Mostrando postagens com marcador social. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador social. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de março de 2009

Mobilidade Social: A imprensa ignora o Brasil

Por Luciano Costa Martins, 20/02/2009, Observatório da Imprensa

Já se passou mais de uma semana da divulgação, pela Fundação Getúlio Vargas, da pesquisa sobre a mobilidade social no Brasil. As conclusões são interessantes e deveriam estar inspirando debates muito mais ricos do que tem sido admitido pela imprensa sobre o nosso modelo econômico e as chances brasileiras diante da crise mundial.

Aliás, uma leitura cuidadosa do estudo autoriza a jogar no lixo muita coisa que se tem publicado ultimamente sobre macroeconomia, crise, programas de inclusão social e alguns outros temas muito em voga.

Leitura completa AQUI. Dica do blog Ainda a mosca azul.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

MST: reforma agrária e outras bandeiras sociais

Trecho:
Brasília - Criação de rádios comunitárias, educação no campo e luta contra aquecimento global. A política de integração dos governos da América Latina e a discussão de um modelo econômico que substitua o neoliberalismo. Demarcação de terras indígenas e quilombolas, além da invasão norte-americana no Iraque. A carta à sociedade brasileira divulgada hoje (14) pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tem propostas para todos esses temas. E mostra que, no 5º Congresso Nacional em seus 23 anos de história, o MST não defende mais apenas a reforma agrária.
blog it

sábado, 9 de junho de 2007

Discutindo a parcela de responsabilidade do público pelo apagão da mídia 2

Fragmento da contribuição da Cláudia Cardoso:
Mas grande parte da população, para não dizer a maioria, não tem a mínima idéia do significado da pauta dos assuntos veiculados e da cultura repassada via telinha. Temos sim uma atitude passiva frente a este meio de comunicação. Não exigimos a sua responsabilidade social que é, em suma, a responsabilidade de seguir a própria Constituição no que diz respeito aos direitos fundamentais de cada ser vivente. Ainda mais, quando não existe pluralidade de programação. Mudamos o canal e vemos os mesmos formatos de programas, os mesmos enredos novelísticos, os mesmos filmes estadunidenses. E os jornais? Acompanhem os diferentes canais cada um com horário diferente: verão as mesmas notícias!!! Outro dado importante: no Brasil, há mais televisões do que geladeiras.
blog it

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Polícia do RS destrói escola do MST, notícia sai antes fora do estado

Trecho:
A matéria é do jornal “Estadão”, edição de 05.06.2007, pág. A8. A abertura do texto: “A Brigada Militar ( a Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Sul) destruiu ontem um barracão que o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) havia construído dentro da área da Granja Nenê, no município de Santa Rita, região metropolitana de Porto Alegre.
Segundo um do coordenadores do MST no Rio Grande do sul, João Amaral, o barracão, construído com taquaras e coberto por uma lona, era usado como escola itinerante de ensino básico por 57 crianças de um acampamento próximo, mas localizado fora a Granja Nenê, onde vivem 80 famílias.

blog it

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

A morte espiritual de uma nação

Martin Luther King Jr. no seu discurso de 4 de abril de 1967:
Uma nação que continua, ano após ano, a gastar mais dinheiro na defesa militar do que em programas de ascenção social está se aproximando da sua morte espiritual. (Newsvine)

sábado, 21 de outubro de 2006

O momento da blogosfera

O que é a blogosfera? Inútil buscar a resposta em enciclopédias e fontes de informação tradicionais. O negócio é perguntar ao oráculo, o Google. Escrevo "define: blogosfera" no campo de busca. O oráculo diz:

Espaço virtual onde ficam todos os blogs; mundo dos bloggers.

A fonte da informação é um "Pequeno Glossário da Blogosfera". A Wikipédia traz, no artigo "blogosfera":

Blogosfera é o termo coletivo que compreende todos os weblogs (ou blogs) como uma comunidade ou rede social. Muitos blogs estão densamente interconectados; blogueiros lêem os blogs uns dos outros, criam enlaces para os mesmos, referem-se a eles na sua própria escrita, e postam comentários nos blogs uns dos outros. [...]
O conceito de blogosfera é importante para a compreensão dos blogs. Os blogs eles mesmos são, essencialmente, apenas o texto publicado dos pensamentos de um autor, enquanto a blogosfera é um fenômeno social.

