quarta-feira, 12 de setembro de 2018


A utopia anarco-feminista alcançada?


El desconcierto

As mulheres kurdas, tentam destruir o menosprezo colonial com sua cultura e ter a responsabilidade de suas próprias vidas e decisões. Se juntam e discutem a forma em que a dominação do sistema patriarcal mantém seu poder através da separação entre uma mulher e outra. Não só estão lutando por sua libertação, mas também pela de todas as mulheres do mundo.

Rojava é a região kurda localizada no norte da Síria e que desde a antiguidade tem sido um lugar altamente dinâmico, pois a Mesopotamia é um dos três lugares donde se viveu a revolução do Neolítico. Não é de se estranhar que seja nesta região onde esteja desenvolvendo o que pode chegar a ser uma das mais importantes revoluções da história. Atualmente, Rojava está dividida em três cantões ou unidades administrativas: Kobane no centro, Jazira no leste, e Afrin no oeste. Este último cantão foi recentemente ocupado pelas forças especiais da Turquia e os e as kurdos atualmente estão tentando recupera-lo. Os três cantões funcionam de maneira cooperativa para enfrentar o Estado Islâmico (IS). Mesmo assim, nem toda a população dessas regiões é kurda, mas há kurdos/as, árabes, assírios/as, turcomanos/as, e pessoas de distintos grupos religiosos como mulçumanos, cristãos e yazidies.

Foi em 2011 que o movimento kurdo de libertação declarou sua intenção de construir um novo modelo de sociedade baseado no confederalismo democrático. Posteriormente, em 2012 ocorreram uma série de levantamentos populares com o fim de libertar as cidades e os povoados de Rojava onde habitavam majoritariamente kurdos e kurdas, e que estavam sob a ditadura de Ba'ath. Assim, o movimento estabeleceu um novo sistema democrático e em 2014 declararam pela primeira vez sua autonomia democrática.

O Partido dos Trabalhadores do Kurdistão (PKK) foi uma das organizações chaves que gerou e fortaleceu o movimento kurdo de libertação. O PKK foi fundado em 1978 pelos revolucionários/as kurdos/as e turcos/as, entre aqueles se encontravam seus líderes Abdullah Ocalan e Sakine Cansiz, que criaram este partido como um movimento de libertação marxista-leninista. Em meio a uma intensa atividade política onde o regime Ba'ath na Síria estava contra o governo turco pela propriedade sobre a água, o PKK inicia a guerrilha contra este Estado, que os/as estava reprimindo violentamente e que ocupava o norte do Kurdistão em 1984. Tanto os homens como as mulheres kurdas e/ou simpatizantes se uniram a esta guerrilha, o que marco esta participação das mulheres desde o início e que logo se traduziria na criação do exército de mulheres chamado A União de Mulheres Livres do Kurdistão (YAJK). As mulheres então se uniram à guerrilha e rechaçaram as tradicionais diretrizes patriarcais e criaram uma nova diretriz de lutadoras da liberdade. Assim, nas montanhas do Kurdistão, as mulheres criaram princípios de organização autônoma entre mulheres, uma liderança dual, e o requisito de existisse um mínimo de 40% de participação das mulheres em todas as áreas, aspectos que hoje se aplicam a todas as regiões do Kurdistão.

Öcalan foi preso em 1999 pelas forças especiais turcas graças à intervenção da CIA. Inicialmente o líder do PKK foi sentenciado a morte, mas graças a sua intervenção legal através de um acordo de paz, chegou-se ao confinamento solitário na prisão. Foi ali que Öcalan começou a estudar e referenciar os escritos do teórico libertário Murray Bookchin, historiadores como Wallerstein e Foucault, além de alguns movimentos sociais como o dos zapatistas. Graças à aprendizagem destas experiências e teorias, Öcalan cria o modelo do Confederalismo Democrático e a Autonomia Democrática.

O confederalismo democrático é um dos princípios do municipalismo libertário, a ecologia social e o feminismo. É um conceito para representar a democratização radical da sociedade, onde a diretriz e participação da mulher é de primeira importância, pois tal como diz o líder do PKK, "um movimento não tem oportunidade de criar uma sociedade livre real e duradoura a menos que a libertação das mulheres seja uma parte essencial de suas práticas" (tradução própria de Revolution in Rojava, p.43). Assim mesmo, este novo sistema social propõe uma administração política própria, onde todos os grupos da sociedade e todas as identidades culturais possam expressar-se nas reuniões locais, convenções ou conselhos. Busca-se a integração da sociedade como um todo e o político é parte da vida diária. Assim, esta revolução baseada no confederalismo democrático se compreende como anti-estatal, pois funciona por meio de uma economia comunal, isto é, cada comunidade tem uma autonomia; e anticentrista, com um trabalho desde a base. Em outras palavras,  "enquanto a nação democrática seria o espírito, a autonomia democrática representaria o corpo".

