marco Weissheimer, Bolsa Família, p. 82

sábado, 7 de outubro de 2006

Feeds para os blogs particulares dos membros de l'armata Blogoleone

Agora você encontra ao lado enlaces que se atualizam automaticamente (feeds) para postagens dos membros de l'armata Blogoleone nos seus blogs particulares. Espero não ter esquecido ninguém.

Ordenei os enlaces para os blogs em ordem alfabética, o que dá destaque para os blogs começando com A, B etc. Para compensar a desvantagem dos outros fiz com que fossem apresentadas mais enlaces para postagens desses do que dos primeiros.

Mais abaixo você encontra outra novidade, enlaces para as palavras-chave utilizadas nas postagens do blog. É para facilitar a busca. Espero que facilite.

Fantasia libertista

"[...] do grande problema que a fantasia liberal não responde: a exclusão e sua filha, a barbárie.
-- Marco Weissheimer, Bolsa Família, p. 65

Pena de morte e matança de pobres

A idireita, a ala da direita movida pela pulsão de morte, não por razões de ordem conservadora, e freqüentadora principalmente do PP, propõe a pena de morte como solução para nossos problemas sociais. Eis uma ótima questão moral para tais pessoas:

Se não por outra razão, pode-se argumentar com esses sentimentos e posições a favor da pena de morte e do extermínio, do ponto de vista de sua eficácia. Seus defensores pregam tais práticas como solução para o problema da criminalidade. Mas estariam dispostos a assumir as conseqüências de tais posições? Estariam dispostos a apoiar a matança generalizada de todos os criminosos e presidiários do país? Em que isso resultaria mesmo para a sociedade? A defesa dessas teses equivale a declarar uma guerra contra milhares de pessoas, a esmagadora maioria delas oriunda dos estratos mais pobres da população.
-- Marco Weissheimer, Bolsa Família, p. 17

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

O muro

Poucos dias após a aprovação do Senado norte-americano da lei que autoriza práticas de tortura de prisioneiros e "terroristas", o presidente Bush institui mais uma medida em nome da segurança nacional. Acaba de ser autorizada a construção do muro de 1.200km para separar os EUA do vizinho México. Estima-se o valor da obra em até 8 bilhões de dólares.

Prática semelhante é empregada por Israel nos territórios palestinos. Carlos Latuff retrata bem o sentimento de um povo feito prisioneiro em sua própria terra. Os Estados Unidos da América estão prestes a reproduzir tal símbolo de segregação a um preço absurdo que poderia ser revertido em políticas que tratassem dos movimentos populacionais de maneira adequada, se outros (obscuros) interesses não permeassem a questão. Ignacio Ramonet aponta o campo "ecológico e social" como um dos três "tabuleiros de xadrez sobre os quais se joga o nosso futuro". Segundo ele, existe a "necessidade de novas regras internacionais (para lutar contra a injustiça da ordem mundial que alimenta as tensões internacionais, para gerenciar as migrações (...). E também o destino das populações da Terra (África, pandemias, miséria, desigualdades quanto ao acesso à Internet, grandes aglomerações, fome, educação, trabalho, catástrofes naturais), onde predominam pobreza, desordens, perigos e caos."

Ignorando a advertência de Ramonet, a decisão tomada foi pela construção de um dique com mais de mil quilômetros de puro concreto, equipado com radares ultra-modernos e câmaras infravermelhas, que certamente não conterá um oceano de problemas das mais variadas origens. A água vai começar a acumular, e quando este dique romper, mais uma vez, os Estados Unidos enfrentarão um problema ainda maior - por eles mesmos criado e alimentado.

Enquete: Alckmin na presidência privatizaria a Petrobrás?

Para votar clique no enlace abaixo:

Alckmin na presidência privatizaria a Petrobrás?