A blogosfera caracteriza-se por conter páginas da Internet feitas por pessoas que manifestam seus gostos e opiniões sobre o que lhes interessa. Os blogueiros alimentam seus blogs com fotos e relatos do cotidiano, e também com material de sítios da Internet, principalmente de outros blogs. Eis o aspecto social da blogosfera. Em sentido amplo, a blogosfera é o mero agregado de blogs. Em sentido estrito, a blogosfera é mais do que um agregado, pois é uma comunidade na qual opiniões e contribuições de um blogueiro são ecoadas pelos outros.

Alguns minimizam a importância blogosfera. Dizem que a mesma é insular, sem impacto para além de si mesma. No entanto, não parece ser esse o quadro no Brasil. A campanha “Xô Sarney!”, promovida pela blogueira Alcinéa Cavalcante, é um exemplo de impacto da blogosfera do debate político. O candidato a senador José Sarney chegou a publicar no blog da Alcinéa um direito de resposta, sob determinação do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá.

O mínimo a ser dito é que a blogosfera faz barulho, e é escutada. Talvez uma metáfora proposta por Franklin Martins possa nos ajudar a compreender como se abriu espaço para a blogosfera ser ouvida. Martins percebeu que nas eleições presidenciais de 2006 os “formadores de opinião” dizem o que dizem, mas as pessoas não reproduzem os memes por eles emitidos. Ele diz que em outros tempos aquilo que os “formadores de opinião” diziam repercutia tal como as ondas causadas por uma pedra jogada no meio de um lago. As ondas se propagavam até chegar às margens. Agora o quadro mudou. Há diques entre o centro do lago e as margens. Aquilo que vêm do centro é refletido de volta sem chegar à margem. Talvez seja isso que tenha levado alguns desses “formadores de opinião” (e as aspas se justificam no contexto atual) a uma histeria cada vez maior, a qual sem dúvida foi contraproducente.

A metáfora acima explica como a opinião pública se emancipou dos “formadores de opinião”, pessoas com espaço ou salário para escrever em páginas de opinião de uns poucos jornais. Mas não é suficiente para explicar como a blogosfera é escutada. Para explicar isso talvez o melhor seja darmos uma olhada na imagem proposta pelo blogueiro Alon. Ele tem uma teoria composta de dois elementos sobre a difusão de idéias na nossa sociedade. Primeiro, uma revisão da metáfora da pedra no lago. Segundo, uma visão sobre a capilaridade entre a Internet e o público em geral.

Na visão de Alon não há diques impedindo as opiniões emitidas no centro de chegarem às margens. Ao invés disso, o que ocorre é que estão sendo lançadas muitas pedras no lago ao mesmo tempo. Boa parte dessas pedras são bem pequenas (e-mails, postagens em blogs), mas todas juntas deixam a superfície do lago bem tumultuada.

Tal tumulto é a trama de mensagens partindo de diversas partes e chegando a diversas outras partes em um único tecido, em uma única superfície, a sociedade.

Só com isso a teoria é incompleta, pois não explica como o ruído da blogosfera e da Internet pode chegar às margens, aos sem-Internet. Aí entra o segundo elemento da teoria do Alon. Basta que em uma comunidade um garoto saiba e possa usar a Internet para que a turbulência do lago possa chegar a todos na comunidade pela comunicação oral.

A teoria do Alon tem o mérito de tratar do modo como algumas idéias ultrapassam a barreira da Internet, mas é preciso reconhecer que tal barreira existe. Recentemente, o jornal Libération utilizou a expressão “bloguesia” para se referir à parcela da população que detém conhecimentos e meios (tecnologia) para se expressar de uma maneira que ainda não está acessível a todos, e influencia a tomada de decisões através desse meio. Ainda que talvez todos possam escutar o ruído da blogosfera, ainda estamos longe de contar com todos como falantes na mesma.

domingo, 8 de outubro de 2006

Bolsa Família e sociabilidade

Essas melhorias [na alimentação] tiveram outras conseqüências na vida das famílias. Um expressivo percentual de [beneficiários] entrevistados (41,6%) afirmou que a maneira como suas famílias eram tratadas no local de moradia mudou para melhor após o ingresso no programa. Este dado, segundo os pesquisadores, aponta para dois aspectos positivos: em primeiro lugar, para uma maior possibilidade de estas famílias avançarem na direção da construção de redes locais de sociabilidade; em segundo, para uma melhora na própria auto-estima dos núcleos familiares, um elemento fundamental para a construção de estratégias voltadas para a saída da situação de extrema pobreza.
-- Marco Weissheimer, Bolsa Família, pp. 97-98

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

L.C. Azenha responde ao preconceito do Estadão

Em outro comentário publicado neste site, afirmei que nossos comentaristas estavam defasados em relação às mudanças que aconteceram no Brasil.