O mais interessante e distinto nesta revolução, em comparação a todas as que tivemos na história, é que o ponto central é a libertação da mulher. As e os kurdos estão criando uma sociedade livre do Estado, e para consegui-lo sabem que primeiro devem vencer o patriarcado. E esta ideia está na base tanto da democraticamente organizada em comunas, como do confederalismo em maior escala.

As mulheres kurdas, em meio a uma cultura e região onde ao serem violadas são abandonadas por suas famílias por ser uma vergonha, ou são assassinadas para salvar a 'honra', nos tem (de)mostrado que a emancipação da mulher pode ocorrer sob qualquer circunstância e lugar se houver organização, autodefesa e camaradagem. As mulheres tem enfrentado a cultura no mundo islâmico que não só desdenha a mulher abusada e/ou violada, mas também onde a 'honra' do homem se encontra na habilidade de controlar as mulheres e as meninas.

Quinze anos depois da prisão de Öcalan, eram principalmente as mulheres aquelas que apoiavam o movimento de libertação, pois sabiam que nesta filosofia arraigava sua liberdade e igualdade. As mulheres kurdas, tentam destruir o menosprezo colonial de sua cultura e tomar responsabilidade de suas próprias vidas e decisões. Se juntam e discutem a forma em que a dominação do sistema patriarcal mantém seu poder através da separação entre uma mulher e outra. Estas mulheres não somente estão lutando por sua libertação, mas também pela de todas as mulheres do mundo. Seu princípio é criar novos valores que se contraponham à cultura materialista do patriarcado, e reconfigurar os meios de expressão próprios das mulheres, sua arte e sua cultura. Portanto, se é que existe algum referencia do feminismo que as mulheres e seus aliados/as devemos olhar, esta é o Kurdistão e sua revolução. Se elas o estão conseguindo em meio a uma guerra, uma cultura de dominação masculina e um aprisionamento familiar, nós também podemos.

Fonte: http://www.eldesconcierto.cl/2018/08/22/la-utopia-anarcofeminista-alcanzada-la-revolucion-de-las-mujeres-kurdas-y-lo-que-debemos-aprender/

Prostituição e machismo
El puto amo

https://www.eldiario.es

"A prostituição não é o resultado da decisão das mulheres, elas são obrigadas a exerce-la desde a origem da história. É a imposição do machismo para que os homens reforcem sua masculinidade.".

Em que momento da história as mulheres introduziram de maneira livre e voluntária a prostituição como mais uma opção profissional? A resposta é simples: em nenhum.

A prostituição é uma criação machista para benefício dos homens e de seu modelo de sociedade, um modelo que necessita da coisificação das mulheres como parte essencial do mesmo. Se olharmos com perspectiva, o que ocorre não é muito diferente da estratégia machista em muitos outros âmbitos e com outros temas. É sempre o mesmo: primeiro se impõe uma ideia ou referencia que obriga, submete, domina, limita as mulheres, depois se normaliza sobre o hábito e o costume, e finalmente, naquelas questões mais transcendentais, se legaliza para que não reste a subjetividade nem a intempérie das circunstancias.




Um exemplo; primeiro se considera que as mulheres são inferiores aos homens e menos capazes, logo se levanta toda a estrutura social e de relações sob esse critério que as limita no pessoal e no laboral, depois se desenvolve uma série de normas que lhes impedem de votar, trabalhar, viajar... mais adiante, quando a situação se torna insustentável, são criadas normas que lhes permite trabalhar e viajar, mas com a permissão do marido... e assim até que a própria reação social e os movimentos e organizações de mulheres impedem os desvios e corrigem as injustiças que supõe essa construção. Contudo, o próprio sistema se encarrega de que incida o mínimo sobre esse machismo original, e que somente o faça sobre alguma de suas manifestações, o qual permite que suas ideias e valores se mantenham e se adaptem à situação sem renunciar a seus objetivos, ainda que lhe obrigue a mudar de estratégia.




