domingo, 9 de março de 2008

Administração Bush deu "casas" que causam câncer aos desabrigados do Katrina

As "casas" oferecidas pela administração Bush aos desabrigados pelo furacão Katrina contém níveis muito elevados de produtos cancerígenos e as 39 mil familias que nelas moram deverão ser realojadas o mais rápido possível,declarou Julie Gerberding, diretora do Centro de Controle de Enfermidades norte-americana (CDC).


O anúncio do CDC acontece meses depois de declarações de autoridades federais de que os trailers eram seguros, apesar de numerosas queixas de seus moradores que sofrem problemas de saúde.

Os 145 mil trailers tóxicos foram compradas pela Agência Federal de Administração de Emergências (FEMA) para servir de alojamento temporário para os desabrigados pelo Katrina, que assolou os Estados da Louisiana e Mississippi em agosto de 2005.

Visto na Periferia do Império.


Mulheres da Via Campesina destroem plantação de milho transgênico

Grupo ligado ao MST invadiu fazenda da Monsanto na manhã desta sexta (7). Objetivo foi protestar contra liberação da venda de duas variedades de milho transgênico.

Texto completo no G1. Comentário: nesta semana da mulher, as camponesas da Via Campesina trabalharam bastante.

O Equador, o Brasil, e a tríplice fronteira

O Equador, o Brasil, e a tríplice fronteira

Mauro Santayana

Em política nada ocorre por acaso, embora o acaso possa ajudar nos projetos de poder. Essa constatação é mais freqüente nas relações internacionais. Constatação inquietante, no caso do incidente entre a Colômbia e o Equador é a de que a operação militar foi deflagrada no momento em que a França negociava diretamente com Reyes a libertação de Ingrid Betancourt.

Há que se presumir que as Farc, até mesmo por tática política, estavam buscando alternativa à mediação de Chávez. Os contatos com Chávez e a operação de libertação dos outros reféns haviam vulnerado, de uma e de outra forma, a segurança dos guerrilheiros. Tudo indica que eles preferissem - como alguns observadores sugeriram - negociar a libertação da senhora Betancourt e de outros reféns, mediante o Equador. Houve, em terceiros países, encontros entre representantes das Farc e emissários de Quito, o que é natural em situações semelhantes. Do ponto de vista político, logo depois de obtida, com a ajuda de Caracas, a última libertação de reféns, convinha às Farc afastarem-se, com discrição, do presidente da Venezuela. Urgia negociar com o governo francês o modo de libertar a Senadora, no momento enferma. Quando mais depressa pudesse libertá-la - desde que não lhe fora possível fazê-lo antes - melhor seria para a ação militar e política das Farc.

É nesse momento que entra em jogo outro e importantíssimo fator: o interesse direto de Washington em dificultar o envolvimento do Elisée e do Quai d'Orsay na região. Sabendo-se que as operações militares do governo de Bogotá são assessoradas, há décadas, por conselheiros norte-americanos, seria de esperar que os setores da inteligência do Pentágono e da CIA agissem rapidamente, e em conjunto, para a localização dos guerrilheiros e a operação que os matou. E é preciso suspeitar que os documentos "apreendidos" pelos colombianos com Reyes sejam tão autênticos quanto as armas de destruição em massa de Saddam Hussein. É inverossímil - e, portanto, improvável - que Reyes levasse consigo, em missão, tão delicada quanto perigosa, ao território equatoriano, supostas anotações sobre a ajuda de Chávez à guerrilha e fuzis de brinquedo para treinamento. Chega a ser estúpida a hipótese de que as Farc fossem fabricar munições radiativas em plena selva. Especialistas em fabricá-las e usá-las são os ianques, como se viu nos Bálcãs.

Os Estados Unidos continuam movidos pelo enunciado do Destino Manifesto (de 1845) e da Doutrina Monroe (1823). A Doutrina Monroe não chegou a ser aplicada, embora fosse invocada, em 1867, para pressionar a França a abandonar suas pretensões no México. Em 1898 voltou a ser reivindicada na Guerra contra a Espanha - e se perverteu de vez, em 1904 - com a mensagem de Theodore Roosevelt ao Congresso. Nesse documento, conhecido como Corolário da Doutrina Monroe, os Estados Unidos se arrogam o direito de intervir na América Latina, quando considerem que qualquer governo da região não aja "corretamente".

O discurso de Bush, ao reiterar apoio a Bogotá, e considerar legítima a violação do território equatoriano, sob o pretexto do "direito de perseguição", deve ser entendido em Paris como advertência a Sarkozy. A França tem seus interesses na área, com a velha presença na Guiana. Qualquer conflito ali a obrigará a nele envolver-se, sob o risco de perder o departamento ultramarino.

É velha a constatação de que é preciso manter, até a exaustão, as conversações em busca do entendimento. E outro velho aviso recomenda restringir-se a área do conflito, buscando a neutralidade dos vizinhos. A diplomacia brasileira está bem preparada para agir. Trata-se também de oportunidade para que os países da América Latina dispensem a tutela do big stick de Ted Roosevelt e as tentativas recolonizadoras da Europa, tão claramente expostas pelos espanhóis, sob a presunção imperial de Juan Carlos. Não entende o Bourbon que uma coisa é nascer Carlos V e legar o reino e o Império a Filipe II; outra é dever o trono ao fascista Francisco Franco.

A proposta do presidente Lula - que poderia ter sido formulada por Rio Branco - de se criar organismo regional de segurança da América do Sul, é a primeira reação, serena e firme, a fim de que o continente dispense, de vez, a tutela européia e norte-americana sobre a região. Não cremos em destinos manifestos, mesmo porque o nosso é o de conquistar o que já temos, mediante a ocupação dos grandes vazios geográficos internos. Mas, para proteger a própria soberania, devemos contribuir para que a soberania dos outros também seja preservada, no Equador, como na Tríplice Fronteira. A isso podemos chamar diplomacia responsável - e estrategicamente pragmática.

Texto do JB Online.


Colombianos vão às ruas em passeata contra a violência

Milhares de pessoas tomaram as ruas das principais cidades da Colômbia, nesta quinta-feira, em protesto contra a violência. O principal alvo da manifestação eram os paramilitares, grupo que ganhou destaque na década de 1970, inicialmente com o objetivo de combater os guerrilheiros de esqurda das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A maioria dos participantes da marcha exigiu que os paramilitares confessem seus crimes de guerra. Além de violações aos direitos humanos, eles também são acusados de tráfico de drogas.

Homens, mulheres e crianças, alguns vestidos de preto e com bandeiras da Colômbia, mostravam fotografias de familiares desaparecidos ou assassinados por paramilitares, grupo de extrema direita. Em cidades como Washington, Paris e Quito também houve mobilizações. A mobilização, no entanto, não teve o mesmo apoio que a de 4 de fevereiro, quando centenas de milhares de pessoas saíram às ruas contra as Farc, pedindo o fim da violência e a libertação de sequestrados.

O texto completo n'O Globo Online.


Equador captura cinco guerrilheiros das Farc na fronteira com a Colômbia

O Exército do Equador capturou na noite de quinta-feira cinco supostos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias na Colômbia (Farc) perto da fronteira com a Colômbia. Desde o início da crise desencadeada por uma ofensiva colombiana contra as Farc em território equatoriano, o governo do Equador vem negando as acusações da Colômbia de que abrigue guerrilheiros. O governo do presidente equatoriano, Rafael Correa, busca apoio internacional para condenar a ação colombiana.