Para desqüalificar uma eventual eleição de Lula em primeiro turno, eles já ensaiavam um coro: a velha história de que o Brasil atrasado, dos grotões, daria outro mandato ao presidente.

Quando eles falam em Brasil atrasado querem dizer, sem dizer, que os paraíbas nunca aprendem.

Em meu comentário, eu dizia que graças à ascensão social da classe C, resultado de doze anos de políticas públicas de transferência de renda e de avanços significativos obtidos durante o governo Lula, os coronéis locais estavam tendo seu poder qüestionado nas franjas.

É importante notar que este poder foi mantido, essencialmente, através de concessões de rádio e tevê obtidas em troca de favores durante os mandatos de José Sarney e Fernando Henrique Cardoso.

O resultado mais interessante da eleição, até agora, foi sem dúvida a vitória do petista Jacques Wagner para governador da Bahia.

A oligarquia perdeu seu coronel mais simbólico, Antônio Carlos Magalhães.

Roseana Sarney, senhora de engenho do Maranhão, vai ter de enfrentar um inesperado segundo turno.

José Sarney, concorrendo ao Senado pela capitania do Amapá, suou sangue para derrotar uma ex-policial.

São, pois, ótimas notícias, muito mais relevantes do que a eleição de Maluf - aliás, eleito no colégio eleitoral supostamente mais bem informado e sofisticado do Brasil: São Paulo.
-- Vi o Mundo
Sobre o preconceito do Estadão ver a postagem Elite Branca Apela Para O Racismo - E Só Comprova Que É Racista.

sábado, 30 de setembro de 2006

Trocar de analista

Meus amigos, muito bom Vi o Mundo, sítio do jornalista Luiz Carlos Azenha. Eis o que ele diz sobre o preconceito de classe e de cor dos formadores de opinião de sempre. Reproduzo em quantidade, pois é muito bom, seu texto "Golpe Branco":
Golpe branco: comentaristas desqüalificam eleitores de Lula

O documentário "A Revolução não será Televisionada", sobre o golpe contra Hugo Chávez por líderes da oposição, com o apoio explícito de emissoras de televisão e apoio tácito dos Estados Unidos é imperdível.

Deixa clara a manipulação de imagens e informação com objetivos políticos de uma forma nunca antes registrada na História.

Só vendo para acreditar.

No Brasil, às vésperas da eleição, o juiz supremo delas, Marco Aurélio de Mello, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, compara o escândalo do dossiê ao de Watergate, aquele que derrubou Richard Nixon.

Fica implícito, pela declaração, que a crise brasileira pode tomar o mesmo rumo.

Quando isso sai da boca do encarregado de arbitrar as eleições é de arrepiar.

No campo da mídia, comentaristas idiotas dizem não entender porque, apesar de tantos escândalos, Lula pode ser reeleito ainda no primeiro turno.

São idiotas no sentido literal da palavra, que era usada na Grécia antiga para se referir àqueles que se preocupavam essencialmente consigo mesmos e ignoravam os interesses da comunidade.

Os que ficavam de fora da polis eram chamados de idiotas.

Isolados, faltava a eles capacidade de analisar e debater questões públicas e políticas.

Pensei nos idiotas gregos quando notei a surpresa de nossos analistas com a resistência de Lula ao bombardeio dos escândalos.

Ainda não foi desta vez, escreveu um blogueiro.

Ele anunciava o resultado de um levantamento indicando vitória do presidente-candidato em primeiro turno - mesmo depois de novas denúncias, que essencialmente transformaram os tucanos em vítimas de um complô petista.

Será que essa gente não sabe votar? - deve se perguntar o blogueiro.

Escribas de aluguel e jornalistas que sentem no ar para que lado sopram os ventos patronais dizem que se Lula vencer será com os votos dos grotões.

Usam a palavra de forma pejorativa, como se o voto dos eleitores da periferia e do interior do Brasil valesse menos que os da classe média supostamente bem informada.