Prostituição como imposição do machismo

A prostituição não é o resultado da decisão das mulheres, elas tem sido obrigadas a exerce-la desde a origem da história. É a imposição do machismo para que os homens reforcem sua masculinidade e sensação de poder através do sexo. Se as mulheres não tivessem sido consideradas como objetos e sexualizadas desde a infância a prostituição não seria possível. E se o machismo não houvesse criado as circunstancias para que muitas mulheres ao longo da história entenderem a prostituição como uma opção a mais dentro da normalidade, as mulheres não a escolheriam, do mesmo modo que nunca se aceitou a escravidão como uma opção laboral, posto que não se conseguiu normalizar essa forma de exploração.

Quando se tenta passar de uma prostituição forçada e obrigada para uma prostituição "livre e decidida", o êxito não é de quem era explorado e diz liberar-se fazendo o mesmo que fazia, mas do contexto que havia normalizado essa situação e que agora a mantém sob outras referencias.

Não devemos esquecer que a prostituição beneficia os homens e o machismo, e o faz a custa das mulheres e da igualdade. A prostituição não proporciona sexo aos homens, mas sim poder. A imensa maioria dos homens que consomem prostituição mantém relações sexuais com outras mulheres, e ainda assim acodem à prostituição para satisfazer seus desejos de poder das formas mais diversas, mas sendo eles os amos dessa mulher durante o tempo de contato, e reforçando para sempre sua ideia de homem e masculinidade para ser também os amos da sociedade.
Segundo um informa da APRAM, 39% dos homens de nosso país tem consumido prostituição, esses mesmos homens que também cometem violações, abusos sexuais, assédio sexual... nas circunstâncias mais diversas, e a tudo isso o fazem culpabilizando as mulheres por provocar, por agir com perversidade e engana-los, ou por arrepender-se e tirar maldade para denuncia-los falsamente, como temos visto recentemente após conhecer a sentença do caso "La Manada", cuja vítima, não por acaso, foi considerada em muitos comentários como uma "puta".

O que sucedeu estes dias com a solicitação para criar um "sindicato de trabalhadoras do sexo" reflete muito bem essa estratégia adaptativa do machismo, e como utilizam o teórico interesse e preocupação pelas condições de trabalho das mulheres que a exercem para benefício, mas sem questionar em nenhum momento o trabalho nem as circunstâncias que levaram a essas condições.

A estratégia é clara: primeiro as obrigam, as exploram, abusam, agridem... e depois, criadas algumas condições objetivamente inaceitáveis, ocultam a prostituição após as circunstâncias em que se exerce e pedem que se aja para melhorar as primeiras sem fazer nada sobre as segundas. E tudo isso sob a conversa fiada de fazer crer que se as condições de trabalho são mudadas vai se supor uma mudança na prostituição.


A chave, o plano social

Por essa razão, para ocultar o significado social e cultural da prostituição dentro do machismo, acode-se à voz individual de mulheres que livremente, e com todo o respeito e consideração de minha parte, pedem exercer a prostituição em condições adequadas.

A reivindicação dessas mulheres tem todo o sentido, tanto pelas condições em que desenvolvem sua atividade, que já temos comentado que são não assumíveis, como do ponto de vista de sua posição individual; mas a chave, como em tantos outros temas, não está no plano individual, mas no social, posto que são as referencias da sociedade as que criam o mito de crer escolher livremente num contexto machista que dá significado à realidade, até o ponto de criar um imaginário em que muitos homens dizem, "se a meus filhos lhes faltar comida, eu a roubaria", enquanto que as mulheres afirmam, "se a meus filhos faltar comida, eu me tornaria uma prostituta".

As decisões individuais não podem ir contra o marco da convivência nem a favor dos elementos que reforçam um sistema de ideias e valores como o machismo, baseado na injustiça da desigualdade. por isso se age contra um agressor ainda que a mulher diga que não se faça porque "é normal" que seu marido lhe bata, nem tampouco se aceitaria um grupo de pessoas que consumiram substancias tóxicas ilegais peçam que as deixem consumi-las em nome de sua liberdade, e de que elas com seu corpo fazem o que querem, ainda que dita decisão as prejudiquem.

O machismo criou a ideia de que os homens são os "fodões" da sociedade, e para isso lhes dá oportunidades para que se sintam assim, treinem seu ego e possam demonstrá-lo, como ocorre, por exemplo, com a violência de gênero normalizada e com a prostituição.

O resultado é claro, e cada homem, se assim o decide, com independência de seu status e circunstâncias pessoais, ao menos conta com um espaço no qual é o "fodão".