O texto continua em O Globo Online.

Rádios Comunitárias: Os 10 anos de uma lei troncha

RÁDIOS COMUNITÁRIAS
Os 10 anos de uma lei troncha

Dioclécio Luz

No dia 28 de janeiro de 1998, a triste figura de Antonio Carlos Magalhães, absolutamente tranqüilo, presidia o Senado. O ex-coronelzão baiano, ex-governador biônico, ex-ministro das Comunicações no governo Sarney, ex-Arena, PFL convicto, às 19h33 aprovou o projeto que regulamenta o Serviço de Radiodifusão Comunitária. Por que ACM não bradou aos céus e aos infernos contra essa proposta? Porque era a lei que ele queria. Na forma da Lei 9.612/98, ela foi sancionada no dia 19 de fevereiro de 1998 pelo então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso.

A lei começou a brotar no início de 1996 no Congresso Nacional, quando alguns parlamentares apresentaram projetos de lei, atendendo às queixas à repressão aos que atuavam com comunicação. Dizia a lógica: se não havendo lei há repressão, vamos fazer uma lei e acabar com isso. Mas em política a lógica é outra. E os militantes das rádios comunitárias tiveram que encarar um problema tão sério quanto a repressão: aqueles que faziam as leis no país.

Dava para confiar nos parlamentares para se construir uma boa proposta? Evidente que não. O Congresso Nacional era dominado por uma direita animadíssima, empolgadíssima, felicíssima com o novo presidente, um intelectual que sonhava grande para o mercado, Fernando Henrique Cardoso. Ele começava a pôr em prática os ensinamentos mais conservadores ditados pelo FMI, OMC etc. O Estado era destroçado, as empresas públicas se tornavam privadas, e para que ninguém aperreasse o mercado, criavam-se as tais agências reguladoras - instituições transgênicas, mantidas pelo erário público, para cuidar do mercado.

Igreja acima da lei

O impasse dos militantes da comunicação era este: continuar apanhando da Polícia Federal por não existir regulamentação; ou fazer uma lei ruim para a maioria da população. Valeu a segunda opção: decidiu-se brigar por uma lei, depois se cuidaria de consertá-la.

Na época, embora existisse uma onda na Europa e Estados Unidos, o conceito de rádio comunitária ainda era uma novidade no Brasil. Tanto que os muitos debates realizados tratavam de rádios "livres e comunitárias", misturando as coisas. Várias entidades entraram na luta pela aprovação do projeto, conforme seus interesses. Estava lá o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço), fundada em agosto daquele ano; Fórum Democracia na Comunicação (FDC), uma entidade que mantém o mesmo presidente há pelo menos 10 anos; Associação Paulista dos Proponentes de Emissoras de Radiodifusão local (Aperloc), Associação Paranaense de Radiodifusão Comunitária (Apercom), Associação de Rádios Comunitárias (Radiocom), Simprocom, Conselho Regional do ABC paulista, CNBB, parlamentares (a maioria, do PT).

A CNBB estava de olho no novo espaço. Ainda em 1996 (dia 24/10), muito espertamente, a Igreja Católica criou a Associação Nacional Católica das Rádios Comunitárias (Ancarc). Dois anos depois, com a lei aprovada, afastou-se dos mortais comuns e, discretamente, montou seu monopólio de "rádios comunitárias". Hoje, ela detém o poder sobre mais de 300 rádios comunitárias, devidamente legalizadas. De acordo com a lei, rádio comunitária não pode estar nas mãos dos padres, mas a Igreja Católica, como se sabe, sempre foi um poder acima das leis terrenas.

Inconstitucional, mas válida

O primeiro Projeto de Lei, nº 1.521/96, foi apresentado pelo deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP). Como outros, tratava da criação de rádio e TV comunitária. Mas televisão era demais. Numa audiência dos militantes das rádios com Sérgio Motta, ministro das Comunicações no governo FHC e um dos principais cérebros do projeto neoliberal, ele foi claro: "Rádio, tudo bem; televisão, nem pensar." Antes do final de 1996, outros sete projetos foram apresentados, juntando-se ao de Arnaldo Faria de Sá, incluindo a proposta do governo Fernando Henrique Cardoso, a mais medíocre e restritiva - estabelecia um alcance de 400 metros!

A intenção do governo FHC e seus aliados era de que a lei fosse a pior possível. Em 20/3/20006, a Abert (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão), por intermédio do seu presidente na época, Joaquim Mendonça, em reunião com um grupo de parlamentares, externou como queria a lei. Curiosamente, ela ficou como a Abert propôs.

O projeto foi aprovado na Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados no dia 4/12/1996. Como o relatório final, apresentado pelo deputado Koyu Ira (PSDB-SP), já trazia uma proposta que não servia à maioria da população, não havia como torná-la pior. O deputado Arolde Oliveira (PFL-RJ), porém, evangélico e dono de emissoras, propôs emenda, limitando o alcance a 1 quilômetro. Felizmente, ela foi rejeitada. E o texto na Lei 9.612/98 manteve a potência - 25 watts - como limite. Ocorre que o Executivo não gostou e, no Decreto 2.615/98, publicado no Diário Oficial de 4/06/1998, tacou lá: o alcance é de 1 quilômetro! Isto é, o Executivo fez a lei! É inconstitucional, mas está valendo.

STF posiciona-se favorável

A lei, que completou 10 anos de idade no último 19 de fevereiro, nasceu troncha, portanto. Ela existe para inviabilizar as rádios comunitárias. Como assim? Impede a publicidade, impede a formação de redes, impede o atendimento à comunidade; estabelece um único canal para o município; não protege contra interferências de outros serviços; remete à legislação arcaica e repressiva (Lei 4.117/62). Através do Decreto e da Norma regulamentadora, o Executivo fez a legislação (modificada no governo Lula), se tornar pior do que já era. Ela burocratiza, faz exigências estranhas (por exemplo, os diretores devem morar num círculo com raio de 1 quilômetro), e define de forma confusa o que é "apoio cultural". Uma definição suficiente, porém, para que os eficientes agentes da Anatel multem aqueles que não obedecem à lei. Aliás, multar, com valores acima de R$ 2 mil (o que é trágico para uma comunidade pobre), foi mais uma das formas encontradas pelo governo Lula para impedir a operação das rádios, legalizadas ou não.

O presidente Lula já se apresentou como um aliado das rádios comunitárias. Depois que chegou ao poder, todavia, embora ainda se apresente como aliado, as medidas que tem adotado servem apenas para inviabilizar as rádios. Ele ampliou o quadro da Anatel, principal agente repressor; equipou a agência com instrumentos modernos de repressão à comunicação ilegal; e encaminhou ao Congresso proposta que se tornaria a Lei 10.871/04, regulamentando a carreira dos agentes. Tal lei, em vigor hoje, atribui o poder de polícia aos agentes da Anatel - isto é, eles podem fazer a apreensão de equipamentos sem necessidade de mandado judicial. É evidente que o ato é inconstitucional. Tanto que em 1998, o PT, PDT e PCdoB, entraram com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o Art. 19, Inciso XV, da Lei Geral de Telecomunicações (LGT), nº 9.472/97, porque dava o poder de apreender equipamentos pelos agentes da Anatel. O Supremo Tribunal Federal se posicionou favorável a ADIN, acatando a posição do PT.