Eu me sinto à vontade para escrever sobre o atual governo: investiguei e denunciei integrantes dele e tive uma discussão com o presidente, ao lado de outros jornalistas, durante a visita de Lula à República Dominicana.

Mas o trabalho de um jornalista deve ser guiado pela imparcialidade.

A pior coisa que um repórter pode fazer é trombar com os fatos.

Nossos analistas ainda não se deram conta de que aplicam um modelito anos 60 para analisar um país que, para o bem e para o mal, é outro.

Em vez de trocar de povo, devemos trocar de analistas.

Eles parecem escrever uns para os outros, como se pudessem pautar, da marginal do Tietê, a conversa no bar de uma esquina de Rondonópolis, Agudos ou Barreirinha.

Franklin Martins chegou perto de entender o novo Brasil em recente entrevista à revista Caros Amigos, ao dizer que os tradicionais formadores de opinião não formam mais opinião no Brasil.

Ele usou o exemplo da pedra no lago para explicar como o processo se dava no País: a partir da classe média, a opinião se difundia em ondas concêntricas, até atingir o povão.

Segundo Franklin, as ondas agora batem num dique e voltam: a classe C tem seus próprios interesses a defender - e já percebeu que eles nem sempre coincidem com os dos moradores do andar de cima, na definição de Elio Gaspari.

Houve um tempo em que o Rio de Janeiro, nossa gloriosa ex-Capital, era considerado a caixa de ressonância do Brasil.

Nada de importante acontecia no País sem antes passar por Ipanema ou Leblon. Mais recentemente, pelo Jardim Botânico.

A supremacia econômica paulista pôs fim à hegemonia carioca e o território que nos deu a Bossa Nova foi loteado entre o Comando Vermelho e políticos provincianos.

O que se desfaz agora é a hegemonia midiática do eixo Rio-São Paulo - no linguajar dos acadêmicos da USP.

Não precisei consultar um deles para descobrir.

Consultei meu guru político, o Cebolinha, editor de imagens da TV Globo de São Paulo.

Ele teve paciência de Jó para acessar, na internet, os sites dos jornais mais importantes das cidades médias brasileiras.

Fez uma descoberta simples: eles não tem dado tanto espaço e destaque à crise do dossiê quanto a mídia dos pretensos centros de irradiação da opinião brasileira, situados no eixo Rio-São Paulo.

É uma faceta bastante simplória de um fenômeno que deveria aparecer no radar de nossos analistas, se eles se dessem ao trabalho de desviar o olhar, um pouco que fosse, para além do próprio umbigo.

Lembram do sonho de Juscelino, de interiorizar o Brasil com a construção de Brasília?

Pois é, ainda que nem todos tenham notado, aconteceu.

Pedro Bial, em reportagem para o Jornal Nacional, esteve lá, na cidade que surgiu do nada por conta do agronegócio.

Aconteceu, amigos: dá para atravessar o Brasil de Santa Maria a Imperatriz, sem passar pela costa.

E existe vida neste Brasil interiorano, ainda que haja mais correspondentes da mídia brasileira em Nova York do que em Manaus.

Se eu tivesse tempo, dinheiro e menos o que fazer, gostaria de submeter nossos comentaristas políticos a um breve questionário:

1. Qual foi a ocasião mais recente em que o senhor ou senhora usou transporte público? (Não vale o metrô de Paris);
2. Quando foi a sua mais recente visita a Dourados, em Mato Grosso do Sul?
3. Já esteve em Campo Grande ou Goiânia?
4. Foi recentemente a Parelheiros?
5. O senhor ou senhora já entrou numa lan house? Sabe o que é isso?

Com exceção da primeira pergunta, que é pura provocação, as demais fornecem pistas para desvendar o que não é necessariamente um crime: o Brasil costeiro morreu.

E já vai tarde.

Sejam benvindos a um país mais complexo, em que o poder dos coronéis locais, montados em suas concessões de emissoras de rádio e tevê, se esgarça nas franjas.

Se você não sabe o que é uma lan house, nem foi a Parelheiros, não se sinta um idiota - no sentido grego da palavra.

Lan house é internet de pobre.

Um real por hora.

Está lá, em todo bairro pobre de toda cidade brasileira.

É na lan house que a periferia orkuta; que joga aqueles videogames em que o sangue jorra; que imprime currículos em busca de empregos inexistentes; que baixa o vídeo da Cicarelli.

