quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Gerdau é cogitado para o ministério de Lula

Do Diário Gauche
Jorge Gerdau Johannpeter no ministério de Lula, no segundo mandato. É o que informa o jornalista Kennedy Alencar da Folha, repercutindo especulações de Brasília. Gerdau é um grande empresário do ramo da siderurgia – um setor que já não é mais “de ponta” há muitas décadas, pois teve o seu auge na segunda revolução industrial, no final do século 19. A siderurgia e os produtos de aciaria tem como concorrentes o plástico e o alumínio. O Brasil participa em apenas 3% do comercial mundial de produtos siderúrgicos, tendo 11 empresas no setor e empregando menos de 400 mil pessoas, direta e indiretamente envolvidos. É muito pouco. No plano internacional dos grandes business o setor siderúrgico simplesmente não existe. É considerado um setor atrasado e que exige muito protecionismo estatal, objeto de tensões comerciais no mundo todo. Sua última grande evolução tecnológica foi na década de 50, quando o setor adotou o conversor a oxigênio e o lingotamento contínuo.Gerdau teve um grande impulso patrimonial e nos negócios a partir do processo de privatizações do governo FHC, quando o grupo Gerdau assumiu a estatal Aços Finos Piratini. Estudiosos do setor apontam as privatizações, das décadas de 80 e 90, como um grande salto positivo para o negócio de metalurgia no Brasil e no mundo. Os EUA optam por oferecer forte protecionismo ao setor para torná-lo competitivo no comércio internacional. Esses elementos todos mostram o quanto o setor é dependente do Estado para continuar competindo com as novíssimas tecnologias, muitas delas auto-sustentáveis – o que não é o caso da siderurgia. Gerdau é um surfista dessa onda, capitão de um setor atrasado mas com métodos gerenciais modernos, tem conseguido no Rio Grande do Sul projetar uma imagem de modernidade e dinamismo, mesmo que seja de pura aparência. Politicamente é um emulador entusiasmado da direita no RS, estando permanentemente por trás dos grandes projetos de domínio do aparelho estatal gaúcho, desde Britto, Rigotto e agora com Yeda Crusius. A sua ascensão para o governo federal, caso se confirme, será uma vitória dos setores mais dependentes e predatórios do Estado, seja no âmbito regional, seja no nacional, bem como um golpe abaixo da linha da cintura no PT do Rio Grande do Sul. Lula pensa que está comprando uma Ferrari, mas a entrega revelará que trata-se de um Ford Bigode.

sábado, 21 de outubro de 2006

O momento da blogosfera

O que é a blogosfera? Inútil buscar a resposta em enciclopédias e fontes de informação tradicionais. O negócio é perguntar ao oráculo, o Google. Escrevo "define: blogosfera" no campo de busca. O oráculo diz:

Espaço virtual onde ficam todos os blogs; mundo dos bloggers.

A fonte da informação é um "Pequeno Glossário da Blogosfera". A Wikipédia traz, no artigo "blogosfera":

Blogosfera é o termo coletivo que compreende todos os weblogs (ou blogs) como uma comunidade ou rede social. Muitos blogs estão densamente interconectados; blogueiros lêem os blogs uns dos outros, criam enlaces para os mesmos, referem-se a eles na sua própria escrita, e postam comentários nos blogs uns dos outros. [...]
O conceito de blogosfera é importante para a compreensão dos blogs. Os blogs eles mesmos são, essencialmente, apenas o texto publicado dos pensamentos de um autor, enquanto a blogosfera é um fenômeno social.

A blogosfera caracteriza-se por conter páginas da Internet feitas por pessoas que manifestam seus gostos e opiniões sobre o que lhes interessa. Os blogueiros alimentam seus blogs com fotos e relatos do cotidiano, e também com material de sítios da Internet, principalmente de outros blogs. Eis o aspecto social da blogosfera. Em sentido amplo, a blogosfera é o mero agregado de blogs. Em sentido estrito, a blogosfera é mais do que um agregado, pois é uma comunidade na qual opiniões e contribuições de um blogueiro são ecoadas pelos outros.