Poder de polícia

Portanto, o que o PT antes tratava como inconstitucional, seis anos depois transformou em lei. A política tem dessas coisas: as pessoas mudam de idéia, os partidos mudam de idéia, os dirigentes mudam de idéia. O que não faz o poder e a ganância pelo poder?

Mas o arsenal de maldades contra as rádios comunitárias não se esgota numa legislação nascida num Congresso contrário a ela. No final de 2007, a Anatel botou no ar consulta pública para levar as rádios comunitárias para fora do dial! Se o espectro de radiodifusão vai de 88 a 108 MHz, a Anatel, atendendo naturalmente aos interesses das emissoras comerciais, quer as rádios operando nas freqüências 87,5 MHz, 87,7MHz ou 87,9 MHz. Todas, em todo Brasil. Ocorre que os aparelhos de rádio disponíveis no mercado não estão preparados para receber sinais nestas freqüências - estão preparados para receber na faixa de 88 a 108 MHz. Portanto, para ouvir rádio comunitária o brasileiro terá que ir a um centro espírita, onde se captam sinais anormais.

O fato é que a legislação brasileira para as rádios comunitárias atenta contra os direitos humanos. Ela envergonha o país. É uma lei criada para reprimir os direitos legítimos da maioria da população à comunicação, uma tentativa de impedir que tenha voz esse povo historicamente segregado dos bens nacionais. E para quem ousar desobedecer às suas determinações, o aparato repressor do governo Lula faz uso - hoje! - de dispositivo criado pela ditadura militar (Decreto 236/67 aplicado à Lei 4.117/62).

Quem pretende atuar em rádios comunitárias, tem duas opções perigosas: submeter-se a uma lei cruel, discricionária, restritiva, que praticamente inviabiliza a operação das rádios comunitárias; ou partir para desobediência civil e botar a rádio no ar sem autorização, sendo sujeito à ação policial (muitas vezes sem mandado judicial) ou dos agentes da Anatel, imbuídos desse poder de polícia atribuído por lei.

Fuzis e metralhadoras

Submeter-se à lei não é fácil. A burocracia é lerda, burra, complexa e, pior, submissa aos humores políticos. Deputados, prefeitos e vereadores mandam no Executivo, conforme provou estudo realizado pelo professor Venício A. de Lima e o consultor da Câmara Cristiano Lopes para o Instituto Projor, mantenedor deste Observatório [ver "Rádios comunitárias: coronelismo eletrônico de novo tipo (1999-2004)"]. Há algo de podre no reino da Dinamarca. E, pelo visto, vai continuar. Estudiosos fazem uma acusação séria como esta (distribuição de concessões para os amigos políticos) e nada acontece no governo.

Se a rádio consegue ser aprovada no Ministério das Comunicações, antes de ser encaminhada ao Congresso, é submetida a uma nova avaliação política na Casa Civil. Se não tiver apadrinhamentos políticos, o processo trava.

Por conta dessa política de censura à liberdade de expressão, expressa por uma legislação restritiva e uma repressão eficiente, em 2004 o governo Lula foi denunciado à Comissão de Direitos Humanos da OEA. Na ocasião, a representante do governo enviada aos Estados Unidos afirmou que o governo apresentaria uma nova proposta de legislação. Não cumpriu. Em novembro de 2004, o governo montou um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) para estudar o caso e apresentar propostas. Era o segundo GT no governo Lula para tratar do mesmo assunto. O relatório do GTI foi concluído em agosto do ano seguinte. É muito ruim e expressa a covardia deste governo. Ele faz um diagnóstico real da situação, mas as propostas apresentadas são medíocres, frouxas, covardes. Por isso, o governo nunca o considerou um documento público - não se fala dele no Planalto, de onde deveria ser deflagrado o processo de debate para encaminhamento das propostas.

Os dez anos da Lei 9.612/98 estão associados a um recorde de rádios não autorizadas fechadas pela Anatel e Polícia Federal em 2007 - 2 mil emissoras. Isso dá uma média de mais de 5 rádios por dia, incluindo sábados e domingos! É muita eficiência do sistema. O fechamento se dá, muitas vezes, com a ocupação da emissora por agentes da Polícia Federal armados de fuzis e metralhadoras, nem sempre com apresentação de mandado judicial.

Ameaça constante de fechamento

Pior que isso talvez seja a censura da grande mídia - essa que cobra para si a liberdade de expressão - quanto ao que está acontecendo. Maria da Conceição Oliveira teve uma ataque do coração e faleceu horas depois de uma ação policial sobre uma rádio não legalizada em Teresina, Piauí, em dia 30/8/2005. O assunto não foi matéria em nenhum jornal deste país! A denúncia chegou à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e ao Ministério da Justiça e foi motivo de inquérito na PF e na Anatel... E a imprensa? Nada! A grande imprensa divulga que rádios comunitárias derrubam avião, atrapalham a polícia, servem para distribuir drogas. Compreende-se essa satanização das rádios comunitárias: afinal, elas constituem o melhor contraponto a essa imprensa tendenciosa e pasteurizada.

A grande imprensa não costuma apresentar as boas rádios, mas as picaretárias, aquelas que o movimento nacional das rádios comunitárias condena. São rádios de políticos, empresários, igrejas; rádios que imitam a programação comercial, emissoras que visam unicamente ao lucro, rádios que reproduzem unicamente os interesses da igreja católica ou evangélica. Estas não são comunitárias.

O fato é que a grande maioria das 3 mil emissoras autorizadas hoje não são rádios comunitárias. Portanto, o papel pregado na parede não garante que ela é comunitária. Esse papel, como prova estudo feito pelo professor Venício, foi obtido por métodos suspeitos junto ao Executivo. Isto já foi denunciado ao governo, mas ele é incapaz de mexer nessa sujeira. A Abraço já pediu uma revisão dos processos e a proposta não foi aceita. A verdade é que existem muitas rádios comunitárias de qualidade atuando sem a autorização oficial. Estas rádios dão aula de jornalismo, cidadania, solidariedade, democracia... Por isso mesmo vivem sob a ameaça constante de fechamento.

Boa notícia e esperança

Felizmente, o Judiciário, em várias instâncias, tem percebido a injustiça que se comete hoje - por tantos setores - contra quem faz rádio comunitária. São muitas as decisões pela devolução dos equipamentos da rádio apreendidos. Certamente, estes juízes conhecem um princípio alardeado por um antigo defensor da causa, o juiz federal aposentado Paulo Fernando Silveira, de Uberaba, Minas Gerais. Ele afirma que a função do Judiciário não é cumprir a lei, mas fazer justiça. É verdade. A maioria do povo brasileiro precisa mais de Justiça que de leis.

A Lei 9.612 faz aniversário e quem atua com rádio comunitária continua apanhando. Porque era esta a intenção dos que a fizeram. Bater nos que ousassem desobedecê-la.

Talvez só agora, em 2008, a lei possa ser reformada. A deputada Maria do Carmo Lara (PT-MG) está apresentando proposta neste sentido (ao relatar mais de uma dezena de projetos em tramitação) junto à Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara. Hoje tramitam no Congresso Nacional pelo menos 60 propostas de modificação da Lei 9.612/98. No ano passado, foi criada uma subcomissão na Comissão de Ciência e Tecnologia - presidida pela deputada Luiza Erundina (PSB-SP) e relatada pela deputada Maria do Carmo Lara - com o objetivo de avaliar as dificuldades existentes na legislação. Muitas dessas dificuldades foram criadas exatamente para garantir a manutenção do poder dos concessionários de rádio e televisão. As duas fizeram um grande trabalho e o relatório final, com uma série de propostas de mudanças na legislação existente, está disponível no site da Câmara.