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Alckmin o direitista

Alckmin se diz à esquerda de Lula. Tá certo que Lula é um moderado, mas, para estar à esquerda de Lula, Alckmin precisaria:

- Ter tido alguma sensibilidade para com os menores da Febem paulista
- Ter se pronunciado contra a soldagem de celas de presos em cadeias paulistas
- Ter se pronunciado a favor dos quilombolas do litoral paulista ameaçados pela especulação imobiliária
- Não ser preconceituoso a ponto de tratar esquerdistas como criminosos e trabalhadores no poder como indecência
- Ter sido solidário com os funcionários do seu governo que foram assassinados por criminosos a serviço do PCC

Ser de esquerda é reconhecer politicamente aqueles que estão à margem da política. Menores pobres, encarcerados, quilombolas, gente com idéias como as minhas, funcionários públicos estão, nos casos acima, nas margens de um processo no qual Alckmin e seu grupo esteve ao centro. Em todos os casos acima aqueles à margem ou foram invisíveis para ele ou foram desprezados.

Esquerdista? Certamente não. O mínimo a dizer é que ele é um direitista. Talvez um direitista com caídas idireitistas. Mas espero que não.

Alckmin presidente venderia a Petrobrás pelo valor do lucro trimestral da empresa?

Muito provavelmente. Foi o que o PSDB de FHC fez com a Vale do Rio Doce.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Serra: "Finge que funciona"

A divertida notícia de um fato lamentável saiu no jornal Agora, de São Paulo, em 20 de janeiro de 2006. Encontrei no Orkut. Publiquei no Animot em janeiro de 2006.

A historinha da foto é a seguinte. José Serra, como todos nós sabemos um branco-rico-decente, foi inaugurar um posto de saúde. Quis fazer uma operação fotográfica na qual aparecia tendo sua pressão medida. Sabe como é, para mostrar como é um prefeito que faz coisas que funcionam. Mas o aparelho escolhido para a photo-op não funcionava, e ele esqueceu de avisar à profissional da saúde que era tudo mero fingimento para as câmeras. Ela tenta usar o aparelho, o mesmo não funciona. E daí ela ouve aquilo que diria um sujeito decente numa situação dessas: "Finge que funciona".

Mais uma lição de como se faz política sem tramóias, certo?

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

L.C. Azenha responde ao preconceito do Estadão

Em outro comentário publicado neste site, afirmei que nossos comentaristas estavam defasados em relação às mudanças que aconteceram no Brasil.

Para desqüalificar uma eventual eleição de Lula em primeiro turno, eles já ensaiavam um coro: a velha história de que o Brasil atrasado, dos grotões, daria outro mandato ao presidente.

Quando eles falam em Brasil atrasado querem dizer, sem dizer, que os paraíbas nunca aprendem.

Em meu comentário, eu dizia que graças à ascensão social da classe C, resultado de doze anos de políticas públicas de transferência de renda e de avanços significativos obtidos durante o governo Lula, os coronéis locais estavam tendo seu poder qüestionado nas franjas.

É importante notar que este poder foi mantido, essencialmente, através de concessões de rádio e tevê obtidas em troca de favores durante os mandatos de José Sarney e Fernando Henrique Cardoso.

O resultado mais interessante da eleição, até agora, foi sem dúvida a vitória do petista Jacques Wagner para governador da Bahia.

A oligarquia perdeu seu coronel mais simbólico, Antônio Carlos Magalhães.

Roseana Sarney, senhora de engenho do Maranhão, vai ter de enfrentar um inesperado segundo turno.

José Sarney, concorrendo ao Senado pela capitania do Amapá, suou sangue para derrotar uma ex-policial.

São, pois, ótimas notícias, muito mais relevantes do que a eleição de Maluf - aliás, eleito no colégio eleitoral supostamente mais bem informado e sofisticado do Brasil: São Paulo.
-- Vi o Mundo
Sobre o preconceito do Estadão ver a postagem Elite Branca Apela Para O Racismo - E Só Comprova Que É Racista.