Alguns minimizam a importância blogosfera. Dizem que a mesma é insular, sem impacto para além de si mesma. No entanto, não parece ser esse o quadro no Brasil. A campanha “Xô Sarney!”, promovida pela blogueira Alcinéa Cavalcante, é um exemplo de impacto da blogosfera do debate político. O candidato a senador José Sarney chegou a publicar no blog da Alcinéa um direito de resposta, sob determinação do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá.

O mínimo a ser dito é que a blogosfera faz barulho, e é escutada. Talvez uma metáfora proposta por Franklin Martins possa nos ajudar a compreender como se abriu espaço para a blogosfera ser ouvida. Martins percebeu que nas eleições presidenciais de 2006 os “formadores de opinião” dizem o que dizem, mas as pessoas não reproduzem os memes por eles emitidos. Ele diz que em outros tempos aquilo que os “formadores de opinião” diziam repercutia tal como as ondas causadas por uma pedra jogada no meio de um lago. As ondas se propagavam até chegar às margens. Agora o quadro mudou. Há diques entre o centro do lago e as margens. Aquilo que vêm do centro é refletido de volta sem chegar à margem. Talvez seja isso que tenha levado alguns desses “formadores de opinião” (e as aspas se justificam no contexto atual) a uma histeria cada vez maior, a qual sem dúvida foi contraproducente.

A metáfora acima explica como a opinião pública se emancipou dos “formadores de opinião”, pessoas com espaço ou salário para escrever em páginas de opinião de uns poucos jornais. Mas não é suficiente para explicar como a blogosfera é escutada. Para explicar isso talvez o melhor seja darmos uma olhada na imagem proposta pelo blogueiro Alon. Ele tem uma teoria composta de dois elementos sobre a difusão de idéias na nossa sociedade. Primeiro, uma revisão da metáfora da pedra no lago. Segundo, uma visão sobre a capilaridade entre a Internet e o público em geral.

Na visão de Alon não há diques impedindo as opiniões emitidas no centro de chegarem às margens. Ao invés disso, o que ocorre é que estão sendo lançadas muitas pedras no lago ao mesmo tempo. Boa parte dessas pedras são bem pequenas (e-mails, postagens em blogs), mas todas juntas deixam a superfície do lago bem tumultuada.

Tal tumulto é a trama de mensagens partindo de diversas partes e chegando a diversas outras partes em um único tecido, em uma única superfície, a sociedade.

Só com isso a teoria é incompleta, pois não explica como o ruído da blogosfera e da Internet pode chegar às margens, aos sem-Internet. Aí entra o segundo elemento da teoria do Alon. Basta que em uma comunidade um garoto saiba e possa usar a Internet para que a turbulência do lago possa chegar a todos na comunidade pela comunicação oral.

A teoria do Alon tem o mérito de tratar do modo como algumas idéias ultrapassam a barreira da Internet, mas é preciso reconhecer que tal barreira existe. Recentemente, o jornal Libération utilizou a expressão “bloguesia” para se referir à parcela da população que detém conhecimentos e meios (tecnologia) para se expressar de uma maneira que ainda não está acessível a todos, e influencia a tomada de decisões através desse meio. Ainda que talvez todos possam escutar o ruído da blogosfera, ainda estamos longe de contar com todos como falantes na mesma.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Em torno da candidatura de Yeda

Fórmula simplista de Paulo Feijó, candidato a vice-governador do RS: menos Estado = mais desenvolvimento.

Se a fórmula é pra valer, então no dia que o BNDES (o banco do desenvolvimeto) for fechado o Brasil vai explodir em crescimento.

Alguém aí se arrisca a desenvolver o raciocínio?

História no RSUrgente, charge no Blog do Kayser.