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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A guerra psíquica e a memória histórica

Quando a direita latino-americana planeja o esquecimento, pretende ocultar a verdade, aquela que aponta seus crimes.

Nestes tempos de capitalismo digital, da era da informação, com o big data como bandeira, o grau de ignorância se multiplica. A manipulação, a mentira e o esquecimento são armas numa guerra para minar a consciência. Trata-se de acabar com a memória, essa relação que nos une ao passado e faz do ser humano um ser social que vive e se responsabiliza com seus congêneres.
A contra-corrente, negar o papel da memória traz consigo romper a condição humana. Se a história se reduz a um conjunto de datas e épocas, que sentido tem perguntar o vínculo entre a bomba atômica e a decisão de lança-la? A quem responsabilizamos? Não tem um objetivo recordar se tal exercício não vá precedido de um ato em que o imperativo do dever se module a conduta. Atualmente, a renúncia à memória histórica, forma específica de memória, a cultural, tem enormes consequências para o futuro da humanidade.
A maneira de viver o mundo que nos propõem assemelha a um computador no qual se podem instalar programas desejáveis, inconexos, cuja função consiste  em entreter, despistar, não pensar e bloquear o acesso ao disco rígido. Somos apêndices dos algoritmos. Pensamos de maneira linear e rompemos o sentido não linear da existência. Assistimos à guerra psíquica de última geração, criar operadores sistêmicos, submissos na hora de receber e cumprir ordens.
Controlam-se os gostos, afetos, sentimentos, emoções, caráter. Não há ancoragem. Toda forma parte de um sistema caracterizado pela imediatez, pela velocidade e aceleração do tempo. Está proibido refletir. A nova inquisição atua de maneira invisível. Não precisa recorrer à violência física, ainda que não deixe de faze-lo. Agora trabalha na rede. Megas de internet, dispositivos sofisticados para não pensar. Agir, agir e agir. Vive-se um presente perpétuo.
A militarização do poder implica trasladar o sistema militar hierárquico às relações humanas cotidianas na vida civil. Para consegui-lo é obrigado a romper a vontade. O ser humano é atacado em sua natureza fazendo de migalhas uma de suas qualidades: a capacidade de juízo crítico sob  um componente ético e moral. O ser humano se faz migalhas. A vida se constitui em fragmentos. Robots alegres, pragmáticos, empreendedores, todos empoderados, sem uma grama de consciência coletiva. Maneira eficaz de anular as responsabilidades que são derivadas dos atos que cometemos.
A cibernética e a informática são as armas para consegui-lo. Não por seu princípio, mas sim pelo controle que o complexo militar industrial e financeiro fazem das tecnociências. Os livros de inteligência das grandes potencias tem conseguido trasladar o campo de batalha. Não mais Waterloo, Verdun, Stalingrado. Os mortos no corpo a corpo e baioneta calada se convertem em vítimas de novas armas estratégicas da guerra psíquica: Google, Facebook, Amazon, Microsoft, Twitter.
Sem memória, sem história, sem narrativas, não há opção de conhecimento, não há passado. Nossa responsabilidade consiste em trazer ao presente esse passado que nos condiciona, une e nós faz humanos. Não é possível fugir dessa responsabilidade. A memória coletiva é resultado de um processo, um diálogo permanente que mostra a relação biológica que nos une com nossos antepassados e o processo social e cultural. Supõe compartilhar filogeneticamente um tronco comum. Como assinalam os biólogos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana: a partir de um ponto de vista histórico,  o anterior é válido para todos os seres vivos e todas as células contemporâneas. Compartilhamos a mesma idade ancestral. Por isto, para compreender os seres vivos em todas as suas dimensões e com isso compreendermos a nós mesmos, faz-se necessário entender os mecanismos que fazem do ser vivo um ser histórico. Quando deixarmos de faze-lo só ficará viver a morte. Então nada unirá os seres humanos.
Tomar responsabilidades ético-morais frente ao passado implica reconhecer os erros cometidos, e no dizer de Enrique Florescano: responder por eles e fazer as reparações do caso às vítimas e a seus descendentes.
Quando a direita latino-americana planeja o esquecimento, pretende ocultar a verdade, aquela que aponta seus crimes, genocídios e assassinatos. Por isso renegam a memória e a consciência.