O papa especialista em ocultar delitos

Notícia no Sapo:
Um documento secreto do Vaticano, elaborado pelo então cardeal Joseph Ratzinger, o actual Papa, terá sido utilizado durante 20 anos para instruir os bispos católicos sobre a melhor forma de ocultar e evitar acusações judiciais em caso de crimes sexuais contra crianças.

Segundo a BBC, que ontem divulgou a existência desta cartilha num programa televisivo intitulado Crimes sexuais e o Vaticano, o documento de 39 páginas, escrito em latim em 1962 e distribuído pelos bispos católicos de todo o mundo, impõe um pacto de silêncio entre a vítima menor, o padre que é acusado do crime e quaisquer testemunhas ou pessoas a par do ocorrido. Quem quebrasse esse pacto seria excomungado pela Igreja Católica.
Ao eleger como papa um indivíduo que ensina a ocultar crimes contra fiéis sob a ameaça de excomunhão dos mesmos a tal igreja católica consegue se mostrar muito mais podre do que poderíamos imaginar.

Comentário do Marcelo, no Boa Noite Pro Porco:

Por vezes até torço para Deus existir. Na hora do acerto de contas ele mostraria o quão longe dele estão aqueles que se julgam os mais próximos.

Rigotto e o Destino

A grande e indiscutível vencedora do primeiro turno das eleições para governador no RS é Yeda Crusius. É de se esperar que ela finalmente se retrate das observações racistas sobre Alceu Collares e deixe claro sua postura pessoal e política ante as diversas etnias que compõem o RS. E também que ela explique os planos do seu candidato a vice-governador para a educação, os quais - não está claro - parecem incluir o fechamento de escolas estaduais de ensino secundário.

O grande perdedor é o governador Germano Rigotto. E sua postura não está à altura do acontecimento, pois é ressentida, culpa o Destino.

Diz ele que fatos além do seu poder o impediram de governar bem. Trocando em miúdos, o acaso governou, ele nada pôde fazer.

É o mais lamentável discurso que um administrador pode apresentar. Se quem manda é o Destino nós precisamos de sorte, não de governador em um estado da federação. Mas, obviamente, quem manda no sentido relevante não é o acaso, e o que esperamos de um governador é que ele decida e atue de acordo com os fatos que a ele se apresentam ao invés de lamentar a carência de outros fatos mais bonitinhos.

O irônico nessa história é que Rigotto teria se comportado melhor se houvesse lido "Hegel e o Destino", um brilhante artigo acadêmico sobre ética escrito por João Carlos Brum Torres, seu secretário de Coordenação e Planejamento. A postura chorosa de Rigotto é uma exemplificação bem apropriada daquilo que Brum Torres retrata no seu artigo como ressentimento frente ao Destino.

Ironia da ironia, Rigotto se lamenta pelas más colheitas destinadas pelo acaso ao mesmo tempo em que contou, o tempo todo, com incríveis potenciais não explorados porque desconhecidos. Potenciais intelectuais como aqueles do seu secretário, potenciais econômicos como aqueles de um estado trabalhador como o RS.

Até o momento, e talvez por acaso, o RS ganha ao deixar de lado alguém que não está à altura dos acontecimentos. Ó Destino!

sábado, 30 de setembro de 2006

Congresso estadunidense oficializa a espiral do diabo

Agora estadunidenses torturarão oficialmente (sem chamar a tortura de "tortura") estrangeiros que retaliarão atacando cidadãos estadunidenses o que levará os EUA a se aprofundar na intervenção no estrangeiro o que fará mais estrangeiros serem torturados...

Cenário bem ao gosto d'El Diablo (ver abaixo).