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A candidata Yeda dá de barato a fórmula para arrasar com os serviços públicos: funcionários aposentados não serão substituídos.

Sem funcionários os serviços não funcionam. Se não funcionam, aqueles que dizem que não funcionam acertam.

Isso é irresponsabilidade.

No RSUrgente.

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Você consegue imaginar Leonel Brizola e Paulo Feijó defendendo as mesmas posições?

Se sim, é provável que você tenha ótima imaginação. Se não, é provável que você lembre de alguns dos "tijolaços" do velho Briza.

RSUrgente analisa o brado "viva Leonel Brizola!" da candidata Yeda.

Briza nunca foi favorável a nenhum desses autoproclamados "novos" jeitos de governar. Seu modelo de governante, claro e explícito, sempre foi Getúlio Vargas. É bem diferente.

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Yeda cancela participação em debates.

No RSUrgente.

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Yeda propõe trazer ao RS o modelo de gestão da segurança aplicado por Alckmin em SP.

O crime organizado agradece.

No RSUrgente.

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E o candidato a vice Paulo Feijó admite que não tem nada sobre privatização no seu programa de governo, mas isso pode mudar.

Ou seja, o programa é mera tinta sobre papel.

No sítio do Olívio.

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E a candidata Yeda estava com o vice-prefeito de Porto Alegre, Eliseu Santos, quando ele manifestou desprezo pelas religiões afro.

Ela endossa a posição de Santos? Ela acha que religiões afro não são "obras de Deus"?

No RSUrgente.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

O mais espantoso mesmo...

O espantoso mesmo é a Opus Dei ter um candidato a presidente da república. Quem e o que a Opus Dei representa é o horror.

Também é espantoso que tal fato espantoso passe por algo natural.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Outro "dossiê"

"Miguel Freitas, carioca, garimpou um bom punhado de matérias que a falha de são paulo, a revista see (como dizem os eleitores de chuChucky) e outros abaitolá$ de $inhá mídia já publicaram, tempos atrás, mas que, assim como o conteúdo do dossiê dos sanguessugas, preferem, hoje, deixar pra lá."

O Pirata nos apresenta em sua zine este bem fundamentado dossiê, com informações reunidas de várias fontes, todas citadas e lincadas (disponível em Power Point e PDF). Vai lá que é quentíssimo, e gratuito.

domingo, 15 de outubro de 2006

A cor da violência

O relatório do "Estudo das Nações Unidas sobre a Violência contra Crianças", encomendado pela ONU, aponta para o fato de 70% dos jovens entre 15 e 18 anos assassinados no Brasil serem negros. Além disso, segundo a Folha de São Paulo, "a raça também representa 70% na estimativa de 800 mil crianças brasileiras sem registro civil. Entre os indicadores negativos, os negros só perdem para a população indígena na taxa de mortalidade infantil".

A violência, como fica confirmado mais uma vez, tem uma triste vinculação com os indicadores de desenvolvimento humano. Cruzando estes novos dados com os números de 2005 do PNUD, que informam que 64% da população negra vive na pobreza e que, dentre os 10% mais pobres da população brasileira, 71% são negros, não se pode pensar que é mera coincidência o fato desta população protagonizar a maior parte dos casos de violência do País. Excluídos da cidadania, sem perspectivas de estudo e trabalho, jovens de periferia são os indivíduos mais expostos à criminalidade, qualquer que seja o seu "papel" nos ciclos da violência.

Este massacre racial, assim caracterizado não só em razão da cifra absurda de homicídios que vitimam negros, mas também por uma cultura discriminatória que exclui milhões de brasileiros da cidadania, não gera tamanha comoção como a queda de um avião. É para o que alerta Cenise Monte Vicente, coordenadora do Escritório do Unicef em São Paulo: "Se somarmos as 14 mortes por dia, é mais de um Boeing a cada duas semanas, sendo a maioria formada por negros [...] É importante investigar as causas da tragédia do Boeing. Mas em relação a essas mortes [de jovens e negros], a gente não tem a mesma atitude e vigilância. Alguma coisa está errada."

sábado, 14 de outubro de 2006

Pietà


Today in Iraq nos traz a foto (acima) do corpo de uma garota de 8 anos, morta em um bombardeio estadunidense, sendo preparado para o funeral.