La Jornada

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Por Lula, Cristina, Correa e Maduro


Ángel Guerra Cabrera

O regime de Washington e as direitas locais lançaram uma contra-ofensiva integral
Na quarta-feira 22 Evo Morales tuitava: nos unimos ao pronunciamento da rede de intelectuais que denuncia ação de ingerência dos EEUU para derrubar o governo da Venezuela, e impulsiona uma perseguição midiática e judicial contra os irmãos Lula, Correa e Cristina.

Ante os contínuos triunfos eleitorais das forças populares e progressistas e o êxito de seus governos no combate ao neo-liberalismo ao elevar o bem-estar de nossos povos, Washington e as direitas locais optaram pelo judicialismo. Lançaram uma contra-ofensiva integral baseada no esquema das revoluções coloridas de Eugene Sharp, fundador líder da organização direitista Open Society, cujo histórico golpista e desestabilizador ocorre em toda a geografia planetária onde queira que haja governos que não são do agrado dos EEUU.
Evidenciando uma vez mais em nossa história que somente respeitam as regras da democracia representativa quando os favorecem, o imperialismo ianque e as direitas iniciaram uma cadeia de golpes de Estado contra os governos progressistas. A primeira vítima foi a pequena Honduras, onde derrubaram Manuel Zelaya (2009) pela força das armas, e para isso contaram com o apoio judicial, parlamentar e midiático. Seguiram os golpes contra o presidente Fernando Lugo no Paraguai (2012) e contra sua homóloga Dilma Roussef (2016) no gigantesco Brasil. Mas também tem havido várias tentativas de golpe contra os governos populares. O caso paradigmático é Venezuela por ter utilizado quase a totalidade dos recursos da guerra não convencional, híbrida ou de quarta geração. Para somente mencionar algumas ações muito relevantes, se produziu o golpe de Estado contra o presidente Hugo Chávez em 2002, precedido de um locaute (patronal) e seguido aos poucos meses da greve petroleira, que paralisou a principal indústria do país a um custo de bilhões de dólares. O golpe chegou a tirar Chávez do governo mas durou escassas 48 horas ao reinstalar o líder venezuelano logo após um contundente contra-golpe popular-militar sem precedentes. Ali se consolidou a unidade cívico-militar que venceu as numerosas tentativas de derrubar o chavismo, encarnado nos últimos anos pelo presidente Nicolás Maduro. Entre elas, as ferozes guarimbas de 2014 e 2017, o recrudescimento sem limites da criminosa guerra econômica e midiática e a recentemente frustrada tentativa de magnicídio contra o mandatário venezuelano. Não foi por acaso, este estava para lançar uma verdadeira revolução econômico-financeira dentro da revolução, que golpeará duramente a especulação contra a economia popular e romperá com o dólar como moeda de câmbio.
Também foram objeto de graves tentativas de golpe os presidentes Evo Morales (2008) e Rafael Correa (2010), os que, dada sua essência, não podem mesmo qualificar-se senão como golpes de Estado de nova geração. Ambos requereram uma ação enérgica da Unasur, hoje em processo de liquidação pelo atual governo equatoriano e outras administrações de direita da América do Sul.
Por sua vez, Lula está preso depois de um processo armado cujo único objetivo é impedir o político mais popular do país que participe das eleições para presidência em outubro deste ano. Submetido a um descomunal linchamento midiático internacional o governo golpista lhe proíbe manifestar-se nos meios, participar nos debates e sequer ter acesso livre ao telefone ou às redes sociais. Não obstante, continua sendo o líder em todas as pesquisas e já alcança uma intenção de voto de 39 por cento, muito acima de seus eventuais rivais. Apesar dos sonoros protestos e questionamento dentro e fora do Brasil busca-se a ilegalização de sua candidatura.
Algo parecido ocorre com o ex-presidente Correa, contra quem se desenrola um processo judicial espúrio e que, após meses de guerra midiática, pretende-se detê-lo pelo governo reconvertido a neo-liberal por Lenín Moreno mediante uma ordem internacional de captura. A direita teme que Correa seja o vitorioso de uma futura eleição.
Logo após numerosas montagens midiáticas e judiciais continua a perseguição contra Cristina Fernández de Kirchner, principal referencia do campo popular argentino, cujas propriedades estão ameaçadas de invasão, que, segundo o plano direitista, seria seguido da perda de foro parlamentar. Apesar disso, lidera as pesquisas para as eleições de 2019 e se as eleições fossem hoje derrotaria claramente o presidente Mauricio Macri, motivo principal de um maior enfurecimento contra ela. Necessitamos uma contra-ofensiva popular muito inteligente e criativamente organizada para derrotar aqueles que pretendem manter a ditadura oligárquica sobre os povos latino-americanos.