Em resumo, é na lan house que a periferia faz ligação direta no ônibus que nossos comentaristas supõem dirigir.

E, porque estive lá, descobri em Parelheiros o que talvez seja a classe C a que se referiu Franklin Martins.

A classe média sem água e esgoto.

A mais completa tradução da Belíndia, das Bélgicas e Índias que se fundem no Brasil: carro usado na garagem, máquina de lavar, videogame, dvd, internet discada, ligação clandestina de água, bacias para recolher água de chuva, fossa e água de chuveiro desembocando direto na rua.

Lá o eleitor conversa enquanto o telejornal está no ar, comenta os diálogos da novela, vai na lan house procurar emprego e conversar pelo messenger. Os estudantes dão copy e paste para fazer trabalhos de escola.

Estejam certos de que os eleitores de lá não obedecem ao andar de cima.

Então o Lula pode ser reeleito com os votos de revolucionários da periferia?

Pelo contrário, ele terá os votos dos conservadores, no sentido literal da palavra.

E o que estes eleitores querem conservar?

A tênue ascensão social que tiveram nos últimos quatro anos está expressa no grande crescimento das vendas da linha branca de eletrodomésticos e no espetacular crescimento do número de aparelhos de telefonia celular no Brasil.

Ou alguém acha que as Casas Bahia se tornaram um fenômeno por causa da freguesia dos Jardins paulistanos ou da Barra da Tijuca?

Na periferia das grandes metrópoles existe um movimento silencioso e não organizado que responde pela sigla de MCL, o Movimento Conservador de Lula.

Eleitores para os quais a perda de um emprego ou uma doença na família significa mergulhar de novo abaixo da linha da pobreza.

Quando os eleitores de Paralheiros se juntam para fazer política, é para pedir água, creche, escola. Não dá para trazer asfalto? Faz pelo menos o meio-fio.

No Brasil, só as ambulâncias são mais superfaturadas do que os marqueteiros.

Duda Mendonça, vendedor de enciclopédias, fez fortuna às custas da ignorância dos políticos.

Eles se merecem.

Tanto quanto nossos veneráveis comentaristas, os gênios do marketing eleitoral brasileiro aplicam idéias belgas em nossa Índia.

Eles ainda se imaginam no Brasil costeiro, lançando idéias continentais para um país que agora é local.

Toda política é local, diz o ditado.

Nunca foi tão verdadeiro.

Agora, o que é bom para Campo Grande pode não servir para Goiânia.

Existem mercados e interesses econômicos locais.

Sabem o que me contou o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo?

Que as montadoras fugiram do ABC em busca de isenção fiscal e mão-de-obra mais barata.

E o que aconteceu?

Os metalúrgicos do Paraná, de Minas Gerais e da Bahia estão cada vez mais próximos de obter salários equivalentes aos do ABC.

Qual o impacto econômico e político regional deste fenômeno?

A maior rede de material de construção de Mato Grosso é de um empresário tosco e simpático que conheci em Nova York, que sentia saudade de arroz-feijão depois de três dias em Manhattan.

O homem vai se tornar um fenômeno estudado pela Harvard Business School antes de ser descoberto pela mídia brasileira.

No cartão pessoal dele, além de nome e telefone, está escrita a meta de vendas que pretende atingir no ano.

Fez fortuna na rebarba do agronegócio.

O mesmo agronegócio que exibe sua cara perversa ao avançar sobre o sul da Amazônia, devastando o cerrado e a floresta tropical para plantar gado e soja.

Em todo o Centro-Oeste, milhões de brasileiros foram beneficiados direta ou indiretamente pelo sucesso do agronegócio e uma boa parte deles vai votar em Lula.

Em Dourados, Mato Grosso do Sul, índios pedem esmola nas ruas mas os fazendeiros andam de carro importado, a classe média compra aparelhos de tevê de tela plana e os remediados compram rádio, bicicleta e dvd.

O Wal Mart está chegando a esse novo Brasil.

Vai ser interessante - talvez trágico - assistir ao confronto dele com as bodegas de esquina.

O Blockbuster vem em seguida. Vai detonar o videoclube que faz fiado?

Emprestando a imagem de Franklin Martins, eu faria um reparo.

Não é que as ondas causadas pela pedra no lago atinjam o dique da classe C e refluam.