Os estadunidenses e ingleses suficientemente sofisticados para racionalizar perdas como a vida dessa garota de 8 anos deveriam ser, da mesma forma, igualmente sofisticados para reconhecer que, na cultura ocidental, a dor dos pais e parentes da garota morta é da mesma natureza da dor daquela que os devotos tratam como mãe e virgem ao mesmo tempo.

No fundo do que há de melhor na cultura ocidental há, entre outras coisas, a figuração da dor dessa mãe-virgem. Seu filho, o próprio Deus encarnado, é cadáver nessa representação.

O próprio Deus, cadáver, morto pelos homens, no colo da sua virgem mãe.

Se mortes como a da garota da foto não dizem nada para estadunidenses e ingleses, só posso achar que aquilo pelo que eles lutam é algum tipo de barbárie estranha. Se, do ponto de vista deles, tal morte não lhes diz respeito, só posso concluir que eles vivem em um mundo moral muito distante daquele fundamental para a cultura cristã-européia.

Se nessa história toda há alguém ameaçando a civilização européia, certamente não são aqueles com o raro privilégio e triste azar, nos últimos tempos, de viver num dos berços da mesma, entre os rios Tigre e Eufrates.

O neo gauchismo

Ou a síndrome do centauro invertido, onde por mutação genética, ou por simples derivação, maiores índices de fertilidade e manejo direcionado, o antigo “centauro das coxilhas” vem sendo substituído e superado em número pelo neo centauro, que hoje tem corpo de homem, ou mulher, e cabeça de cavalo, ou égua [...] Siga lendo.

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Uma Vale por dois YouTubes

NMM trata da "aposentadoria política" de Delfim Netto, ou melhor, da sua derrota nas últimas eleições.

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Cocadaboa não entende como pode a Vale do Rio Doce, uma empresa gigante da mineração, pode ter sido vendida por FHC por meros 3,3 bilhões de reais, troco suficiente para comprar apenas duas vezes o YouTube, um sítio de vídeos adolescentes com 90% de conteúdo pirata.

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E o chefe do exército britânico disse que chegou a hora deles caírem fora do Iraque. Notícia no Guardian e no Financial Times.

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Rafael Correa, candidato a presidente da esquerda Equatoriana, alerta para o risco de fraude na eleição de domingo. Notícia no 20 Minutos.

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RSUrgente
acusa negligência da Secretaria Estadual de Meio Ambiente do RS no caso do último desastre ecológico no Rio dos Sinos.

Os eufemismos da Fiergs e mais

O Diário Gauche apresenta os eufemismos e tergiversações da Fiergs na hora de afirmar com todas as letras que defende privatizações.

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Global Voices Online
diz que Israel está usando na Palestina, além das armas que matam, armas que mutilam permanentemente. Common Dreams relata que está estourando uma guerra civil na Faixa de Gaza.

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CUT diz que Alckmin é mais do velho e ruim FHC. RSUrgente diz que gastos de Alckmin com deslocamentos no governo de SP são maiores do que o valor do avião presidencial, e que sua vontade de vender o avião da previdência é só mais uma face do seu desejo de vender o patrimônio público.

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Tupiniquim
relata que milhares de pessoas se manifestaram hoje a favor dos índios mapuche em Santiago do Chile.

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CMI Brasil
relata que várias famílias sem-teto ocuparam um prédio no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

"Bye bye" - Alckmin tirando o corpo fora


Eis o que acontece quando o candidato que se diz ético e transparente tem que falar com uma imprensa de verdade. As perguntas pra valer vêem e ele tira o corpo fora. Diz "bye bye". Reclama que não era o combinado. Mas era o combinado. Só que para a repórter inglesa "combinado" não significa mera e simples propaganda. Significa uma pauta jornalística séria.

