quarta-feira, 12 de setembro de 2018


A utopia anarco-feminista alcançada?


El desconcierto

As mulheres kurdas, tentam destruir o menosprezo colonial com sua cultura e ter a responsabilidade de suas próprias vidas e decisões. Se juntam e discutem a forma em que a dominação do sistema patriarcal mantém seu poder através da separação entre uma mulher e outra. Não só estão lutando por sua libertação, mas também pela de todas as mulheres do mundo.

Rojava é a região kurda localizada no norte da Síria e que desde a antiguidade tem sido um lugar altamente dinâmico, pois a Mesopotamia é um dos três lugares donde se viveu a revolução do Neolítico. Não é de se estranhar que seja nesta região onde esteja desenvolvendo o que pode chegar a ser uma das mais importantes revoluções da história. Atualmente, Rojava está dividida em três cantões ou unidades administrativas: Kobane no centro, Jazira no leste, e Afrin no oeste. Este último cantão foi recentemente ocupado pelas forças especiais da Turquia e os e as kurdos atualmente estão tentando recupera-lo. Os três cantões funcionam de maneira cooperativa para enfrentar o Estado Islâmico (IS). Mesmo assim, nem toda a população dessas regiões é kurda, mas há kurdos/as, árabes, assírios/as, turcomanos/as, e pessoas de distintos grupos religiosos como mulçumanos, cristãos e yazidies.

Foi em 2011 que o movimento kurdo de libertação declarou sua intenção de construir um novo modelo de sociedade baseado no confederalismo democrático. Posteriormente, em 2012 ocorreram uma série de levantamentos populares com o fim de libertar as cidades e os povoados de Rojava onde habitavam majoritariamente kurdos e kurdas, e que estavam sob a ditadura de Ba'ath. Assim, o movimento estabeleceu um novo sistema democrático e em 2014 declararam pela primeira vez sua autonomia democrática.

O Partido dos Trabalhadores do Kurdistão (PKK) foi uma das organizações chaves que gerou e fortaleceu o movimento kurdo de libertação. O PKK foi fundado em 1978 pelos revolucionários/as kurdos/as e turcos/as, entre aqueles se encontravam seus líderes Abdullah Ocalan e Sakine Cansiz, que criaram este partido como um movimento de libertação marxista-leninista. Em meio a uma intensa atividade política onde o regime Ba'ath na Síria estava contra o governo turco pela propriedade sobre a água, o PKK inicia a guerrilha contra este Estado, que os/as estava reprimindo violentamente e que ocupava o norte do Kurdistão em 1984. Tanto os homens como as mulheres kurdas e/ou simpatizantes se uniram a esta guerrilha, o que marco esta participação das mulheres desde o início e que logo se traduziria na criação do exército de mulheres chamado A União de Mulheres Livres do Kurdistão (YAJK). As mulheres então se uniram à guerrilha e rechaçaram as tradicionais diretrizes patriarcais e criaram uma nova diretriz de lutadoras da liberdade. Assim, nas montanhas do Kurdistão, as mulheres criaram princípios de organização autônoma entre mulheres, uma liderança dual, e o requisito de existisse um mínimo de 40% de participação das mulheres em todas as áreas, aspectos que hoje se aplicam a todas as regiões do Kurdistão.

Öcalan foi preso em 1999 pelas forças especiais turcas graças à intervenção da CIA. Inicialmente o líder do PKK foi sentenciado a morte, mas graças a sua intervenção legal através de um acordo de paz, chegou-se ao confinamento solitário na prisão. Foi ali que Öcalan começou a estudar e referenciar os escritos do teórico libertário Murray Bookchin, historiadores como Wallerstein e Foucault, além de alguns movimentos sociais como o dos zapatistas. Graças à aprendizagem destas experiências e teorias, Öcalan cria o modelo do Confederalismo Democrático e a Autonomia Democrática.

O confederalismo democrático é um dos princípios do municipalismo libertário, a ecologia social e o feminismo. É um conceito para representar a democratização radical da sociedade, onde a diretriz e participação da mulher é de primeira importância, pois tal como diz o líder do PKK, "um movimento não tem oportunidade de criar uma sociedade livre real e duradoura a menos que a libertação das mulheres seja uma parte essencial de suas práticas" (tradução própria de Revolution in Rojava, p.43). Assim mesmo, este novo sistema social propõe uma administração política própria, onde todos os grupos da sociedade e todas as identidades culturais possam expressar-se nas reuniões locais, convenções ou conselhos. Busca-se a integração da sociedade como um todo e o político é parte da vida diária. Assim, esta revolução baseada no confederalismo democrático se compreende como anti-estatal, pois funciona por meio de uma economia comunal, isto é, cada comunidade tem uma autonomia; e anticentrista, com um trabalho desde a base. Em outras palavras,  "enquanto a nação democrática seria o espírito, a autonomia democrática representaria o corpo".