O surgimento desta subcomissão e o bom trabalho desenvolvido por ela em 2007 colocam uma esperança no caminho de quem faz rádio comunitária. Foi a melhor notícia nos últimos dez anos. Quanto à Lei 9.612/98, enquanto ela existir o país continuará como nos idos de 1500. Para felicidade de uns poucos, e desespero da população brasileira.

Texto do Observatório da Imprensa.

O medo não é dos blogs, é dos leitores, por Carlos Cardoso

O medo não é dos blogs, é dos leitores, por Carlos Cardoso

Carlos Cardoso (*)



Fonte:Contraditorium

Estava matutando sobre a birrinha de sempre de alguns jornalistas (mea culpa: vamos parar de generalizar, há excelentes jornalistas que não morrem de medo do Futuro) e percebi que há dois fenômenos diferentes acontecendo aqui:

Um são os veículos, que demoram muito a entender as mudanças tecnológicas, principalmente quando são acompanhadas de mudanças sociais, comportamentais. Essa coisa de mídia colaborativa pegou todo mundo de surpresa.

Outra coisa são os profissionais. Assumindo que sempre haverá espaço para gente boa, o que leva alguns representantes dessa gente boa (notem que estou excluindo os medíocres. Não me culpem, reclamações com C. Darwin) a ficarem tão presos a um modelo arcaico?

Existe o fenômeno do pedestal, é muito bom o cara pagar um de Bozó, dizendo “trabalho na Globo”, “Escrevo pra Folha”, etc. Mas será isso mesmo o único motivo para essa birra com a Nova Mídia?

O grande problema com a nova mídia é que ela é de mão-dupla. E bota a cara na janela. Nos velho tempos (ou ontem, se você trabalha no Estadão) era fácil esconder-se atrás da fachada da empresa, toda a responsabilidade ia para O Jornal. Da mesma forma todas as críticas são devidamente filtradas.

Não como blogs, onde em geral, caso o sujeito não xingue nossa mãe, deixamos o comentário no ar, por mais idiota e ofensivo que pareça.

Comentários de blog devem parecer um horrível pesadelo para quem edita sessão de cartas de jornais, onde os textos são escolhidos a dedo, cortados, mutilados (ou “editados”, como dizem) e dependem da ENORME boa-vontade de alguém, para ir ao ar.



Texto completo no Comunique-se.

sexta-feira, 7 de março de 2008

AVISO

Estou reativando meu blog: http://doomar.blogspot.com/.
Quando puderem, visitem.
Abraço
Omar

Chamem a juíza Karam!!!

IVANA BENTES, PARA CARTA CAPITAL:

Assistir Meu Nome Não é Johnny depois de Tropa de Elite é ótimo para perceber os discursos estéticos e políticos que atravessam os filmes e seus personagens frente a questão das drogas e da violência: de um lado o mais novo herói brasileiro, o garoto propaganda da cerveja turbinado como Capitão Nascimento e defendendo a “moral da tropa”, a “boa” policia que destila ódio e ressentimento contra Ongs de “menininhas bonitas bem intencionadas”, demoniza jovens que fumam maconha (“quantas crianças vão para o tráfico para esse cara fumar um baseado”) , e rotula todos com a mesma insígnia de “inimigos públicos número 1”: consumidores, traficantes, policia corrupta, ongs, todos merecem um “corretivo” dos camisas-preta.

O filme e o personagem não criam nenhuma brecha para qualquer questionamento, a ação arrasta o espectador para um discurso regressivo e vingativo, bastante popular, de culpabilização, moralismo e terror, sintetizados na cena em que o Capitão Nascimento, enfia a cara de um consumidor num cadáver ensangüentado berrando “veado, maconheiro é você que financia essa merda!!!”

O prazer, o gozo regressivo do personagem em estado de excitação vai produzindo uma comoção fácil na platéia, a verdade da fúria santa e da “indignação”, o mesmo tipo de denuncismo e indignados que a mídia não cessa de repercutir e incensar, com a propagação de idéias e slogans simplórios, “contra a corrupção”, “contra dar dinheiro aos pobres”, contra qualquer política que crie uma real ruptura no estado das coisas.

Narrados na primeira pessoa, os dois filmes constroem uma identificação imediata, cinematográfica, entre o espectador e os personagens-narradores a partir desses momentos de catarse. O Capitão Nascimento excitando nosso devir-fascista, com sua “expertise”, frases-feitas, camisa-preta e apologia da tortura, do extermínio e celebração da morte. Ou seja, o terror de Estado legitimado cinematograficamente e socialmente. E, de outro lado, o narrador-experimentador, João Estrela, também falando na primeira pessoa do singular e partilhando seu devir-consumidor, devir-traficante, devir-família, devir-presidiário, devir-careta, sem que nada disso seja “incompossível”, nem tenha que ser demonizado e negado.

A primeira vítima da narrativa de Tropa da Elite é portando o espectador, tornado refém da lógica do Capitão Nascimento e de Matias, aspirante a Capitão, que só têm um devir: virarem assassinos fardados e arrastar o espectador no gozo regressivo da repressão, da tortura, e da infantilização, o Bope é o “bicho papão” de preto e caveira, fantasia carnavalesca que as crianças adotaram no Rio de Janeiro, “e que vai pegar você”.

O filme cola nesse discurso de tal forma que é impossível não querer o que ele quer e não justificar suas ações. O espectador se torna refém. Não é coincidência que o símbolo do Bope é a mesma caveira-símbolo dos esquadrões da morte. A pulsão de morte e a adrenalina, o gozo imperativo e soberano em ver, infligir e se expor a violência está presente em todo o cinema de ação comercial, numa regressão planetária que reafirma a "autoridade absoluta", o poder que normalizaria o caos e regraria a catástrofe, mesmo que utilize para isso a violência e arbitrariedade máximas. Toda a ideologia Bush, anti-terrorista, cabe aí. É o mesmíssimo discurso! A guerra infinita, a guerra total permanente.

O dualismo e pragmatismo do personagem do Capitão se repetem em cenas catárticas em que esculacha e sufoca com um saco plástico gosmento de sangue um garoto do tráfico, chutado, espancado, torturado, para passar mais informações. O filme justifica a tortura da “boa” policia como parte de sua expertise e eficiência. A tortura é apenas mais uma “tecnologia”, como o Caveirão, totalmente justificada, “moralmente” e cinematograficamente, como num “institucional do Bope”, como já disseram.

Meu nome não é Johnny aposta num anti-Capitão Nascimento, um anti-herói hedonista e sedutor, “no stress”, que cheira para se divertir, para amar, sem deixar de ser afetuoso, família, amigo, amante. A figura não-clichê de João Estrela sugere que o pressuposto de “um mundo sem drogas” é no mínimo hipócrita, e não leva em consideração a cultura e o desejo humano e um componente importante no cenário contemporânea, o risco assumido e livre. Como a gordura trans e o álcool, qualquer droga seria um “direito” do consumidor contemporâneo. Por que não?