Trocar de analista

Meus amigos, muito bom Vi o Mundo, sítio do jornalista Luiz Carlos Azenha. Eis o que ele diz sobre o preconceito de classe e de cor dos formadores de opinião de sempre. Reproduzo em quantidade, pois é muito bom, seu texto "Golpe Branco":
Golpe branco: comentaristas desqüalificam eleitores de Lula

O documentário "A Revolução não será Televisionada", sobre o golpe contra Hugo Chávez por líderes da oposição, com o apoio explícito de emissoras de televisão e apoio tácito dos Estados Unidos é imperdível.

Deixa clara a manipulação de imagens e informação com objetivos políticos de uma forma nunca antes registrada na História.

Só vendo para acreditar.

No Brasil, às vésperas da eleição, o juiz supremo delas, Marco Aurélio de Mello, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, compara o escândalo do dossiê ao de Watergate, aquele que derrubou Richard Nixon.

Fica implícito, pela declaração, que a crise brasileira pode tomar o mesmo rumo.

Quando isso sai da boca do encarregado de arbitrar as eleições é de arrepiar.

No campo da mídia, comentaristas idiotas dizem não entender porque, apesar de tantos escândalos, Lula pode ser reeleito ainda no primeiro turno.

São idiotas no sentido literal da palavra, que era usada na Grécia antiga para se referir àqueles que se preocupavam essencialmente consigo mesmos e ignoravam os interesses da comunidade.

Os que ficavam de fora da polis eram chamados de idiotas.

Isolados, faltava a eles capacidade de analisar e debater questões públicas e políticas.

Pensei nos idiotas gregos quando notei a surpresa de nossos analistas com a resistência de Lula ao bombardeio dos escândalos.

Ainda não foi desta vez, escreveu um blogueiro.

Ele anunciava o resultado de um levantamento indicando vitória do presidente-candidato em primeiro turno - mesmo depois de novas denúncias, que essencialmente transformaram os tucanos em vítimas de um complô petista.

Será que essa gente não sabe votar? - deve se perguntar o blogueiro.

Escribas de aluguel e jornalistas que sentem no ar para que lado sopram os ventos patronais dizem que se Lula vencer será com os votos dos grotões.

Usam a palavra de forma pejorativa, como se o voto dos eleitores da periferia e do interior do Brasil valesse menos que os da classe média supostamente bem informada.

Eu me sinto à vontade para escrever sobre o atual governo: investiguei e denunciei integrantes dele e tive uma discussão com o presidente, ao lado de outros jornalistas, durante a visita de Lula à República Dominicana.

Mas o trabalho de um jornalista deve ser guiado pela imparcialidade.

A pior coisa que um repórter pode fazer é trombar com os fatos.

Nossos analistas ainda não se deram conta de que aplicam um modelito anos 60 para analisar um país que, para o bem e para o mal, é outro.

Em vez de trocar de povo, devemos trocar de analistas.

Eles parecem escrever uns para os outros, como se pudessem pautar, da marginal do Tietê, a conversa no bar de uma esquina de Rondonópolis, Agudos ou Barreirinha.

Franklin Martins chegou perto de entender o novo Brasil em recente entrevista à revista Caros Amigos, ao dizer que os tradicionais formadores de opinião não formam mais opinião no Brasil.

Ele usou o exemplo da pedra no lago para explicar como o processo se dava no País: a partir da classe média, a opinião se difundia em ondas concêntricas, até atingir o povão.

Segundo Franklin, as ondas agora batem num dique e voltam: a classe C tem seus próprios interesses a defender - e já percebeu que eles nem sempre coincidem com os dos moradores do andar de cima, na definição de Elio Gaspari.

Houve um tempo em que o Rio de Janeiro, nossa gloriosa ex-Capital, era considerado a caixa de ressonância do Brasil.

Nada de importante acontecia no País sem antes passar por Ipanema ou Leblon. Mais recentemente, pelo Jardim Botânico.

A supremacia econômica paulista pôs fim à hegemonia carioca e o território que nos deu a Bossa Nova foi loteado entre o Comando Vermelho e políticos provincianos.

O que se desfaz agora é a hegemonia midiática do eixo Rio-São Paulo - no linguajar dos acadêmicos da USP.