O vídeo acima mostra duas coisas. Primeiro, que Alckmin não assume responsabilidades. Segundo, que nossa grande imprensa está podre. Que outra resposta para a carência de tal tipo de questionamento nos nossos jornalões?

Com a palavra Alckmin, Folha, Estadão, Zero Hora etc.

Ensino superior: compatativo Lula x FHC

Do Bué de Bocas:

Durante os 8 anos de FHC/PSDB, as Universidades Públicas Federais foram sucateadas, o orçamento encolheu, os docentes e técnicos administrativos tiveram seus salários desvalorizados. Em quatro anos, o governo Lula retomou os investimentos e a valorização das Universidades Federais.

Desde 2004, o programa já criou 10 novas Universidades Federais e implantou ou consolidou 48 campi universitários, em todas as regiões do país, um crescimento de 24,65 % no número de IFES.

Bush chegou a 0,1 Hitler no Iraque

Vamos construir uma escala. Como Hitler chacinou 6 milhões de judeus, o genocida que chacine 6 milhões de seres humanos chega a 1 Hitler.

O Iraque está sob a autoridade dos EUA. Se há genocídio por lá, e há, a responsabilidade é dos EUA.

No Iraque sob autoridade dos EUA morreram 650 mil iraquianos por causa da invasão estadunidense. Uns 50 mil por doenças, uns 600 mil violentamente.

600 mil é 10% de 6 milhões. Bush chegou a 0,1 na escala Hitler.

(Bolação do Gustavo.)

terça-feira, 10 de outubro de 2006

O bad boy de butique no seu habitat

Imagem no Diário Vermelho.

Modernidade, estilo elite paulista, gaúcha etc.

No Diário Gauche:

Ora, não é nenhuma novidade num país em processo de escolha eleitoral ficar dividido. É natural e desejável, para o bem da democracia republicana que buscamos. O que espanta na boca de um professor que já foi qualificado de “príncipe dos sociólogos brasileiros” (sempre que eu escuto isso, não sei por quê, lembro do Clóvis Bornay com suas fantasias principescas no Carnaval do Hotel Glória, no Rio), é o fato de classificar arbitrariamente o “moderno” e o “atrasado”. Para o “príncipe” (no sentido de Bornay, não de Maquiavel) Cardoso, ele e seus pupilos tucanos-pefelês é que são modernos, e mais todos os eleitores alckmistas. Os “atrasados” são os eleitores do presidente Lula. A Folha, conservador jornal da família Frias de São Paulo, chegou a fazer uma matéria praticamente sugerindo o retorno do voto censitário ao País, mecanismo excludente proposto por outorga imperial de Pedro I na Constituição de 1824. Vejam o grau de regressismo a que chegamos! Os “mudernos” são regressistas – é o que acaba se concluindo, hoje no Brasil.

A elite rude

Para o blogueiro boz, Alckmin se arrisca a perder votos ao ser rude com uma pessoa querida pelo povo como o presidente Lula.

A elite brasileira é rude, e está nua. Iagê apresenta bem o quadro:

[...] O preconceito está literalmente colado a alguns indivíduos. Não bastasse a histórica e asquerosa birra direitista com a educação de Lula, recorrentemente desqualificado e menosprezado por sua origem operária, a tática agora é ainda mais leviana: ofensa em razão de uma deficiência física. A mão com quatro dedos, atravessada por uma faixa vermelha em sinal de proibição, denota a verdadeira natureza de uma direita que se intitula tão democrática e ética. É sintoma de puro desespero, levando ao abandono da disputa política.