É sabido que o consumo de drogas não fere nem ameaça a rede social, é uma decisão, um risco individual. O consumo de drogas não seria menos epidêmico e arriscado que o consumo de gorduras, aditivos cancerígenos, miríades de estimulantes, calmantes, excitantes e no máximo poderia ser um caso de saúde pública, não um caso de polícia se não houvesse a ilegalidade na produção e consumo.

É a ilegalidade e o proibicionismo que levam a criação de sistemas violentos para assegurar a produção e comércio das drogas. Grupos armados e para-militares para assegurar a produção e venda e defender o negócio da polícia e de outros concorrentes, acertos de contas internos, zonas de controle de territórios pela violência armada, corrupção, subornos, assassinatos para assegurar a lavagem de dinheiro, cultura da delação e da traição, delação premiada, produzindo ódio, desconfiança e vingança generalizados.
Sobre a legalização das drogas, o Capitão Nascimento age como uma toupeira. Essa hipótese não existe para o personagem, nem para o filme, dramaturgicamente. Em Meu Nome não é Johnny a questão aparece de forma mais interessante e complexa, mas não faz parte do mundo mental ou social dos personagens.

As hipóteses e explicações nos filmes patinam em clichês já sabidos (mas não custa repetir, Meu Nome não é Johnny é muito mais sofisticado e sutil).

Afinal, por quê não circulam outros discursos sobre as drogas, como os da juíza de direito Maria Lúcia Karam ou do advogado carioca André Barros, que defendem e militam pela descriminalização, a medicalização e a legalização das drogas, com avanços gradativos?

O usuário podendo fazer uso de consumo individual, freqüentar salas de consumo, ter acompanhamento médico e controle da qualidade do produto, até chegarmos a legalização e controle do comércio de drogas, seja por empresas privadas ou pelo estado.

Legalizar, defende a juíza, é quebrar o ciclo da violência das armas, da corrupção (da policia, de políticos, de empresários), da guetificação da violência e da repressão policial infringida às favelas e aos pobres, do uso e extermínio da mão de obra infantil e de jovens, da degradação da saúde, através do uso seguro, é romper um ciclo vicioso de violência já instalado.

Legalizar é acabar com a hipocrisia e combater a violência extrema e o regime de exceção e arbitrariedade legitimados pelo Estado, pela polícia, pela sociedade-anti-pobres e pelo tráfico, sócios na produção da atual barbárie.

Nem corrupção, nem omissão, nem guerra. A questão é de guerrilha, é não ficar refém do Capitão Nascimento, é minar os clichês e discursos conservadores. Chega de vingança regressiva, chamem a juíza Karam!

Que fazer, se, para a Espanha, brasileiro é escória?

Gosto da Espanha, adoro a cultura espanhola, detestaria me indispor com os espanhóis, e fico ouvindo uma vozinha que me diz "por que no te callas? por que no te callas?". Mas não dá para ficar calado quando o governo espanhol começa a barrar indiscriminadamente a entrada de brasileiros no continente europeu.

Experiência pessoal é fogo. Em Miami, no aeroporto, pós-11 de setembro, um senhor verifica meu passaporte, vê minha foto com barba, olha meu rosto escanhoado e me pede para que saia da fila. Me encaminha até um grupo de policiais mal-encarados, que, educadamente, verificam minha bagagem de mão, pedem para que eu me sente em um banquinho, passam delicadamente um aparelho detetor de sei lá o que pelas minhas pernas. Uma moça me pergunta o que é um pacotinho que trago na mala. São palhetas para saxofone, explico. "Ah, o senhor toca saxofone?", diz, sorridente. "Se eu respondesse que sim, na frente de algum vizinho, ele lhe diria indignado que não, de maneira nenhuma", respondi. Os policiais, riem, me devolvem passaporte, pertences, e me liberam, com um pedido de desculpas pelo transtorno.

Madri, 1992. Policiais mal-encarados me detém, com minha mulher, no desembarque, no aeroporto de Barajas. Nem olham para mim, e pedem rispidamente para que minha mulhar acompanhe uma policial até não sei onde. Espero, sob a vigilância de um sujeito mal-encarado e mal barbeado, enquanto minha mulher, como me contou depois, era submetida a uma revista minuciosa, de alcance ginecológico. Não encontram o que quer que esperassem encontrar no estranho _ para eles _ casal brasileiro, ele barbudo com cara de iraniano ou descendente árabe sul-americano; ela branquíssima, ruiva e de olhos verdes. Nos liberam sem um comentário, um cumprimento, contrafeitos. Voltei depois à Espanha, nunca mais tive problemas. Pretendo voltar.

Mas, sei lá se não escapei de sofrer a indignidade a que o governo da Espanha vem submetendo brasileiros hoje em dia, por "não se enquadrarem nos critérios da União Européia". Aparentemente esses critérios são, atualmente: não ser mulher de pele escura, nem ser jovem aventureiro sem 70 euros para cada dia que pretende ficar em continente europeu, e ter dinheiro para hospedar-se em hotéis. Só que não adianta cumprir os requisitos, se o brasileiro em viagem simplesmente provocar, no policial de plantão, a amargura de alma que o magnífico _ ainda que amigo de facistas _ espanhol Ortega y Gasset via nos conterrâneos, cuja "moradia íntima", dizia ele, "foi tomada há tempo pelo ódio, que vive ali artilhado, movendo guerra ao mundo". O policial da imigração tem poder para te arrebentar a viagem, se não for com sua cara. E, a Espanha, eles não têm ido com a cara de gente a pampa.

No caso, a guerra espanhola não é contra o mundo, como exagerava o filósofo, mas contra o que seus sabujos da Imigração acreditam ser a escória do mundo, os brasileiros e outros latinos que chegam à Europa, muitos deles , invertendo o fluxo que, no século passado, levou centenas de milhares de espanhóis a buscarem melhores oportunidades de vida na América Latina.

Retaliar, barrando turistas espanhóis que vêm ao Brasil só criará problemas para os pobres coitados da classe média espanhola que, contra todos os preconceitos e avisos sobre a violência nas cidades brasileiras, acreditaram que aqui há belezas naturais e gente simpática. Há outro tipo de espanhol que levaria mais eficientemente a mensagem de desagrado do Brasil ao governo da Espanha.

Ora, não há classe com maior acesso aos corredores do poder que a emprsarial. E os empresários espanhóis estão aqui, ao nosso lado, contentes com as oportunidades do mercado brasileiro, dispostos a satisfazer as necessidades do consumidor brasileiro; certamente tão sensíveis quanto nós às maldades feitas por oficiais de imigração, que tratam turistas ou sonhadores brasileiros como lixo, trancados sem seus telefones celulares em salas sem alimentação, sem condições decentes de higiene, sob tortura psicológica.

Falar com embaixador adianta pouco. Além do desgosto de ouvir uma explicação cínica, quem manda nesse assunto não é o ministério de Relações Exteriores, mas o do Interior. Que, aparentemente, não se preocupa com um punhado de basbaques do terceiro mundo que, vejam só, querem fazer turismo, ou, pretensão das pretensões, apresentar trabalhos em algum congresso europeu. Os diplomatas sérios da Espanha devem estar constrangidos, mas pouco fazem além de entrar numa disputa de burocracias por lá. Já os empresários, as empresas, essas têm acesso, e voz grossa.