@aguerraguerra

Sabem os homens fazer amor

Sexualidade & Pós-machismo

Lidia Falcón
www.publico.es

Sobre o desencontro afetivo-sexual na época atual pós-moderna entre homens e mulheres por causa de uma socialização a partir do ponto-de-vista patriarcal da sexualidade masculina.

Minhas amigas e confidentes jovens me confessam outra preocupação que as torturam depois de saberem-se enganadas por seus pares. A torpeza que mostram, já enamorados, nas lides da sexualidade.
Torpes e egoístas, me dizem. Não todos, acrescentam, mas sim a maioria. Eles são tão machões, acham que sabem tudo, e o realizam tão rápida e bruscamente, sem ter com seu par a delicadeza e o jogo prévio que toda mulher deseja. E isso depois de se acharem conquistadores e especialistas.


Dizem a eles? pergunto a minhas interlocutoras, e, pondo-se acessos me replicam, oh não, não se pode dizer, ficaram ofendidos. O que é, vergonha, pudor? "Sim, também, mas é que ele não te escuta nem se concentra em ti. Como é muito homem se acha um sabe-tudo". E enquanto elas  não se atrevem a manifestar-lhes seu desencanto por não incomoda-los eles atuam com total prepotência e segurança, sem que lhes inquiete qualquer aceitação de seu para.

Penso nos anos heroicos do feminismo, quando saíamos das trevas franquistas, e organizamos cursinhos, encontros e discussões sobre sexualidade, ansiosas por aprender o que a educação nacional-católica nos havia roubado. Eram os tempos em que clandestinamente se conseguiam os livros de Freud, de Melanie Klein, de Alexandra Kollontai, de Simone de Beauvoir, de Marie Bonaparte, de Wilhelm Reich, que líamos e absorvíamos como esponjas.

As primeiras lições foram de anatomia, já que a maioria das mulheres sequer conheciam seu próprio corpo. E foi importante para aquelas gerações conseguir a aproximar-se às outras companheiras, compartilhar as noções fundamentais de sexualidade feminina e exigir de seus companheiros de cama a cota de prazer que lhes pertencia.

Nos prematuros anos 60, Eliseo Bayo e eu nos lançamos a fazer uma pesquisa sobre o comportamento sexual dos homens espanhóis. Eu havia comprado clandestinamente os Estudos de Kinsey. Aquele trabalho monumental que Kinsey, Pomeroy e Martin, os professores da Universidade de Indiana realizaram nos anos 50 nos EEUU investigando a verdadeira conduta dos estadunidenses na arte de fazer o amor. Não o que ditava a puritana e hipócrita moral oficial e nem o que presumiam os textos pornográficos. Depois os trabalhos de Johnson y Johnson de pesquisa prática com dezenas de casais que participaram. E publicamos umas reportagens que estremeceram a assustada e pacata sociedade espanhola.

Não sei quantos de meus compatriotas, que não sejam profissionais da pesquisa sexual, conhecem atualmente os trabalhos de Kinsey e Johnson ou a magna obra de Wilhelm Reich. Certamente nem todas as participantes do Movimento os leram, mas para as que divulgamos e trabalhamos e discutimos em seu estúdio chegamos a várias gerações de jovens que realizavam suas primeiras armas na difícil arte da sexualidade.

Atualmente observo que nos cursinhos, oficinas, encontros e debates feministas a sexualidade está excluída. Suponho que até o mundo feminista entenda que a liberalidade com que se expressam -tantas vezes vulgar- os escritores, os meios de comunicação, os participantes nos programas televisivos, professores e políticos, significa que não há mistério nem segredo que as mulheres e os homens ignorem sobre tal atividade humana.

E vejo, triste e espantada, que a principal fonte de informação sexual para os jovens, quase meninos, é a pornografia. Difundidas até a náusea por revistas e vídeos tem sobretudo seu suporte na internet.

Já naqueles primeiros anos, o Partido Feminista levou adiante uma oposição ativa à legalização da pornografia, que começava a inundar as salas de cinema. Não podíamos imaginar o veículo digital. Mas sim sabíamos que a pornografia está baseada no desprezo pela mulher. Em seus horríveis produtos, os homens desfrutam impunemente de corpos femininos para obter orgasmos rápidos com práticas agressivas e até cruéis.