Não precisei consultar um deles para descobrir.

Consultei meu guru político, o Cebolinha, editor de imagens da TV Globo de São Paulo.

Ele teve paciência de Jó para acessar, na internet, os sites dos jornais mais importantes das cidades médias brasileiras.

Fez uma descoberta simples: eles não tem dado tanto espaço e destaque à crise do dossiê quanto a mídia dos pretensos centros de irradiação da opinião brasileira, situados no eixo Rio-São Paulo.

É uma faceta bastante simplória de um fenômeno que deveria aparecer no radar de nossos analistas, se eles se dessem ao trabalho de desviar o olhar, um pouco que fosse, para além do próprio umbigo.

Lembram do sonho de Juscelino, de interiorizar o Brasil com a construção de Brasília?

Pois é, ainda que nem todos tenham notado, aconteceu.

Pedro Bial, em reportagem para o Jornal Nacional, esteve lá, na cidade que surgiu do nada por conta do agronegócio.

Aconteceu, amigos: dá para atravessar o Brasil de Santa Maria a Imperatriz, sem passar pela costa.

E existe vida neste Brasil interiorano, ainda que haja mais correspondentes da mídia brasileira em Nova York do que em Manaus.

Se eu tivesse tempo, dinheiro e menos o que fazer, gostaria de submeter nossos comentaristas políticos a um breve questionário:

1. Qual foi a ocasião mais recente em que o senhor ou senhora usou transporte público? (Não vale o metrô de Paris);
2. Quando foi a sua mais recente visita a Dourados, em Mato Grosso do Sul?
3. Já esteve em Campo Grande ou Goiânia?
4. Foi recentemente a Parelheiros?
5. O senhor ou senhora já entrou numa lan house? Sabe o que é isso?

Com exceção da primeira pergunta, que é pura provocação, as demais fornecem pistas para desvendar o que não é necessariamente um crime: o Brasil costeiro morreu.

E já vai tarde.

Sejam benvindos a um país mais complexo, em que o poder dos coronéis locais, montados em suas concessões de emissoras de rádio e tevê, se esgarça nas franjas.

Se você não sabe o que é uma lan house, nem foi a Parelheiros, não se sinta um idiota - no sentido grego da palavra.

Lan house é internet de pobre.

Um real por hora.

Está lá, em todo bairro pobre de toda cidade brasileira.

É na lan house que a periferia orkuta; que joga aqueles videogames em que o sangue jorra; que imprime currículos em busca de empregos inexistentes; que baixa o vídeo da Cicarelli.

Em resumo, é na lan house que a periferia faz ligação direta no ônibus que nossos comentaristas supõem dirigir.

E, porque estive lá, descobri em Parelheiros o que talvez seja a classe C a que se referiu Franklin Martins.

A classe média sem água e esgoto.

A mais completa tradução da Belíndia, das Bélgicas e Índias que se fundem no Brasil: carro usado na garagem, máquina de lavar, videogame, dvd, internet discada, ligação clandestina de água, bacias para recolher água de chuva, fossa e água de chuveiro desembocando direto na rua.

Lá o eleitor conversa enquanto o telejornal está no ar, comenta os diálogos da novela, vai na lan house procurar emprego e conversar pelo messenger. Os estudantes dão copy e paste para fazer trabalhos de escola.

Estejam certos de que os eleitores de lá não obedecem ao andar de cima.

Então o Lula pode ser reeleito com os votos de revolucionários da periferia?

Pelo contrário, ele terá os votos dos conservadores, no sentido literal da palavra.

E o que estes eleitores querem conservar?

A tênue ascensão social que tiveram nos últimos quatro anos está expressa no grande crescimento das vendas da linha branca de eletrodomésticos e no espetacular crescimento do número de aparelhos de telefonia celular no Brasil.

Ou alguém acha que as Casas Bahia se tornaram um fenômeno por causa da freguesia dos Jardins paulistanos ou da Barra da Tijuca?