No Brasil, os espanhóis, hoje, estão estão na aviação (Ibéria), no setor bancário (Santander, BBVA), no mercado editorial (Planeta, Alfaguara, Editora Moderna-Santillana), hotéis (Sol-Melliá), na telefonia (Telefónica, de péssimo desempenho, aliás, nos Procons da vida), e em muitos setores mais.. Em meu modesto papel de moderadíssimo consumidor, fico imaginando o que aconteceria se eu me abstivese de consumir produtos espanhóis ou de empresas espanholas enquanto a Espanha não mostrar que, em seu legítimo direito de conter a crescente onda de imigração para a Europa, pode tratar os brasileiros como gente, e não como escória. Fico imaginando o que aconteceria se muitos outros brasileiros passassem a fazer o mesmo.

Outro texto do Sérgio Léo, agora do Sítio. Este editor também recomenda seguir o linque do Sérgio Léo ao G1. Se você não seguiu, ainda tem chance de conferir o texto do G1, clicando aqui.

É preciso atenção à retaguarda

Nessa confusão toda, quem revelou uma maturidade de chefe de Estado foi o presidente Rafael Corrêa, que certos comentaristas, no Brasil, por motivos ideológicos, insistem em classificar no time dos porra-loucas esquerdistas. Sem gestos teatrais, ainda que suba o tom nas declarações aqui e ali, está fazendo o que lhe cabia, um périplo pela vizinhança, para obter apoio em uma reação contra Uribe. Considerando que há sérias acusações colombiabnas contra o Equador e Venezuela por suas ligações com as Farc, ele consegue, também, explicar o que pode ser apenas uma legítima negociação do governo equatoriano para liberar reféns e evitar problemas com os guerrilheiros. Usar o argumento de incursão preventiva, como fza o governo colombiano, é um péssimo precedente para a região.

As acusações de Uribe são graves, mas longe de serem incontestáveis. Algumas são verossímeis. Outras parecem recurso para desviar a atenção e legitimar a invasão que fez ao Equador.

Um detalhe interessante: os EUA, ao apoiarem a ação colombiana, a classificaram como ação contra o terrorismo, não contra o narcotráfico, costumeiramente apontado como a atual razão de ser das Farc. Claro que isso se deve à vinculação feita em Washington com a propaganda para justificar os atos dos EUA no Oriente Médio. Mas não deixa de ser curioso. Se o tráfico fosse a atividade principal da guerrilha, como explicar que se envolvam no complicado, trabalhoso e incerto ofício de seqüestradores, para sustentar suas atividades. Os vínculos das Farc com ot ráfico de drogas também são uma dessas certezas pouco provadas e pouco pesquisadas. Eu gostaria de ter mais infomações a respeito.

Também é melhor esperar mais informações que permitam dizer qual a natureza real dos contatos entre Venezuela, Equador e Farc, se é verdadeira a denúncia de financiamento por parte da Venezuela (verossímil, mas não provada). Me parece que essa tem sido a posição do governo brasileiro. Independentemente das evidentes simpatias de membros do governo brasileiro para com as Farc (as quais não compartilho), seria ingenuidade ou precipitação tomar partido nessa questão, no Brasil.

Enquanto isso, para melhor avaliação das chances de guerra na fronteira, trago aos bons leitores deste sítio dados para melhor avaliar as condições da mais bem guarnecida retaguarda colombiana:


Outro post do Ralações Internacionais, colocando uma pitada de humor na crise.


A realpolitik de Uribe, golpe certeiro


Tente imaginar guerrilheiros anti-Chávez escondidos na floresta amazônica, para lá da serra do Caparaó, em algum lugar de Roraima. Imagine se, por isso, o presidente venezuelano ordenasse uma incursão de tropas da Venezuela através da fronteira, usando seus recém-comprados jatos Sukhoi para dizimar a oposição armada, em pleno Brasil. Que grita não haveria por aqui, hein? E com razão.

Como a estridente agressividade de Chávez o transformou em vilão da vez na imprensa estabelecida, não vão faltar comentaristas que defendam como aceitável a invasão do território equatoriano por tropas da Colômbia, para um sensacional ataque aos guerrilheiros das Farc. É inaceitável. O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, está errado nesse episódio, e cabe ao Brasil condenar o desrespeito das Forças Armadas colombianas aos limites territoriais com o Equador.

Ah, o Equador e a Venezuela abrigam guerrilheiros em seu território, usado como refúgio seguro de onde partem agressões à Colômbia? O direito internacional prevê isso, e há instituições na América do Sul e na comunidade internacional para denunciar esse tipo de ação. Uribe poderia denunciar a conivência das autoridades vizinhas,e teria justo direito de cobrar apoio do Brasil nisso. Errado seria o Brasil não apoiá-lo caso agisse assim.

Não acredito em guerra nos Andes. Acuado pela tremenda crise econômica que seu modelo voluntarista criou, Chávez, claro, aproveitará a oportunidade para apontar mais um inimigo comum da sociedade venezuelana, o Uribe lacaio do Império, que invade os vizinhos na repressão aos opositores guerrilheiros. Se o discurso colar, a beligerância na retórica chavista vai ser ensurdecedora. E inócua, como costuma ser. Não há fato concreto que apóie algum tipo de conflito armado entre os dois países, e nem Uribe nem Chávez ~estão dispostos a serem o primeiro a jogar a pedra do outro lado.

Rafael Correa, do Equador, fez o que devia fazer, retirou seu embaixador de Bogotá, chamou o embaixador colombiano para exigir explicações, acusou Uribe de agressão. Tem um problem,a constrangedor a resolver, se forem verdadeiros os documentos capturados pelas forças de segurança colombiana, que mostram um estreitamento de relações entre as Farc e o governo equatoriano. Conversas com Raul Reyes, o vice-comandante e porta-voz das Farc morto na invasão, não são suficientes para dizer que Correa era conivente com a guerrilha. Reyes era o "embaixador" das Farc, e todos os países da região buscam contatos, sigilosos ou não, com as Farc para tentar um acordo de paz e desmobilização da guerrilha. Mas podem surgir outtros documentos comprometedores, e a posição do Equador tornar-se, no mínimo, incômoda.

Uribe agiu erradamente, mas deu um golpe de mestre. O governo colombiano (e outros, no continente) trabalha com a informação de que Marulanda, o grande chefe das Farc, está doente, e os grupos guerrilheiros enfraquecidos e sujeitos à desagregação. Com a invasão do Equador, matou não só o segundo no comando, como um dos principai8s ideólogos da guerrilha, Guillermo Enrique Torres, o "Julián Conrado". Sabiamente, já visou que não enviará tropas à fronteira, para onde Chávez e Correa dizem ter enviado regimentos armados. Menor o risco de algum incidente ter desdobramentos incontroláveis.

Na Colômbia, a esquerda já pede moderação. No Equador, porta-vozes das Forças Armadas informam que entregarão ao governo colombiano as três guerrilheiras que foram apenas feridas no ataque, e que estão em tratamento em um hospital militar na região. O Brasil _ país que vendeu à Colômbia os jatos (correção, a pedido do hermenauta: turbohélices! turbohélices!) usados no ataque, aliás, os nossos bravos Supertucanos _ pode ajudar a desarmar os conflitos, mas não pode cair na retórica chavista nem ignorar que Uribe transgrediu normas sagradas no convivio entre nações.

Correa, como Chávez, também passa por maus momentos na economia: inflação em alta, queda de investimentos, aumento do desemprego e desaceleração do produto interno bruto. POde querer aproveitar o incidente para desviar atenções da incomodada opinião pública equatoriana. Ou pode ter interesse em aplcara logo a crise, para concentrar-se na recuperação econômica.