Assim como Geraldo, o Alckmin, fez no debate da Bandeirantes, esquivando-se da discussão programática e partindo para um fuzilamento de munição dita "ética", os militantes tucanos (ao menos no Rio Grande do Sul, pois não sei se isso se repete no resto do País), estão se valendo de subterfúgios tão virulentos quanto os de seu candidato. O rótulo que desde 1989 tentaram colar a Lula - que sua formação intelectual era deficitária, já que vinha de uma classe popular e de emprego menos glamouroso - aparece agora em versão ainda mais hedionda. Tanto se cobra moralidade da campanha eleitoral e ética da política, mas nada se vê partindo destes paladinos para barrar preconceitos desta ordem, que não ofendem apenas ao Presidente da República, mas a qualquer um que enxergue o mínimo de dignidade em um ser humano.

A "raça a ser extinta", como convocou o senador nazi do PFL, Jorge Bornhausen, na figura de Lula, causa tamanho incômodo às elites que, no desespero e abstinência do poder sobre o Brasil, acabam desnudando seu caráter. Ou melhor, desnudam-se por inteiro, mostrando sua falta de caráter. A falta de capacidade e de autoridade moral e política para enfrentar diversos avanços notórios deste governo, cujo exemplo máximo me parece ser a transferência de renda, que atingiu dimensões jamais imaginadas neste País, faz com que o tucanato e todos outros pássaros que freqüentam esta árvore torta à direita e de raízes contaminadas por uma sede de opressão, apelem a táticas repugnantes, permeadas por preconceitos de classe, físico, racial e ideológico.[...]

Razões de R.J. Ribeiro para votar em Lula

O artigo abaixo saiu na Folha de São Paulo no dia 1/10/2006. É dica do Rogério S.

POR QUE VOTO EM LULA

Democracia é maior que qualquer um de nós

RENATO JANINE RIBEIRO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Eleição não é luta do bem com o mal. É comparação. Voto em Lula porque, a meu ver, seu governo melhorou o Brasil. Ele recebeu o país com uma agenda ditada pela direita, que reduzia quase tudo à política econômica, ou pior, à monetária e à fiscal; um país que, no fim de 2001, não cumpria mais o Orçamento, sem dinheiro nem para pagar passagens de ministros, com o dólar a R$ 4 e um risco-Brasil enorme. Ora, o governo de centro-esquerda foi capaz de acalmar a economia, de baixar o risco, de aumentar as exportações, enfim, de cumprir uma agenda econômica que não era sua prioridade, nem a dos movimentos populares, e isso sem privatizar nada, sem desfazer o patrimônio público.

Mais, ainda: Lula colocou na política brasileira, de modo definitivo, uma agenda social importante. E com êxito. Segundo Maria Inês Nassif ("Valor Econômico", 24/8), o maior rigor em programas como o Bolsa-Família e os do Ministério das Cidades "desintermediou o voto da população pobre, que antes passava pelo chefe local". Se isso é certo, não há paternalismo na atual política de promoção social. Não adianta ficar inventando que Lula se proclamou "pai dos pobres". Alguns jornalistas dizem isso, mas nunca informam quando o presidente teria usado uma linguagem tão contrária a suas crenças para se referir a si próprio. Tudo indica que há menos paternalismo agora do que antes.

É engraçado: quando se banhava de dinheiro o grande capital (empréstimos do BNDES a juros baixos para privatizar estatais), a opinião dominante chamava isso de progresso, mas, quando se dá dinheiro aos mais pobres, para comerem e se vestirem melhor, a mesma opinião dominante entende que dinheiro nas mãos de pobres não presta.

Discordo disso.

Quero uma sociedade democrática. Isso significa, em primeiro lugar, o fim da miséria, a redução da desigualdade social.

No horizonte político brasileiro, não vejo força melhor que a coligação de esquerda para promover esse salto qualitativo. Ela tem sido capaz de melhorar as condições sociais com uma temperatura baixa de conflitos, ao contrário do que diziam seus detratores.

O país não pegou fogo. O saldo do governo é positivo: a questão social está sendo bem orientada.

Agora vamos à questão ética.