Na periferia das grandes metrópoles existe um movimento silencioso e não organizado que responde pela sigla de MCL, o Movimento Conservador de Lula.

Eleitores para os quais a perda de um emprego ou uma doença na família significa mergulhar de novo abaixo da linha da pobreza.

Quando os eleitores de Paralheiros se juntam para fazer política, é para pedir água, creche, escola. Não dá para trazer asfalto? Faz pelo menos o meio-fio.

No Brasil, só as ambulâncias são mais superfaturadas do que os marqueteiros.

Duda Mendonça, vendedor de enciclopédias, fez fortuna às custas da ignorância dos políticos.

Eles se merecem.

Tanto quanto nossos veneráveis comentaristas, os gênios do marketing eleitoral brasileiro aplicam idéias belgas em nossa Índia.

Eles ainda se imaginam no Brasil costeiro, lançando idéias continentais para um país que agora é local.

Toda política é local, diz o ditado.

Nunca foi tão verdadeiro.

Agora, o que é bom para Campo Grande pode não servir para Goiânia.

Existem mercados e interesses econômicos locais.

Sabem o que me contou o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo?

Que as montadoras fugiram do ABC em busca de isenção fiscal e mão-de-obra mais barata.

E o que aconteceu?

Os metalúrgicos do Paraná, de Minas Gerais e da Bahia estão cada vez mais próximos de obter salários equivalentes aos do ABC.

Qual o impacto econômico e político regional deste fenômeno?

A maior rede de material de construção de Mato Grosso é de um empresário tosco e simpático que conheci em Nova York, que sentia saudade de arroz-feijão depois de três dias em Manhattan.

O homem vai se tornar um fenômeno estudado pela Harvard Business School antes de ser descoberto pela mídia brasileira.

No cartão pessoal dele, além de nome e telefone, está escrita a meta de vendas que pretende atingir no ano.

Fez fortuna na rebarba do agronegócio.

O mesmo agronegócio que exibe sua cara perversa ao avançar sobre o sul da Amazônia, devastando o cerrado e a floresta tropical para plantar gado e soja.

Em todo o Centro-Oeste, milhões de brasileiros foram beneficiados direta ou indiretamente pelo sucesso do agronegócio e uma boa parte deles vai votar em Lula.

Em Dourados, Mato Grosso do Sul, índios pedem esmola nas ruas mas os fazendeiros andam de carro importado, a classe média compra aparelhos de tevê de tela plana e os remediados compram rádio, bicicleta e dvd.

O Wal Mart está chegando a esse novo Brasil.

Vai ser interessante - talvez trágico - assistir ao confronto dele com as bodegas de esquina.

O Blockbuster vem em seguida. Vai detonar o videoclube que faz fiado?

Emprestando a imagem de Franklin Martins, eu faria um reparo.

Não é que as ondas causadas pela pedra no lago atinjam o dique da classe C e refluam.

É que não somos mais apenas um grande lago, onde ALGUNS POUCOS atiram pedras.

Somos milhares de lagos, onde MILHARES atiram pedras - usando o You Tube, a rádio local, o jornal de bairro, a tradição oral do interior - expressa nas conversas de bar e no bate-papo das calçadas.

A falta de compreensão deste fenômeno deixa os gestores da grande mídia no escuro.

Já aconteceu de algum integrante do MST aparecer na TV sem ser chamado de bandido, arruaceiro ou baderneiro?

Qual foi a última longa entrevista de um líder do MST em uma emissora de tevê, de rádio, em um jornal?

Será que eles vão seqüestrar repórter para sair no jornal?

Claro que não - vão fazer seu próprio jornal.

Milhões de integrantes de movimentos sociais organizados vão votar em Lula porque se enxergam nele ou, pelo menos, por considerá-lo o candidato menos ruim.

Essa gente não é representada adeqüadamente na mídia do eixo Rio-São Paulo.