Para o Brasil, além do desafio diplomático, o que sobra é o melancólico pesadelo em que se tornou o sonho de integração sul-americana. Se conseguir escapar das armadilhas políticas, o governo brasileiro pode até comer a crise pelas beiradas, tocando bilateralmente os projetos de infra-estrutura, de coperação técnica e econômica com os vizinhos, à espera de um melhor momento para falar em algum projeto continental.

Fica evidente, nesse momento, a posição privilegiada do Brasil, construída com a diplomacia condescendente dos últimos anos: o país é o único que tem franca interlocução e livre acesso em todos os governos do continente. A questão é, ainda, saber o que fazer com esse patrimônio.

Texto do Sérgio Léo, no Ralações Internacionais.

THE NEW YORK TIMES: EMBAIXADOR ADJUNTO DOS ESTADOS UNIDOS NO BRASIL SE REUNIU COM RAÚL REYES

O Embaixador Adjunto dos Estados Unidos no Brasil, Philip T. Chicola, também se reuniu com o "terrorista" Raúl Reyes, o dirigente das Farc assassinado no Equador pela Colômbia. A reveleção consta de dois parágrafos de um artigo publicado nesta quarta-feira (5/3) pelo diário The New York Times (NYT). O fato relatado pelo jornal aconteceu em 1998, durante a administração de Bill Clinton.

Segundo um documento do Departamento de Estado dos EUA, escrito pelo próprio Chicola em 1999 e desclassificado 2004, a reunião secreta aconteceu na Costa Rica e estava presente, além de Chicola e Reyes, Olga Marín, filha de Manuel Marulanda, o dirigente máximo da guerrilha colombiana. Segundo o documento citado pelo NYT, o objetivo da reunião era criar um canal de comunicação com as FARC durante situações de crise. Durante o ano de 1998 o guerrilheiro Raúl Reyes morava na Costa Rica e também se reuniu com o ex-presidente Rodrigo Carazo e com Óscar Arias, o atual presidente costariquenho..

Phil Chicola, como é conhecido, é Embaixador Adjunto no Brasil desde 2004. Cubano naturalizado norte-americano, ele ingressou no Departamento de Estado em 1979 e se especializou em assuntos da América Latina. É um especialista da administração norte-americana em dar suporte aos regimes autoritários da região. Esteve a Guatemala (1984-86) e El Salvador (1988 a 1993) apoiando as respectivas ditaduras. A partir 1998 se tornou Diretor do Escritório de Assuntos Andinos na Divisão de Assuntos do Hemisfério Ocidental, responsável pelo desenvolvimento do "Plano Colômbia". Seu currículo está a disposição no site da Embaixada dos estados Unidos no Brasil.

Visto no Prática Radical, que indicava a Periferia do Império.


Não digam que não avisamos...


Manchete do Portal Terra na tarde desta terça-feira: "Bush expressa total apoio a Uribe em crise".
Não é tão difícil assim entender a política latino-americana, basta partir do pressuposto de que o que é bom para Bush não pode ser bom para nosotros... Se os norte-americanos estão dando suporte ao presidente colombiano Álvaro Uribe, é bom o resto da macacada ficar de olhos bem abertos para ver o que vem pela frente. Claro que na atual correlação de forças não dá para imaginar os EUA intervindo diretamente em uma América Latina cada vez mais esquerdista, mas a Colômbia pode se tornar, digamos assim, uma espécie de posto avançado dos interesses norte-americanos no sub-continente. Bem financiado e armado, Uribe poderá começar a fazer pequenas provocações com o objetivo de desgastar os presidentes Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales – os que mais incomodam Washington. De provocação em provocação, não será surpresa se a região caminhar para um conflito explícito, com o império americano fornecendo a devida retaguarda à Colômbia, que mal consegue combater os soldados das Farc...


Do Blog Entrelinhas.

Saldos do confronto

Saldos do confronto

- Mais de sessenta mulheres e crianças feridas e atendidas na Santa Casa, quatro mulheres e duas crianças continuam hospitalizadas, um “coronel arranhado” e sua “agressora” presa.

- Todas as demais mulheres e crianças estão num ginásio esportivo da cidade.

- Nenhum membro do poder judiciário (?) compareceu ao local, juizes promotores e olha que temos fartura deles por estas bandas.

- Nenhum membro do poder legislativo (?), nem mesmo os que dizem fazer parte de uma comissão de direitos humanos e cidadania.

- A OAB não se fez representar.

- A maior autoridade da cidade ontem era um coronel da PM.

- O Prefeito (?) estava com um terno bonito nas entrevistas.

- A secretaria de saúde quando chegou foi ágil e solidária.

- O atendimento dispensado pelo Hospital Santa Casa na figura de sua provedora foi elogiável.

- O “repórter” da Zero Hora mesmo ao meu lado não conseguiu enxergar mulheres feridas, alias todo o PIG, ZH, Folha e Estadão viram apenas um coronel arranhado.

- O jornal local A Platéia foi o único que na edição de hoje se aproxima da verdade dos fatos. Inclusive com fotos. www.aplateia.com.br .

Enfim este é o presente oferecido pela governadora Yeda e o aparato policial do estado na semana da mulher que é comemorado na cidade. As papeleiras representadas pela Stora Enzo, patrocinadora da campanha política da governadora e de muitos deputados estaduais e federais eleitos agradecem sensibilizadas o tratamento dispensado aos movimentos sociais e em especial as mulheres camponesas.

Também do Blog do Gilmar da Rosa. Nota deste editor: ainda não consegui acessar o saite do jornal A Platéia. Possivelmente ele esteja tendo um pico de acessos, e precise passar por manutenção.

Manipulando a notícia - Mais notícias sobre as mulheres da Via Campesina na Fazenda Tarumã

Manipulando a notícia

É impressionante a forma como esta dita “imprensa” conservadora e golpista, manipula e distorce informações e fatos. Agridem e menosprezam a inteligência alheia. Na Zero Hora de hoje um relato do confronto agrário diz o seguinte: “As mulheres que invadiram a fazenda devem deixar o Ginásio Guanabara, em Santana do Livramento, ao meio-dia de hoje. Muitas delas foram submetidas na manhã de ontem a exame de corpo delito em razão das supostas agressões da Brigada Militar. Não há ninguém hospitalizado”. Protesto contra uso de força em mulheres clique no vermelho para ler a matéria. Supostas, Cara pálida? Eu estava delirando? Ninguém viu mulheres feridas, as fotos publicadas foi montagem? Na mesma linha hoje o blog Dialógico mostra a capa de ontem do “diário Gaúcho” que é outro lixo produzido no estado com titulo de jornal, e sua manchete diz: “CPI e policia investigam falha no Detran”. Este panfleto de direita e direcionado as classes D e E, que traz todo dia em sua capa uma “bunda de mulher” enxerga apenas uma “falha”, para eles a Fraude no Detran é invenção da Policia Federal e do Ministério Público. Este roubo que começou no governo Rigotto e continuou com Yeda na visão desta “imprensa (?)” é apenas uma falha. Ô raça.

Do blog do Gilmar da Rosa.