O mais interessante e distinto nesta revolução, em comparação a todas as que tivemos na história, é que o ponto central é a libertação da mulher. As e os kurdos estão criando uma sociedade livre do Estado, e para consegui-lo sabem que primeiro devem vencer o patriarcado. E esta ideia está na base tanto da democraticamente organizada em comunas, como do confederalismo em maior escala.

As mulheres kurdas, em meio a uma cultura e região onde ao serem violadas são abandonadas por suas famílias por ser uma vergonha, ou são assassinadas para salvar a 'honra', nos tem (de)mostrado que a emancipação da mulher pode ocorrer sob qualquer circunstância e lugar se houver organização, autodefesa e camaradagem. As mulheres tem enfrentado a cultura no mundo islâmico que não só desdenha a mulher abusada e/ou violada, mas também onde a 'honra' do homem se encontra na habilidade de controlar as mulheres e as meninas.

Quinze anos depois da prisão de Öcalan, eram principalmente as mulheres aquelas que apoiavam o movimento de libertação, pois sabiam que nesta filosofia arraigava sua liberdade e igualdade. As mulheres kurdas, tentam destruir o menosprezo colonial de sua cultura e tomar responsabilidade de suas próprias vidas e decisões. Se juntam e discutem a forma em que a dominação do sistema patriarcal mantém seu poder através da separação entre uma mulher e outra. Estas mulheres não somente estão lutando por sua libertação, mas também pela de todas as mulheres do mundo. Seu princípio é criar novos valores que se contraponham à cultura materialista do patriarcado, e reconfigurar os meios de expressão próprios das mulheres, sua arte e sua cultura. Portanto, se é que existe algum referencia do feminismo que as mulheres e seus aliados/as devemos olhar, esta é o Kurdistão e sua revolução. Se elas o estão conseguindo em meio a uma guerra, uma cultura de dominação masculina e um aprisionamento familiar, nós também podemos.

Fonte: http://www.eldesconcierto.cl/2018/08/22/la-utopia-anarcofeminista-alcanzada-la-revolucion-de-las-mujeres-kurdas-y-lo-que-debemos-aprender/

Prostituição e machismo
El puto amo

https://www.eldiario.es

"A prostituição não é o resultado da decisão das mulheres, elas são obrigadas a exerce-la desde a origem da história. É a imposição do machismo para que os homens reforcem sua masculinidade.".

Em que momento da história as mulheres introduziram de maneira livre e voluntária a prostituição como mais uma opção profissional? A resposta é simples: em nenhum.

A prostituição é uma criação machista para benefício dos homens e de seu modelo de sociedade, um modelo que necessita da coisificação das mulheres como parte essencial do mesmo. Se olharmos com perspectiva, o que ocorre não é muito diferente da estratégia machista em muitos outros âmbitos e com outros temas. É sempre o mesmo: primeiro se impõe uma ideia ou referencia que obriga, submete, domina, limita as mulheres, depois se normaliza sobre o hábito e o costume, e finalmente, naquelas questões mais transcendentais, se legaliza para que não reste a subjetividade nem a intempérie das circunstancias.




Um exemplo; primeiro se considera que as mulheres são inferiores aos homens e menos capazes, logo se levanta toda a estrutura social e de relações sob esse critério que as limita no pessoal e no laboral, depois se desenvolve uma série de normas que lhes impedem de votar, trabalhar, viajar... mais adiante, quando a situação se torna insustentável, são criadas normas que lhes permite trabalhar e viajar, mas com a permissão do marido... e assim até que a própria reação social e os movimentos e organizações de mulheres impedem os desvios e corrigem as injustiças que supõe essa construção. Contudo, o próprio sistema se encarrega de que incida o mínimo sobre esse machismo original, e que somente o faça sobre alguma de suas manifestações, o qual permite que suas ideias e valores se mantenham e se adaptem à situação sem renunciar a seus objetivos, ainda que lhe obrigue a mudar de estratégia.