Jornalistas, profissionais de classe média, em geral procuram suas fontes onde é mais fácil encontrá-las: na academia, em representantes de entidades que defendem interesses corporativos e nas assessorias de imprensa.

Elas ganham para plantar entrevistados no rádio, nos jornais e na tevê.

É só ter o cuidado de fazer uma pesquisa: quantos centímetros de jornal e minutos de televisão são ocupados por analistas do mercado financeiro, profissionais liberais e especialistas de todo gênero?

Por que essas pessoas, em geral de classe média, expressariam na mídia os interesses da periferia, dos pequenos agricultores ou dos operários de chão de fábrica?

Por que a CUT decidiu criar seu próprio programa de rádio e de televisão?

Por que a Força Sindical segue o mesmo caminho?

O Brasil de Parelheiros vai aparecer na tevê a não ser em casos de chacina?

O Jornalismo, que um dia foi tratado como serviço público, agora vende notícia como produto.

De um lado, a independência financeira dá às empresas maior liberdade de manobra diante das forças políticas.

De outro, Parelheiros é sub-representada no conteúdo porque não vivem lá os consumidores tradicionais de notícia.

Os sem-terra não valem um tostão como notícia, a não ser quando mostram o que a elite quer ver neles: arruaça
e banditismo.

Durante sua primeira campanha eleitoral, nos Estados Unidos, Bill Clinton mandou pendurar no comitê de campanha uma placa com os dizeres: "It's the economy, stupid". É a economia, estúpido.

Uma forma de lembrá-lo de que americano vota com o bolso.

Não deveria ser novidade para ninguém: brasileiro também vota com o bolso.

Nossos comentaristas se entregaram, nos últimos meses, a desqüalificar os programas de transferência de renda.

Os programas foram atacados como assistencialistas, fruto do populismo de um presidente pai dos pobres.

É um jogo de palavras para desqüalificar os votos dos nordestinos, uma maneira indireta de expressar o preconceito - essencialmente paulista e carioca - contra os retirantes, os cabeça-chata, os pau-de-arara, os paraíbas.

Pode se discutir o mérito dos programas sociais e, como demonstrou o jornalista Ali Kamel no livro Não Somos Racistas, pode se argüir que seria mais inteligente investir em educação básica de qualidade para todos.

Mas não se deve esquecer que aqui também se manifestam interesses de classe: a elite paulistana não quer que o dinheiro de seus impostos seja investido com aquela baianada preguiçosa - até hoje proibida de usar os elevadores sociais nos edifícios chiques de Higienópolis, Moema e Itaim.

Descabida ou não, a transferência de renda turbinou o comércio das pequenas cidades nordestinas.

Serão milhões de votos para conservar Lula.

Portanto, quando algum comentarista disser que não entende como o presidente pode ser reeleito - apesar de todos os escândalos - ou é incompetente ou está a serviço de alguma campanha.

É ardiloso desqüalificar os eleitores de Lula, como se eles não soubessem votar, como se fossem mal informados ou ignorantes.

Enquanto escrevo, três militares da reserva divulgaram uma nota dizendo que a "sensação é de iminente perigo à Democracia".

["Nota dos Clubes Militares

Em meados de 2005, explodiu o escândalo do chamado "mensalão", a partir do flagrante preparado contra um funcionário desonesto e das denúncias abertas de um Deputado ameaçado pela armação que se preparava para fazê-lo o "bode expiatório".

A Nação a tudo assistiu, aturdida pela desfaçatez de homens públicos e membros do governo.

A partir de então, todos os dias são tornados públicos novos escândalos, sempre envolvendo pessoas próximas ao Governo, ao Presidente ou ao seu Partido.

As demissões, forçadas pelas circunstâncias e pelo constrangimento político, nunca foram acompanhadas de completa apuração e das punições necessárias.