Procuradoria pretende denunciar governador de Alagoas ao Superior Tribunal de Justiça



A Procuradoria Geral da República pretende denunciar ao Superior Tribunal de Justiça o governador de Alagoas, Teotonio Vilela Filho (PSDB), por prática dos crimes de corrupção e peculato. A denúncia é resultado das investigações da Operação Navalha, da Polícia Federal, ocorrida em maio de 2007. Pesa contra Teotônio Vilela Filho a acusação de ter recebido R$ 150 mil por intermédio de Enéas Alencastro, representante do governo de Alagoas em Brasília. O dinheiro seria pagamento de propina de Zuleido Veras, dono da Gautama e apontado como chefe de um esquema de fraude em licitações.


Visto no Videversus.


quinta-feira, 6 de março de 2008

Cientistas dos EUA querem instalar câmeras em insetos


Cientistas americanos estão pesquisando a criação de insetos espiões biônicos, implantando mecanismos de controle e vigilância nestes insetos quando ainda estão na fase de larva.

A Agência de Projetos em Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos (Darpa, na sigla em inglês), que já tinha pesquisas com implantes de micro-câmeras e mecanismos de controle de movimentos em ratos, aves e tubarões, concentrou seus últimos projetos em insetos.

Segundo artigo publicado na revista New Scientist, os insetos se misturam ao ambiente mais facilmente e são mais ágeis durante o vôo.

O Projeto de Sistemas Mecânicos Microeletrônicos para Insetos Híbridos (HI-MEMS, na sigla em inglês) visa transformar em miniatura toda a tecnologia necessária para ser acoplada ao corpo de insetos voadores.

Durante seu desenvolvimento, a maioria dos insetos voadores (incluindo mariposas e besouros) passa por uma metamorfose, um estado de crisálida (ou pupa).

Neste estágio, enzimas dissolvem a maior parte do tecido que existia na fase de larva e o inseto é reconstruído.

O projeto HI-MEMS visa incorporar sistemas artificiais de controle nestes insetos, inserindo dispositivos durante o estágio de pupa.

Novos órgãos

A idéia deste projeto é que, enquanto os novos órgãos e tecidos dos insetos se desenvolvem, eles vão criar conexões fortes e estáveis entre os dispositivos e os tecidos musculares ou nervosos. Os dispositivos de controle então se transformariam em partes do corpo do inseto adulto.

Os pesquisadores do projeto HI-MEMS fabricaram sondas ultrafinas - algumas centenas de micrômetros de largura (1 micrômetro equivale à milionésima parte do metro) - de plástico flexível, com traços de metal para completar as conexões elétricas.

Apesar de a pesquisa do Departamento de Defesa americano estar cercada de sigilo, alguns detalhes puderam ser vistos em um vídeo exibido numa conferência em Tucson, no estado do Arizona, em janeiro.

As imagens foram gravadas no Instituto Boyce Thompson em Ithaca, Nova York. A equipe de cientistas implantou sondas de plástico flexíveis em uma crisálida de um tipo de mariposa antes que o inseto adulto emergisse.

Os músculos relativos ao vôo desta mariposa adulta respondiam a estímulos vindos desta sonda, que controlavam a velocidade e direção do vôo.

Besouros

Outro grupo financiado pelo Projeto em Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos implantou eletrodos no cérebro de um tipo de besouro, já adulto, perto de neurônios que controlam o vôo destes insetos.

Quando a equipe da Universidade de Berkeley, Califórnia, enviou pulsos de voltagem negativa ao cérebro do inseto, os músculos das asas do besouro começaram a se mover e o inseto começou a voar.

Um pulso de voltagem positiva fechou as asas do inseto e o besouro parou de voar. A rápida mudança entre estes sinais elétricos controlava o impulso e decolagem do besouro.

O objetivo do projeto Darpa é criar um inseto biônico que possa voar a pelo menos 100 metros de distância do controlador, pousar a cinco metros de um alvo e permanecer no local até receber o comando de retornar.

Dupla Traição







A valorosa categoria dos Defensores Públicos do Estado do Rio Grande do Sul foi hoje traída duas vêzes durante a votação do veto da governadora ao projeto de lei 430/2006 que, a exemplo do MP e da Magistratura, implementava o subsídio para a DP: pelo governo Yeda (reincidente em traição) e pela maioria dos deputados da base governista, que não honraram compromisso assumido pelas lideranças das bancadas partidárias em dezembro passado.
O veto da governadora tucana foi mantido por uma diferença de apenas dois votos: foram 26 a favor e 26 votos contra o veto. Eram necessários 28 votos para derrubá-lo. A categoria resolveu manter a greve por tempo indeterminado iniciada na última terça-feira. Com isso, não perdem somente os Defensores, mas principalmente a maioria da população pobre e excluída que tanto depende do trabalho da Defensoria Pública Estadual, cada vez menos valorizada pelo atual (des)governo gaúcho.

* Com o blog do Júlio Garcia

Falta uma perna; sobra coragem


Juliana Resende/BR Press

Primeiro foi Miss Sarajevo – a musa da pacificação pop dos Bálcãs, cantada por Bono e Pavarotti, celebrada por um concerto do U2 na então ainda fervilhante capital da Bósnia. Agora é a vez de Miss LandMine. É isso mesmo. Você entendeu certo:Miss Mina Terrestre, um concurso de beleza em Angola – o país com mais minas terrestres espalhadas por seu território – vai premiar com uma prótese de última geração a mulher mais bonita entre dez candidatas que foram mutiladas em explosões.

Antes de ser coroada por sua beleza, sorriso e estilo, a Miss Mina Terrestre será eleita por sua força de viver e sorrir frente a uma adversidade como esta, e pela sorte de ter sobrevivido. Minas terrestres geralmente são fatais – um clique e bum: vai-se desta para a "melhor". Para se ter uma idéia da violência e perversidade destas armas de guerra, há uma cena no filme Amor Sem Fronteiras (Beyond Borders, 2006), em que a personagem de Angelina Jolie morre despedaçada após pisar em uma mina na Chechênia.

Ação da ONU

O concurso está aberto e será realizado pela internet: os internautas poderão votar na candidata favorita pelo site do evento. Ali estão fotos das moças em poses interessantes para mulheres cujo destino é comovente e sempre em movimento, de preferência para frente. A vencedora do Miss Mina Terrestre será conhecida durante uma cerimônia de gala no dia 4 de abril, em Luanda, data escolhida pela ONU para celebrar o Dia Internacional da Conscientização e Ação contra as Minas.

O projeto, financiado pelo governo angolano e pela União Européia, foi idealizado pelo artista norueguês Morten Traavik. As candidatas participaram de uma sessão de fotos dirigida pelo artista em parceria com ONGs que trabalham com o auxílio para vítimas de minas terrestres.

70 mil mutilados

O evento é um alerta para o perigo das minas, além de promover o orgulho para as mulheres mutiladas, questionar os padrões de perfeição física e de beleza e a substituição do termo "vítima" para "sobrevivente". Mais de 70 mil angolanos já foram mutilados pelas explosões e mais de 2 milhões correm risco de sofrer acidentes em minas terrestres no país – que ainda tem entre 5 e 10 milhões de minas não detonadas, segundo estimativas.

As minas terrrestres em Angola são resultado de quase quatro décadas de guerra civil entre os grupos MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e o Unita (União Nacional para Independência Total de Angola). Mesmo após o fim da guerra civil, em 2002, 10% do território do país permanece contaminado com minas terrestres.

O site www.miss-landmine.org vale a visita.