Prostituição como imposição do machismo

A prostituição não é o resultado da decisão das mulheres, elas tem sido obrigadas a exerce-la desde a origem da história. É a imposição do machismo para que os homens reforcem sua masculinidade e sensação de poder através do sexo. Se as mulheres não tivessem sido consideradas como objetos e sexualizadas desde a infância a prostituição não seria possível. E se o machismo não houvesse criado as circunstancias para que muitas mulheres ao longo da história entenderem a prostituição como uma opção a mais dentro da normalidade, as mulheres não a escolheriam, do mesmo modo que nunca se aceitou a escravidão como uma opção laboral, posto que não se conseguiu normalizar essa forma de exploração.

Quando se tenta passar de uma prostituição forçada e obrigada para uma prostituição "livre e decidida", o êxito não é de quem era explorado e diz liberar-se fazendo o mesmo que fazia, mas do contexto que havia normalizado essa situação e que agora a mantém sob outras referencias.

Não devemos esquecer que a prostituição beneficia os homens e o machismo, e o faz a custa das mulheres e da igualdade. A prostituição não proporciona sexo aos homens, mas sim poder. A imensa maioria dos homens que consomem prostituição mantém relações sexuais com outras mulheres, e ainda assim acodem à prostituição para satisfazer seus desejos de poder das formas mais diversas, mas sendo eles os amos dessa mulher durante o tempo de contato, e reforçando para sempre sua ideia de homem e masculinidade para ser também os amos da sociedade.
Segundo um informa da APRAM, 39% dos homens de nosso país tem consumido prostituição, esses mesmos homens que também cometem violações, abusos sexuais, assédio sexual... nas circunstâncias mais diversas, e a tudo isso o fazem culpabilizando as mulheres por provocar, por agir com perversidade e engana-los, ou por arrepender-se e tirar maldade para denuncia-los falsamente, como temos visto recentemente após conhecer a sentença do caso "La Manada", cuja vítima, não por acaso, foi considerada em muitos comentários como uma "puta".

O que sucedeu estes dias com a solicitação para criar um "sindicato de trabalhadoras do sexo" reflete muito bem essa estratégia adaptativa do machismo, e como utilizam o teórico interesse e preocupação pelas condições de trabalho das mulheres que a exercem para benefício, mas sem questionar em nenhum momento o trabalho nem as circunstâncias que levaram a essas condições.

A estratégia é clara: primeiro as obrigam, as exploram, abusam, agridem... e depois, criadas algumas condições objetivamente inaceitáveis, ocultam a prostituição após as circunstâncias em que se exerce e pedem que se aja para melhorar as primeiras sem fazer nada sobre as segundas. E tudo isso sob a conversa fiada de fazer crer que se as condições de trabalho são mudadas vai se supor uma mudança na prostituição.


A chave, o plano social

Por essa razão, para ocultar o significado social e cultural da prostituição dentro do machismo, acode-se à voz individual de mulheres que livremente, e com todo o respeito e consideração de minha parte, pedem exercer a prostituição em condições adequadas.

A reivindicação dessas mulheres tem todo o sentido, tanto pelas condições em que desenvolvem sua atividade, que já temos comentado que são não assumíveis, como do ponto de vista de sua posição individual; mas a chave, como em tantos outros temas, não está no plano individual, mas no social, posto que são as referencias da sociedade as que criam o mito de crer escolher livremente num contexto machista que dá significado à realidade, até o ponto de criar um imaginário em que muitos homens dizem, "se a meus filhos lhes faltar comida, eu a roubaria", enquanto que as mulheres afirmam, "se a meus filhos faltar comida, eu me tornaria uma prostituta".

As decisões individuais não podem ir contra o marco da convivência nem a favor dos elementos que reforçam um sistema de ideias e valores como o machismo, baseado na injustiça da desigualdade. por isso se age contra um agressor ainda que a mulher diga que não se faça porque "é normal" que seu marido lhe bata, nem tampouco se aceitaria um grupo de pessoas que consumiram substancias tóxicas ilegais peçam que as deixem consumi-las em nome de sua liberdade, e de que elas com seu corpo fazem o que querem, ainda que dita decisão as prejudiquem.

O machismo criou a ideia de que os homens são os "fodões" da sociedade, e para isso lhes dá oportunidades para que se sintam assim, treinem seu ego e possam demonstrá-lo, como ocorre, por exemplo, com a violência de gênero normalizada e com a prostituição.