A sucessão de casos escabrosos e de atos de corrupção já não surpreende o brasileiro honesto. Nesta semana, surge outro escândalo.

Uma tentativa de comprometimento de dois candidatos a cargos executivos com o "caso da compra das ambulâncias", mediante a negociação fraudulenta de suposto "dossiê".

Chantagem ou denúncia, mas com a evidente intenção de desqualificar concorrentes eleitorais.

Novamente, envolvendo assessor do Presidente, pessoas importantes na hierarquia do seu Partido e dinheiro de procedência duvidosa.

Já se torna evidente que a corrupção não é somente um ilícito do qual se beneficiam pessoas e grupos, mas sim algo que se transformou em meio de conquista e manutenção do poder.

A sensação é de perigo iminente à Democracia.

Por isso os Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica, por seus Presidentes, sentem-se no dever de manifestar, publicamente, sua indignação com esse estado de coisas e de ressaltar a importância das próximas eleições como instrumento à disposição do povo brasileiro para o saneamento da vida política nacional.

Almirante Esq José Julio Pedrosa - Presidente do Clube Naval

Gen Ex Gilberto Barbosa de Figueiredo - Presidente do Clube Militar

Ten Brig Ivan Moacyr da Frota - Presidente do Clube de Aeronáutica"]

Esse ardil é, sim, golpista.

É a tentativa antecipada de tirar a legitimidade da escolha popular, abrindo espaço, no futuro, para manobras não republicanas de gente que não é exatamente modelo de democrata.

Por fim, há outros conservadores que tem razões de sobra para votar em Lula: os banqueiros, que nunca lucraram tanto quanto nos últimos quatro anos.

Quem diria: o Bradesco e o MST enfim unidos no mesmo lado da trincheira.

[Enquanto escrevo, pisca na tela do G1, o portal de notícias da Globo: "O nível de pobreza da população brasileira teve forte queda nos anos de 2004 e 2005, de 19%, comparável apenas à redução ocorrida no início de Plano Real, dez anos antes. Os dados fazem parte da pesquisa “Miséria, Desigualdade e Estabilidade: O Segundo Real”, divulgada nesta sexta-feira (22) pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e que analisa a pobreza desde 1992. No Plano Real, entre 1993 e 1995, a queda havia sido de 18,4%.]

Aqui não vai qualquer juízo de valor.

Lula chegou antes a esse Brasil que vai além dos consumidores de jornal, tevê a cabo e internet banda larga, seja por intuição ou por ter enxergado o que outros só olhavam.

Assistimos hoje a um espetáculo de hidrofobia que, lamentavelmente, não se fez quando a Vale do Rio Doce foi privatizada ou quando surgiram denúncias de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comprou votos no Congresso para garantir seu direito à reeleição.

Embora isso não justifique o banditismo de integrantes do governo Lula, está claro que sanguessugas, vampiros e mensaleiros começaram a agir no governo FHC.

O que fez a Polícia Federal, então?

E Aristides Junqueira, o engavetador-geral da República?

Houve mudanças no Brasil, sim, nem sempre para pior.

O controle inflacionário e os programas de transferência de renda implantados nos últimos doze anos produziram o fortalecimento de um mercado de consumo que vai além da Zona Sul belga das metrópoles brasileiras, dos tradicionais formadores de opinião.

O que sei, porque estive lá, é que o que Lula diz - e da forma que diz - pode parecer outro idioma para os brasileiros belgas, mas é perfeitamente entendido em Parelheiros, Goiânia e Dourados.

Ainda mais quando comparado com o que dizia o belga que o antecedeu.

Quer saber das investigações que fiz do governo Lula? Clique em:

http://viomundo.globo.com/site.php?nome=PorBaixoPano&edicao=268

Quer saber da discussão que eu e um grupo de jornalistas tivemos com o presidente Lula? Clique em:

http://viomundo.globo.com/site.php?nome=MinhaCabeca&edicao=247

(atualizado em 25 de setembro de 2006)