É que não somos mais apenas um grande lago, onde ALGUNS POUCOS atiram pedras.

Somos milhares de lagos, onde MILHARES atiram pedras - usando o You Tube, a rádio local, o jornal de bairro, a tradição oral do interior - expressa nas conversas de bar e no bate-papo das calçadas.

A falta de compreensão deste fenômeno deixa os gestores da grande mídia no escuro.

Já aconteceu de algum integrante do MST aparecer na TV sem ser chamado de bandido, arruaceiro ou baderneiro?

Qual foi a última longa entrevista de um líder do MST em uma emissora de tevê, de rádio, em um jornal?

Será que eles vão seqüestrar repórter para sair no jornal?

Claro que não - vão fazer seu próprio jornal.

Milhões de integrantes de movimentos sociais organizados vão votar em Lula porque se enxergam nele ou, pelo menos, por considerá-lo o candidato menos ruim.

Essa gente não é representada adeqüadamente na mídia do eixo Rio-São Paulo.

Jornalistas, profissionais de classe média, em geral procuram suas fontes onde é mais fácil encontrá-las: na academia, em representantes de entidades que defendem interesses corporativos e nas assessorias de imprensa.

Elas ganham para plantar entrevistados no rádio, nos jornais e na tevê.

É só ter o cuidado de fazer uma pesquisa: quantos centímetros de jornal e minutos de televisão são ocupados por analistas do mercado financeiro, profissionais liberais e especialistas de todo gênero?

Por que essas pessoas, em geral de classe média, expressariam na mídia os interesses da periferia, dos pequenos agricultores ou dos operários de chão de fábrica?

Por que a CUT decidiu criar seu próprio programa de rádio e de televisão?

Por que a Força Sindical segue o mesmo caminho?

O Brasil de Parelheiros vai aparecer na tevê a não ser em casos de chacina?

O Jornalismo, que um dia foi tratado como serviço público, agora vende notícia como produto.

De um lado, a independência financeira dá às empresas maior liberdade de manobra diante das forças políticas.

De outro, Parelheiros é sub-representada no conteúdo porque não vivem lá os consumidores tradicionais de notícia.

Os sem-terra não valem um tostão como notícia, a não ser quando mostram o que a elite quer ver neles: arruaça
e banditismo.

Durante sua primeira campanha eleitoral, nos Estados Unidos, Bill Clinton mandou pendurar no comitê de campanha uma placa com os dizeres: "It's the economy, stupid". É a economia, estúpido.

Uma forma de lembrá-lo de que americano vota com o bolso.

Não deveria ser novidade para ninguém: brasileiro também vota com o bolso.

Nossos comentaristas se entregaram, nos últimos meses, a desqüalificar os programas de transferência de renda.

Os programas foram atacados como assistencialistas, fruto do populismo de um presidente pai dos pobres.

É um jogo de palavras para desqüalificar os votos dos nordestinos, uma maneira indireta de expressar o preconceito - essencialmente paulista e carioca - contra os retirantes, os cabeça-chata, os pau-de-arara, os paraíbas.

Pode se discutir o mérito dos programas sociais e, como demonstrou o jornalista Ali Kamel no livro Não Somos Racistas, pode se argüir que seria mais inteligente investir em educação básica de qualidade para todos.

Mas não se deve esquecer que aqui também se manifestam interesses de classe: a elite paulistana não quer que o dinheiro de seus impostos seja investido com aquela baianada preguiçosa - até hoje proibida de usar os elevadores sociais nos edifícios chiques de Higienópolis, Moema e Itaim.

Descabida ou não, a transferência de renda turbinou o comércio das pequenas cidades nordestinas.

Serão milhões de votos para conservar Lula.

Portanto, quando algum comentarista disser que não entende como o presidente pode ser reeleito - apesar de todos os escândalos - ou é incompetente ou está a serviço de alguma campanha.

É ardiloso desqüalificar os eleitores de Lula, como se eles não soubessem votar, como se fossem mal informados ou ignorantes.

Enquanto escrevo, três militares da reserva divulgaram uma nota dizendo que a "sensação é de iminente perigo à Democracia".

["Nota dos Clubes Militares

Em meados de 2005, explodiu o escândalo do chamado "mensalão", a partir do flagrante preparado contra um funcionário desonesto e das denúncias abertas de um Deputado ameaçado pela armação que se preparava para fazê-lo o "bode expiatório".