O resultado é claro, e cada homem, se assim o decide, com independência de seu status e circunstâncias pessoais, ao menos conta com um espaço no qual é o "fodão".

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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A guerra psíquica e a memória histórica

Quando a direita latino-americana planeja o esquecimento, pretende ocultar a verdade, aquela que aponta seus crimes.

Nestes tempos de capitalismo digital, da era da informação, com o big data como bandeira, o grau de ignorância se multiplica. A manipulação, a mentira e o esquecimento são armas numa guerra para minar a consciência. Trata-se de acabar com a memória, essa relação que nos une ao passado e faz do ser humano um ser social que vive e se responsabiliza com seus congêneres.
A contra-corrente, negar o papel da memória traz consigo romper a condição humana. Se a história se reduz a um conjunto de datas e épocas, que sentido tem perguntar o vínculo entre a bomba atômica e a decisão de lança-la? A quem responsabilizamos? Não tem um objetivo recordar se tal exercício não vá precedido de um ato em que o imperativo do dever se module a conduta. Atualmente, a renúncia à memória histórica, forma específica de memória, a cultural, tem enormes consequências para o futuro da humanidade.
A maneira de viver o mundo que nos propõem assemelha a um computador no qual se podem instalar programas desejáveis, inconexos, cuja função consiste  em entreter, despistar, não pensar e bloquear o acesso ao disco rígido. Somos apêndices dos algoritmos. Pensamos de maneira linear e rompemos o sentido não linear da existência. Assistimos à guerra psíquica de última geração, criar operadores sistêmicos, submissos na hora de receber e cumprir ordens.
Controlam-se os gostos, afetos, sentimentos, emoções, caráter. Não há ancoragem. Toda forma parte de um sistema caracterizado pela imediatez, pela velocidade e aceleração do tempo. Está proibido refletir. A nova inquisição atua de maneira invisível. Não precisa recorrer à violência física, ainda que não deixe de faze-lo. Agora trabalha na rede. Megas de internet, dispositivos sofisticados para não pensar. Agir, agir e agir. Vive-se um presente perpétuo.
A militarização do poder implica trasladar o sistema militar hierárquico às relações humanas cotidianas na vida civil. Para consegui-lo é obrigado a romper a vontade. O ser humano é atacado em sua natureza fazendo de migalhas uma de suas qualidades: a capacidade de juízo crítico sob  um componente ético e moral. O ser humano se faz migalhas. A vida se constitui em fragmentos. Robots alegres, pragmáticos, empreendedores, todos empoderados, sem uma grama de consciência coletiva. Maneira eficaz de anular as responsabilidades que são derivadas dos atos que cometemos.
A cibernética e a informática são as armas para consegui-lo. Não por seu princípio, mas sim pelo controle que o complexo militar industrial e financeiro fazem das tecnociências. Os livros de inteligência das grandes potencias tem conseguido trasladar o campo de batalha. Não mais Waterloo, Verdun, Stalingrado. Os mortos no corpo a corpo e baioneta calada se convertem em vítimas de novas armas estratégicas da guerra psíquica: Google, Facebook, Amazon, Microsoft, Twitter.
Sem memória, sem história, sem narrativas, não há opção de conhecimento, não há passado. Nossa responsabilidade consiste em trazer ao presente esse passado que nos condiciona, une e nós faz humanos. Não é possível fugir dessa responsabilidade. A memória coletiva é resultado de um processo, um diálogo permanente que mostra a relação biológica que nos une com nossos antepassados e o processo social e cultural. Supõe compartilhar filogeneticamente um tronco comum. Como assinalam os biólogos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana: a partir de um ponto de vista histórico,  o anterior é válido para todos os seres vivos e todas as células contemporâneas. Compartilhamos a mesma idade ancestral. Por isto, para compreender os seres vivos em todas as suas dimensões e com isso compreendermos a nós mesmos, faz-se necessário entender os mecanismos que fazem do ser vivo um ser histórico. Quando deixarmos de faze-lo só ficará viver a morte. Então nada unirá os seres humanos.
Tomar responsabilidades ético-morais frente ao passado implica reconhecer os erros cometidos, e no dizer de Enrique Florescano: responder por eles e fazer as reparações do caso às vítimas e a seus descendentes.
Quando a direita latino-americana planeja o esquecimento, pretende ocultar a verdade, aquela que aponta seus crimes, genocídios e assassinatos. Por isso renegam a memória e a consciência.

La Jornada