Minhas discussões com o pornógrafo mais respeitado daqueles tempos nos meios de comunicação Román Guben, que pontificava diariamente sobre a bondade da pornografia, não evitaram que já não se faça distinção entre o erotismo e a pornografia, e que os cultos, sábios, modernos e pós-modernos especialistas do sexo, tacharam as feministas de retraídas, tolas, reprimidas, dominadas pela moral católica, e outras lindezas semelhantes. Alguém suponho que afirmou também que estávamos mal fodidas, como acusavam os estudantes franceses de 68 às feministas que começavam a planejar reivindicações. Até que estas retiraram um enorme cartaz que colaram na sacada da Universidade de Nanterre que dizia: "Todas estamos mal fodidas". Parece que induziu alguns ao silêncio.

E isto é o que deveríamos divulgar hoje, cinquenta anos mais tarde. As netas e bisnetas das "soixante-huitards" continuam mal fodidas. E podem planejar as mesmas queixas que seus antepassados. Desapego, impaciência, brusquidão e egoísmo que em tantas ocasiões vigoram nos homens a relação paquera, sedução e consumação do ato sexual. Com uma absoluta indiferença pela sensibilidade, ignorância ou retardo no gozo de sua companheira.

Os agressores da Manada, os jovenzinhos das últimas violações em Málaga, em Vitoria, em Cádiz, explicam que a pornografia é seu manual de referência que os guia desde a absoluta ignorância adolescente à realização das fantasias que abonam as imagens que se transmitem a velocidade astronômica pelas telas de computadores e de celulares. Imagens de violações, maltrato, exibição dos corpos e dos coitos. Humilhação das mulheres e triunfo machista dos homens.

O desprezo pela mulher nestes tempos está sendo movido pelas potentes empresas de pornografia, que tem o melhor mercado: a inquietação e a incultura dos jovens. Parece que a informação sexual que se dá nas diversas escolas é incompleta, vergonhosa, e destinada sobretudo a evitar gravidez e enfermidades de transmissão sexual. E nada sobre o complexo processo de realizar um amor prazeroso, sofisticado, respeitoso com sua companheira.

Se elas se atreverem a conceber seus desejos e exigências, estariam hoje qualificadas por seus companheiros de cama como reprimidas e tolas ou os jovens aprenderiam a aceitar ver-se na imagem que elas transmitem?

Aprenderiam a moderar suas impaciências, a controlar seu testosterona e a desfrutar do mais refinado prazer de ir descobrindo os segredos da capacidade mais misteriosa e prazerosa do ser humano, que é a sexualidade?

A que tem levado essa proliferação de imagens destinadas unicamente a exibir corpos formosos de mulheres, que são utilizados grosseiramente pelos homens? A aumentar o consumo de prostituição e de agressões sexuais. A acreditar que o prazer sexual se pode comprar ou alugar como o fazem os proxenetas. A entender a sexualidade como violência e não como sensibilidade, engenho e habilidade. Se a sexualidade masculina se satisfaz com quatro práticas elementares, para que perder tempo em cortejar, em fazer insinuações eróticas, em fazer carícias prévias e diálogos excitantes? Como algumas espécies animais, se vai ao coito rapidamente e tão contente.

Mas nem todas as espécies animais são tão bruscas, em algumas o cortejo leva muitas horas de exibição de suas qualidades, de suas características especiais, de seus adornos e beleza. De cantos especiais que embelezam no rouxinol, de esfregações repetitivos e extenuantes no gafanhoto, do arrulho das pombas, da exibição das penas do pavão real. E os jogos dos hominídios, variados e engenhosos: esfregando folhas para fazer ruído e chamar a atenção, saltando galhos, praticando o sexo oral.

E agora são os homens os que imitam aos mais rudes e elementares de seus antepassados.

Fuente: https://blogs.publico.es/lidia-falcon/2018/08/10/saben-los-hombres-hacer-el-amor/

Ataque destruiu parcialmente portal Cubainformación TV


23/08/2018 :: CUBAESTADO ESPANHOL
Cubainformación TV
Os companheiros apostam por continuar enfrentando