A Nação a tudo assistiu, aturdida pela desfaçatez de homens públicos e membros do governo.

A partir de então, todos os dias são tornados públicos novos escândalos, sempre envolvendo pessoas próximas ao Governo, ao Presidente ou ao seu Partido.

As demissões, forçadas pelas circunstâncias e pelo constrangimento político, nunca foram acompanhadas de completa apuração e das punições necessárias.

A sucessão de casos escabrosos e de atos de corrupção já não surpreende o brasileiro honesto. Nesta semana, surge outro escândalo.

Uma tentativa de comprometimento de dois candidatos a cargos executivos com o "caso da compra das ambulâncias", mediante a negociação fraudulenta de suposto "dossiê".

Chantagem ou denúncia, mas com a evidente intenção de desqualificar concorrentes eleitorais.

Novamente, envolvendo assessor do Presidente, pessoas importantes na hierarquia do seu Partido e dinheiro de procedência duvidosa.

Já se torna evidente que a corrupção não é somente um ilícito do qual se beneficiam pessoas e grupos, mas sim algo que se transformou em meio de conquista e manutenção do poder.

A sensação é de perigo iminente à Democracia.

Por isso os Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica, por seus Presidentes, sentem-se no dever de manifestar, publicamente, sua indignação com esse estado de coisas e de ressaltar a importância das próximas eleições como instrumento à disposição do povo brasileiro para o saneamento da vida política nacional.

Almirante Esq José Julio Pedrosa - Presidente do Clube Naval

Gen Ex Gilberto Barbosa de Figueiredo - Presidente do Clube Militar

Ten Brig Ivan Moacyr da Frota - Presidente do Clube de Aeronáutica"]

Esse ardil é, sim, golpista.

É a tentativa antecipada de tirar a legitimidade da escolha popular, abrindo espaço, no futuro, para manobras não republicanas de gente que não é exatamente modelo de democrata.

Por fim, há outros conservadores que tem razões de sobra para votar em Lula: os banqueiros, que nunca lucraram tanto quanto nos últimos quatro anos.

Quem diria: o Bradesco e o MST enfim unidos no mesmo lado da trincheira.

[Enquanto escrevo, pisca na tela do G1, o portal de notícias da Globo: "O nível de pobreza da população brasileira teve forte queda nos anos de 2004 e 2005, de 19%, comparável apenas à redução ocorrida no início de Plano Real, dez anos antes. Os dados fazem parte da pesquisa “Miséria, Desigualdade e Estabilidade: O Segundo Real”, divulgada nesta sexta-feira (22) pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e que analisa a pobreza desde 1992. No Plano Real, entre 1993 e 1995, a queda havia sido de 18,4%.]

Aqui não vai qualquer juízo de valor.

Lula chegou antes a esse Brasil que vai além dos consumidores de jornal, tevê a cabo e internet banda larga, seja por intuição ou por ter enxergado o que outros só olhavam.

Assistimos hoje a um espetáculo de hidrofobia que, lamentavelmente, não se fez quando a Vale do Rio Doce foi privatizada ou quando surgiram denúncias de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comprou votos no Congresso para garantir seu direito à reeleição.

Embora isso não justifique o banditismo de integrantes do governo Lula, está claro que sanguessugas, vampiros e mensaleiros começaram a agir no governo FHC.

O que fez a Polícia Federal, então?

E Aristides Junqueira, o engavetador-geral da República?

Houve mudanças no Brasil, sim, nem sempre para pior.

O controle inflacionário e os programas de transferência de renda implantados nos últimos doze anos produziram o fortalecimento de um mercado de consumo que vai além da Zona Sul belga das metrópoles brasileiras, dos tradicionais formadores de opinião.

O que sei, porque estive lá, é que o que Lula diz - e da forma que diz - pode parecer outro idioma para os brasileiros belgas, mas é perfeitamente entendido em Parelheiros, Goiânia e Dourados.

Ainda mais quando comparado com o que dizia o belga que o antecedeu.

Quer saber das investigações que fiz do governo Lula? Clique em:

http://viomundo.globo.com/site.php?nome=PorBaixoPano&edicao=268

Quer saber da discussão que eu e um grupo de jornalistas tivemos com o presidente Lula? Clique em:

http://viomundo.globo.com/site.php?nome=MinhaCabeca&edicao=247

(atualizado em 25 de setembro de 2006)