No governo atual o procurador-geral não engaveta processos, a Polícia Federal age, CPIs funcionam. Já seu principal adversário impediu 60 CPIs de funcionar na Assembléia paulista, deixou uma política de segurança prepotente e ineficaz (porque acabamos sob o domínio do PCC) e uma política de educação que não é das melhores. Eleição é comparação. Não vejo no governo Alckmin superioridade ética sobre o governo Lula.

Contudo, há satisfações que o PT deve à sociedade. Os escândalos mostram que ele é um partido mais "normal" do que imaginava ser. Humildade não faz mal. O PT tem seus defeitos. Deve contas ao Brasil. Tem de fazer uma faxina interna e punir quem errou. Mas, ainda assim, consegue governar melhor que os outros. Aliás, seria bom o país todo fazer um exame de consciência. Com o financiamento privado de eleições, a porta se escancara para a negociata. Deveríamos priorizar em 2007 a reforma política, com fidelidade partidária, condições mais equilibradas de financiamento às candidaturas e talvez até o voto distrital.

Uma eleição não é uma guerra. Amanhã e sempre, teremos de conviver, quem votou em Lula ou nos outros candidatos.

Precisa cessar o terror discursivo, a ameaça ao voto universal. Este é o segundo ponto em que desejo uma sociedade democrática. Democracia significa respeitar o discurso do outro. Nas eleições, as pessoas se exaltam, mas é desonesto deformar o que o outro disse.

Muito do que hoje se conta sobre o PT ou sobre quem o apóia, como eu, é uma enorme caricatura. Isso amesquinha a política, que deve ser arena de adversários, não de inimigos.

Esse clima envenenado não ajuda o de que mais precisamos, não nós da esquerda, mas nós brasileiros: construir alianças, trabalho em conjunto, convergências. A sociedade é maior que a política. O Brasil é maior que os partidos. A pequena ambição não pode erodir nossas oportunidades.

Podemos enfrentar a miséria, melhorar a educação e a saúde, integrar os excluídos. Penso que Lula é o mais adequado, hoje, para dirigir o governo neste rumo mas penso também que este tem de ser um projeto de sociedade, e não apenas de governo. Não estamos, hoje, terceirizando a solução de nossos problemas. Estamos elegendo o mais apto a dirigir um esforço que deve ser maior do que ele e do que qualquer um de nós.


RENATO JANINE RIBEIRO , professor de ética e filosofia política na USP, é diretor de avaliação da Capes e autor de, entre outras obras, "A Sociedade Contra o Social - O Alto Custo da Vida Pública no Brasil" (Companhia das Letras)

domingo, 8 de outubro de 2006

Bolsa Família e sociabilidade

Essas melhorias [na alimentação] tiveram outras conseqüências na vida das famílias. Um expressivo percentual de [beneficiários] entrevistados (41,6%) afirmou que a maneira como suas famílias eram tratadas no local de moradia mudou para melhor após o ingresso no programa. Este dado, segundo os pesquisadores, aponta para dois aspectos positivos: em primeiro lugar, para uma maior possibilidade de estas famílias avançarem na direção da construção de redes locais de sociabilidade; em segundo, para uma melhora na própria auto-estima dos núcleos familiares, um elemento fundamental para a construção de estratégias voltadas para a saída da situação de extrema pobreza.
-- Marco Weissheimer, Bolsa Família, pp. 97-98

Para os pobres o Brasil cresce como a China

Na avaliação do pesquisador Sergei Soares, do IPEA, [...] para se ter uma idéia do que essa queda [da desigualdade social entre 2001 e 2004] significa, é importante assinalar que os 30% mais ricos perderam renda e os 20% mais pobres estão ganhando a uma taxa de quase 7% ao ano. Ou seja, acrescenta o pesquisador, para a população mais pobre, é como se estivesse morando na China, cuja economia está crescendo a essa velocidade.
-- Marco Weissheimer, Bolsa Família, p. 82