Comunicado de Cubainformación

A longo de 11 anos a web Cubainformación.tv sofreu dezenas de ataques digitais. Mas nenhum como o de sexta-feira passada, 17 de agosto, que conseguiu destruir parcialmente o portal.
Desde 2007 Cubainformación TV tem se empenhado em ser, como diz o lema, "uma brecha no bloqueio midiático" contra Cuba. Seus conteúdos rompem os moldes e clichês informativos, trata das realidades da Ilha silenciadas nos grandes meios internacionais, e coloca de cabeça para baixo as tergiversações, descontextualizações e mentiras midiáticas sobre Cuba.
Também tem apostado por apontar as matrizes de guerra midiática contra outros processos soberanos, como o da Venezuela. Em 9 de agosto, um vídeo de nossa produção (ver min. 5,20) foi empregado pelo vice-presidente venezuelano de Comunicação e Cultura, Jorge Rodríguez, para exemplificar a "apologia do terrorismo a la carte" que implementa o cartel midiático contra a Venezuela. Teve isto algo a ver coma a brutal agressão contra nosso portal?
O ataque conseguiu destruir completamente todos os conteúdos publicados na web entre fevereiro e agosto de 2018. Estamos reconstruindo alguns deles. algo que levará tempo e esforço. Queremos aproveitar para agradecer a todas as pessoas que nos tem manifestado solidariedade; às dezenas de voluntárias e voluntários que, de diferentes países do mundo, fazem possível esta mídia, por exemplo, de trabalho em rede; e ao Movimento de Solidariedade com Cuba e da Emigração Patriótica cubana, cujas dezenas de organizações nutrem Cubainformación TV de conteúdos informativos e de mãos voluntárias. O golpe tem sido duro, mas estamos com disposição de continuar adiante. Para isto, mais que nunca, necessitaremos ajuda. Estamos desenhando uma campanha, que logo anunciaremos: #yotambiensoycubaninformaciona. Está animado? Você também sente que é Cubainformación?
Pode enviar sua mensagem de apoio a cubainformacion@cubainformacion.tv
José Manzaneda
Coordinador de Cubainformación
Tel.: 94-4151107

www.cubainformacion.tv

http://www.cubainformacion.tv/images/stories/2018fotos/03trimjulagosep/CubainfoVertical-web.jpg

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Sequestro, tortura e morte de menores imigrantes nos EEUU

Por José López – Corriente Obrera, Los Ángeles, California


'Como se fosse uma ditadura militar, pessoas consideradas inimigas do Estado são sequestradas, torturadas e desaparecidas, e isto é o que está ocorrendo com adolescentes e menores de idade imigrantes nos EEUU.


Enquanto na América Latina foram impostos governos militares e regimes ditatoriais selvajemente repressivos e por vários anos para controlar as lutas populares dos povos sem que, apesar de tudo isso, a luta terminasse, e pelo qual se pagou um grande custo, os processos revolucionários que ocorreram, chegaram até onde puderam.

Hoje os imigrantes, em sua grande maioria latinos nos EEUU, praticamente lhes estão aplicando medidas repressivas muito parecidas às que ocorreram durante as ditaduras militares. Assim, já faz um ano, arrebatam-se adolescentes e menores de idade dos braços de seus pais e mães, com o qual se caracteriza um ato de sequestro, levando-os a um cárcere desconhecido -seus pais não sabem onde estão-, estabelecendo com isto um status de desaparecido, criando uma situação de tortura física e psicológica.
(...)'

http://kaosenlared.net/secuestro-tortura-y-muerte-de-menores-inmigrantes-en-estados-unidos/

A guerra imperialista contra a Venezuela incorpora os atentados terroristas.

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No contexto geopolítico internacional a potência imperialista, EEUU, perdeu sua hegemonia militar, econômica e política, daí que necessite a recuperação de sua influência na América Latina. Uma influência que, através de governos afins liderados de novo pelas oligarquias nacionais, lhe permita dispor dos recursos que necessita para sobreviver. Esta é uma das chaves que explicam as estratégias de derrocadas dos governos progressistas latinoamericanos e que aparecem detalhados em documentos estadunidenses como o Freedom II -elaborado pelo comando executivo da IV Frota-, ou o manual de golpes brandos de Gene Sharp (golpes institucionais, primaveras ou revolucões coloridas...).
A nova fase da agressão imperialista ao continente latinoamericano conjuga a promoção do fascismo interno das oposições ultraconservadoras com a difusão massiva das declarações de setores de "esquerda" contra os governos progressistas; as declarações a favor dos agressores de instituições como a igreja na Nicarágua, a utilização de mercenários e paramilitares, o financiamento através de ONGs como a USAID ou a NED "promovendo a democracia e a sociedade civil", o uso massivo e sistemático da propaganda através dos meios de comunicação, etc...
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